segunda-feira, 14 de outubro de 2019

COLONIA MINEIRA (SIQUEIRA CAMPOS - PARANÁ): alguns acontecimentos de abril de 1930.

Apontamentos Históricos da Colônia Mineira e Siqueira Campos no Norte Pioneiro do Estado do Paraná

Prof. Roberto Bondarik, Dr.
bondarik@utfpr.edu.br
bondarik@outlook.com

Tendo pesquisado sobre os acontecimentos relacionados à Revolução de 1930 no Norte Pioneiro Paraná, chamado aquele tempo de "Ramal Ferroviário do Paraná". Chama a atenção o desenvolvimento socio-econômico da região nos momentos proximos ao confronto bélico que se fez sentir em Affonso Camargo (atual Joaquim Távora-Pr) e em Quatiguá. A então Colônia Mineira (atual Siqueira Campos) teve um papel importante na preparação da Revolução e nos acontecimentos decorrentes de sua efetivação.

Não tenho conhecimento sobre se exatamente, na história da cidade de Siqueira Campos se mantem registros sobre o que se passou ali em abril de 1930, fatos publicados no jornal "O Estado de São Paulo" edição de 18 de abril de 1930, página 20. Sessão denominada "Notícias do Paraná", destacava em especial a reinauguração do serviço de iluminação da Companhia de Luz e Força Sul-Paulista e o estabelcimento do serviço telefonico na cidade em conexão com Itaporanga, Estado de São Paulo.

Assim, transcrevo o que foi publicado pelo jornal, considerando-o um ipontante documento para a história da Colônia Mineira e para a História de Siqueira Campos, importante também para a compreenssão do Norte Pioneiro do Paraná àquele tempo. Infelizmente não á referencia a respeito de quem fosse o correspondente do Jornal na cidade:

(Segue a transcrição - conforme ortografia da época)
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COLÔNIA MINEIRA - 10 (Do nosso correspondente) - Esteve nesta cidade, há poucos dias, o dr. Joaquim Mario de Sousa Meirelles, gerente da empresa de força e luz Sul-Paulista que veiu afim de assistir a ligação dos fios da illuminação e dos telephones, que vem de Itaporanga.
Esse melhoramento é devido ao actual prefeito municipal, coronel José Innocencio dos Santos, que entrou em novo accordo com aquella empresa, pois a administração municipal passada, apoderan-se da usina, nos privou da illuminação electrica, durante um anno e meio.

SEMANA SANTA
Durante as festas religiosas da semana santa serão inaugurados tres sinos na egreja matriz local, adquiridos por subscrição pública e graças aos esforços do nosso vigário que angariou os donativos.

TIRO DE GUERRA 676
Procedentes de Curitiba aqui chegaram os officiaes do Exercito que procederão aos exames dos reservistas do Tiro de Guerra 676.

NOTICIAS DIVERSAS
Regressou de sua fazenda em Laranjinha, o coronel José Innocencio dos Santos, prefeito municipal.
- Seguiu para Itararé o sr. Lourenço Dias Tati.
- Esteve aqui o sr. Luis Guimarães, procedente de Curitiba.
- A prefeitura municipal vae arborisar a praça dr. Eurides Cunha.

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Comentários:

Compreende-se da leitura e análise deste breve documento histórico (jornais são fontes históricas) que havia uma certa depedencia e ligação forte de Siqueira Campos com Itaporanga no Estado de São Paulo. A conexão telefonica da cidade deu-se com aquela e a Companhia de Força e Luz Sul-Paulista era quem fornecia energia eletrica. Os serviços basicos de infraestrutura foram objeto de disputa entre grupos politicos locais.
Destaca-se a inauguração dos tres sinos da Igreja Matriz local, comprados com dinheiro arrecadado pelo padre junto a população da cidade. Estes sinos devem ser os mesmos que ainda hoje são utilizados na Igreja.
Havia um Tiro de Guerra na cidade e que formava atiradores e reservistas para o Exercito Brasileiro.
Havia uma ligação entre Siqueira Campos, seus habitantes e a colonização do sertão do Rio Laranjinha.


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Origens Históricas de Quatiguá - Estado do Paraná


História de Quatiguá: origens e formação da cidade

Prof. Roberto Bondarik, Dr.


            Segundo consta nos registros históricos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Quatiguá foi fundada em 1903 pelo sertanista Orlando Ferreira de Paiva. Sendo ele o primeiro a edificar uma casa no local onde hoje é a cidade. Não existem em documentos ou outras fontes, maiores menções a esse fundador, também não há registros sobre as motivações que o levaram a escolher esse local para habitar. A tradição histórica local tende a confirmar essa informação.
            Ao que tudo indica, essa edificação deve ter sido feita quando da abertura da “Estrada do Borromei”, construída a partir de Jacarezinho em direção à Colônia Mineira (atual Siqueira Campos), passando por Tomazina e, finalmente atingindo os Campos de Piraí do Sul e algum ponto da Ferrovia São Paulo – Rio Grande do Sul. O responsável pela execução da obra foi o engenheiro Carlos Borromei, italiano de nascimento e funcionário da Secretaria de Estado da Viação e Obras Públicas, ao final ele próprio acabou residindo em Jacarezinho após adquirir ali uma fazenda e tornar-se também produtor de café.

“Do senhor engenheiro Carlos Borromei, communicou-se que nesta data foi encarregado da direção da construção da estrada que do Jacarezinho, vae ao Pirahy (...)” (Fonte: Jornal “A REPÚBLICA”, Curitiba, 06 de Maio de 1903, p.01)

Estrada do Borromei
Fonte: detalhe de mapa do Estado de São Paulo editado em 1912 e disponivel no Arquivo Público daquele Estado

            A estrada foi construída nas terras altas do divisor de águas entre as bacias hidrográficas dos rios Jacaré e das Cinzas, medida que evitava a travessia por dentro de cursos d’água ou a construção e a manutenção de pontes. O objetivo era facilitar o escoamento da produção de café do entorno de Jacarezinho que, aquele tempo tinha apenas uma trilha de tropas que a ligava a Santo Antonio da Platina e consequentemente ao restante do Paraná. A iniciativa também visava atrair a incipiente produção agrícola do Norte do Paraná para Curitiba e os gêneros exportáveis para o Porto de Paranaguá. A estrada cortava uma região sem povoados e escassamente povoada, em especial o trecho de pouco mais de oitenta quilômetros entre Jacarezinho e Colônia Mineira. Sua abertura significaria a integração econômica do Norte do Estado com o restante do Paraná e até seus portos, visando o comercio internacional, dando importância financeira e valor às terras, sua produção e riqueza a seus habitantes. Gastava-se mais no transporte dos produtos do que com a sua obtenção:

O nosso commercio se acha mais ou menos paralysado, e não fora essa crise que tomo a Esphinge da Mythologia, assolará o nosso pobre Brazil até que tenhamos um novo Edipo que decifre o seu enigma, e esta localidade já andaria muito longe na senda do progresso. Elementos tem de sobra à começar pela pujança do seu solo secundada hoje pela nova estrada de rodagem mandada construir pelo benemérito dr. Governador do Estado, auxiliado pelo distincto engenheiro dr. Candido de Abreu.
Antes de se começar a construção o preço da arroba de café para conduzir em tropa, até o Pirahy, era de quatro mil reis e até de quatro mil e quinhentos reis!
Hoje, 2 annos, apezar de não estar ainda prompta a estrada, paga-se somente mil e seiscentos reis. A diferença já é grande e maior será quando a estrada varar para o campo recebendo directamente o viandante que dará graças aos céus por não ter mais que subir ou descer as alterosas serras da Natureza, Colônia Mineira e Jaboticabal. A construção, a cargo do não menos distincto engenheiro dr. Carlos Borromei, acha-se já na Colônia Mineira com 82 kilometros, com picadão, se acha a 12 kilometros além da Colônia, em demanda do Campo onde sahirá talvez com pouco mais de 30 kilometros.
O encurtamento da distância entre o Jacaresinho e o Campo sendo notório, além da magnifica topografia do terreno percorrido, é claro e fora de dúvida que esta estrada será para esta zona um extraordinário benefício.
Que se recolham, pois, os despeitados que querem fazer crer o contrário; e o tempo melhor dirá de que lado está a razão (DIÁRIO DA TARDE, 24 JUL. 1903, p.01).

            A estrada foi construída a mando do Governo do Estado do Paraná, ao custo total de 200:000$000 (duzentos contos de réis). Sua construção deve ter demandado pelo menos uns dois anos inteiros e seus idealizadores enfrentaram oposição daqueles que achavam melhor investir na chamada “Estrada Velha”, aberta pela Câmara de Vereadores de Thomazina e que ligava a aquela cidade ao povoado de Santo Antonio da Platina, seguindo próxima ao Rio das Cinzas, passando pelos atuais Distrito do Sapé, pelo patrimônio da Barra Grande, que aquele tempo existia na foz do Ribeirão com esse nome. Localidade transferida a posteriori para a atual Guapirama. Ao que consta os núcleos urbanos ao longo desse caminho dariam maior segurança aos viajantes até atingirem Jacarezinho, por tempos chamada de Ourinho. A falta d’agua no traçado da Estrada do Borromei era um argumento forte, porém era rebatido pelos seus defensores como podemos ver:

Continuando a occuparmo-nos da nova estrada de rodagem entre o Jararesinho e Pirahy, precisamos salientar a abundância d’agua que se encontra em seu percurso.
É um facto cuja contestação só pode ser feita por má fé e crida por quem indiferente aos progressos do nosso Estado não procura indagar da verdade e se deixa impressionar pelo que primeiro se lhe informa, sahindo logo a pregar que esta estrada é um monstrengo!
Não é tal: é um elemento de progresso desta zona, é a communicação melhor que temos para aqui ser mais curta, é a mais suave por ter melhor topografa, pois não tem rampas de mais de 10 graus, a declividade permitida em estradas de rodagem; é finalmente a mais commoda porque os córregos que dão de beber aos animais são mais próximos uns dos outros. E senão vejamos. A partir da villa do Jacaresinho no kilometro 8 se encontra o rio Jacaresinho; no kilometro 15 o córrego da Capivara com bom volume d’agua e que passa por dentro de uma fazenda; no kilometro 20 há um morador, no fundo de cuja casa passa um córrego chamado do “Pinto”; no kilometro 24 há também um córrego, onde já os tropeiros fazem pouso; no kilometro 26 há um pequeno córrego, no kilometro 29 – Pedra Branca há um morador e rancho para tropeiros; no kilometro 32 há um pequeno córrego; finalmente nos quilômetros 36, 41, 42, 49, 57, 60, 61 e 64 há agua e em quase todos tem moradores já; dai por diante entramos na fazenda da Colônia Mineira, onde de meia em meia légua, no máximo, se encontram moradores e também pastos para os animais até o kilometro 82 na sede da Colônia.
Como se vê a maior distância que se caminha sem água é de 8 kilometros.
Ora, se tanta água não se tinha necessidade, pois quantos e quantos córregos passam os animais sem beber água mesmo no verão.
Em quase todos esses córregos acham-se signaes de pouso das tropas. Capim não falta, porque o constructor da estrada com inteligência o semeou em toda a margem para o duplo fim de apascentar os animaes das tropas e evitar que o matto viceje, prejudicando o trânsito e o seccammento do terreno, o que é natural em terras fortes como em geral são as desta zona.
O mesmo já não se pode dizer em relação às outras estradas por onde se chega a caminhar até 3 léguas sem se encontrar uma gotta d’agua, como acontece na estrada de Thomazina, pela Serra da Natureza, e mesmo por S. José da Boa Vista há pontos seccos de quase duas léguas.
Pelo celebre picadão entre Thomazina e S. Antonio da Platina, nem por experiencia, afim de conhecer é detestável, aconselhamos a que passem por lá passem. Tem trechos longos também sem água e é de princípio a fim, em todos os tempos, um atoleiro medonho. A nova estrada não demorará muito a ser transitada por carroças, pois já se acham promptas algumas pontes, e uma vez entregue de todo a esse trânsito, veremos a nossa zona prosperar, e muito, porque só nos estão faltando os meios fáceis de transporte para o que se produz.
Por enquanto os transportes absorvem os produtos das vendas e por isso o retrahimento é grande. A exportação dos nossos gêneros para fora do Estado, pelos seus portos, é o nosso Ideal.
Torna-se, porém, necessário para essa realização, que depois da estrada tenhamos o abaixamento das tarifas nas estradas de Ferro. Isso se dará? Esperemos, contando com os esforços do actual governo do Estado, que tudo tem procurado fazer a bem da nossa prosperidade, e com a influência do nosso ilustres chefe dr. Vicente Machado, junto ao União (DIÁRIO DA TARDE, 29 out. 1903, p.02).


Detalhe da Estrada do Borromei entre Jacarezinho e Colonia Mineira (atual Siqueira Campos Paraná), grafado erroneamente como Colônia Militar

           A fertilidade do solo, o crescimento rápido da mata derrubada em seu longo trajeto, a falta de manutenção aliada ao sertão inóspito e quase desabitado, fizeram com que em poucos anos a estrada fosse abandonada a sua própria sorte:

Não sabemos qual a razão de achar-se abandonada e coberta de matto a estrada de rodagem que da Colônia Mineira vai a Ourinhos e na qual o governo gastou 200:000$000. Devido o estado em que se acha essa estrada. Estafeta do Correio, que de Thomazina ia para Ourinhos, passando pela Colônia Mineira, vê-se obrigado chegar a esta, voltar a Thomazina para dahi seguir a Ourinhos pela estrada velha. Pedimos ao exmo. Sr. Dr. Governador do Estado, lançar as suas vistas para essa importante via de communicação, presentemente abandonada por falta de roçadas na extensão de 82 kilometros. Há quem se proponha a fazer esse serviço por 2:000$000, deixando livre trânsito para cargueiros (DIÁRIO DA TARDE, 13 nov. 1905, p.01).

            Foi ao logo do traçado dessa estrada do Borromei, ou em suas proximidades que Quatiguá foi fundada, inicialmente como dois pequenos povoados: Barra Grande e Chapada. Nome das duas grandes glebas que, subdivididas, deram origem ao Município. Uma vez unificados com a chegada do Ramal Ferroviário do Paranapanema em 1919, o povoado de Quatiguá tirou o seu nome do serro próximo: Serro do Quatigual. Esse nome já figurava nos documentos que, em 1890, determinavam os limites do Distrito e do Termo de Jacarezinho. Assim a cidade cresceu, em meio a mata, a beira das encostas da serra, nos campos, os cafezais que surgiram. Em 1924 já despertava a atenção:

Quatiguá era, até bem pouco, o último ponto da via férrea. É um logar bonito, erguido no meio de matta expessa onde se encontram as madeiras mais raras. Metade do povoado pertence à Colônia Mineira e a outra metade é da jurisdicção platina.
Um bom hotel, modesto, mas limpo e commodo, atende a freguesia que ahi aporta, com a mesma solicitude de uma casa de família, gentil em obsequiar os hospedes (MARTINS, 1924, parte III, p.01).

            A Estrada do Borromei não se manteve, mas seu traçado conhecido, usado como trilha ou picada, serviu de base para a construção da Ferrovia que desde Jaguariaiva iria atingir Ourinhos em São Paulo. Também uma nova estrada de rodagem foi aberta ao lado da ferrovia:

Nas paradas obrigatórias, o major Infante Vieira mostrava-nos o serviço que fizera, abrindo aquelle caminho onde ainda se percebiam vestígios da antiga picada Borromei que em tempos fora feita para ligar o sertão Norte a Thomazina (MARTINS, 1924, parte VI, p.01).


 Novas histórias antigas virão.

 Referências:

PELO ESTADO: Pirahy. Diário da Tarde, Curitiba-PR, p.01, 13 nov. 1906;
PELO ESTADO: Jacaresinho. Diário da Tarde, Curitiba-Pr, p.01, 24 jul. 1903;
PELO ESTADO: Jacaresinho. Diário da Tarde, Curitiba-Pr, p.02, 29 out. 1903;
A REPÚBLICA, Curitiba, 06 de Maio de 1903, p.01;
MARTINS, Romário. Sertão em Flor: o Paraná Cafeeiro – parte III. O Dia, Curitiba-PR, pp.01 e 08, 21 jun. 1924;
MARTINS, Romário. Sertão em Flor: o Paraná Cafeeiro – parte VI. O Dia, Curitiba-PR, pp.01 e 08, 26 jun. 1924;
TOMAZI, Nelson Dácio. Norte do Paraná: histórias e fantasmagorias. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2000;
WACHOWICZ, Ruy Chistowam. Norte Velho, Norte Pioneiro, Curitiba: Gráfica Vicentina, 1987;
______. História do Paraná. 6ª ed. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1988;



sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Automovel Elétrico

No final do século XIX os automóveis elétricos eram a grande aposta da incipiente indústria. Não havia ainda uma ideia do veículo como um objeto de consumo de massa, acessível e de grande alcance como automóvel acabou se tornando.
Henry Ford foi um dos que deixaram a propulsão elétrica de lado em investiu no uso do motor a explosão, movido a gasolina. A industria automobilistica porporcionou o consumo necessário à industria do petróleo, ambos os segmentos foram predominantes na economia do século XX e, ainda hoje, no século XXI.
Capa da Revista Scientific American, 13 de mao de 1899

Anuncio veiculo de propulsão elétrica - Revista Scientific American, 13 de mao de 1899


O motor elétrico foi inventado pelo físico britânico Michael Faraday, em 1822, quando ele estudava a relação existente entre eletricidade e magnetismo.



domingo, 4 de agosto de 2019

SOCIEDADE 4.0 A Uberização do Consumo e da Cultura

Apresentação utilizada na palestra ministrada na "Tarde Cultural", realizada no auditório da INFRAERO, no Aeroporto de Londrina, Estado do Paraná, em 03 de Agosto de 2019.

Arquivo disponível em PDF no link abaixo (basta clicar no nome):

Apresentação - "Sociedade 4.0 - A Uberização do Consumo e da Cultura"









domingo, 4 de novembro de 2018

Tecnologia e Educação: disruptura, inflexão e redimensionamento

Artigo de opinião publicado no jornal "Folha de Londrina" em 13 de setembro de 2018.

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Tecnologia e Educação: disruptura, inflexão e redimensionamento

Prof. Dr. Roberto Bondarik
Palestrante, 
Membro da Academia de Letras 
Artes e Ciências de Cornélio Procópio (ALACCOP), 
Docente e Pesquisador da 
Universidade Tecnológica Federal do Paraná 
            
Desenvolvimento, tecnologia, indústria, trabalho e educação permeiam o atual momento que é de mudanças e incertezas. A tecnologia advém do conhecimento e promove impactos profundos na humanidade que já passou por três Revoluções Tecnológicas, transformadoras da sobrevivência e convivência social. Revolução significa mudança de paradigmas, disruptura de conceitos e inflexões que redimensionam os recursos humanos e materiais de uma sociedade exigindo preparo e melhor educação.
A primeira entre um milhão e 400 mil anos atrás, o domínio do fogo que aqueceu, melhorou e conservou os alimentos e sua absorção. Imaginam-se grupos humanos em torno de uma fogueira protegendo-se de predadores, conversando, trocando experiencias, transferindo conhecimento em um processo civilizador que moldou nossa evolução. A educação nasceu destas interações. A segunda, há dez mil anos, protagonizada pela agricultura e pecuária, melhorou a alimentação, sedentarizou grupos humanos, erigiu cidades e o Estado, gerando necessidades e o desenvolvimento de novas habilidades e capacidades que, supridas eram ensinadas às novas gerações. Aprendeu-se a trabalhar o cobre, o bronze e o ferro. Produziram-se riquezas, guerras e destruição, mas a colaboração prevaleceu e a humanidade sofisticou-se material, social e intelectualmente. A terceira foi a Industrial, surgida na Inglaterra do século XVIII. A produção a ser feita por máquinas, substituindo a força e as habilidades humanas. Suprimiu formas de organização do trabalho, fez surgir novas profissões, habilidades e necessidades. Transformações intensas que ainda não cessaram, dividindo-a em quatro grandes períodos, com outras revoluções rápidas, disruptivas, inflexivas, paradigmáticas, exigindo novas capacidades.
Da máquina a vapor da Primeira Revolução Industrial ao motor a combustão da Segunda em fins do século XIX e início do XX, com o uso intenso do aço, eletricidade, química fina, automóvel e linha de montagem. A humanidade aproximou-se com o telegrafo, telefone e o rádio. Mudaram-se conceitos, usos e costumes, a educação firmou-se como bem intangível dos povos.
O século XX foi marcado por conflitos, guerras e divergências, intensidade é a palavra que o define melhor. Em seu final a globalização impulsionou a Terceira Revolução Industrial, a tecnologia da informação e uma poderosa infraestrutura de comunicações. Investiu-se em áreas então impensadas: computadores, linguagem digital, comunicação via-satélite, conexão de equipamentos, maior difusão de informações, inteligência artificial, etc. Chegou-se a Quarta Revolução Industrial ou 4.0, discutida em editorial desta FOLHA (19/07), melhor expressada pela Internet, a rede mundial de computadores.
A Revolução 4.0 produz progresso, sofisticação, facilidades e gera angustias nas pessoas, a exemplo das revoluções tecnológicas anteriores. A rapidez e aplicação imediata de seus produtos faz com que uma parcela significativa da população mundial não consiga compreende-la e encontrar o seu espaço nos cenários produtivos que se desenharam. A fragilidade do trabalho, da qualificação profissional e do conhecimento nunca foram tão intensos.
A desqualificação se combate com educação, cada vez mais necessária, no ritmo das transformações tecnológicas, em especial as da informação e comunicação. Educação, cujos problemas no Brasil foram mostrados pela FOLHA (31/08), exige investimentos na formação de professores, capacitação contínua, redimensionando a pratica docente e sua importância. Sem bons profissionais motivados, comprometidos e com recursos materiais, não haverá condições do País adentrar ao novo mundo que emerge tomado por máquinas que não possuem compaixão e emoções. O professor é um modelo e exemplo forte na formação das gerações que já nasceram conectadas e digitalmente aproximadas.
Investir em educação, qualificar professores, preparar o País, viver a Revolução 4.0, envolvendo a sociedade é o mínimo que se espera do Estado. Tecnologia, educação e desenvolvimento capazes de enfrentar a disruptura, a inflexão e possibilitar o redimensionamento adequado de nossos recursos humanos e materiais. Uma ação, um comprometimento mais que político, social.

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Abaixo a versão para impressão:




sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Primeira partida de futebol transmitida pela televisão no Brasil

PRIMEIRA PARTIDA DE FUTEBOL NA TELEVISÃO BRASILEIRA

Prof. Dr. Roberto Bondarik

bondarik@outlook.com
profbondarik@gmail.com


Foi uma transmissão ao vivo, em preto e branco, conforme a tecnologia da época permitia.

Apesar das discussões, que podem ser acaloradas, em definitivo, a primeira partida de futebol transmitida pela televisão no Brasil foi um jogo entre  Sociedade Esportiva Palmeiras e São Paulo Futebol Clube, disputado em 15 de outubro de 1950 no Estádio do Pacaembu e foi vencido pelo primeiro (Palmeiras). 

Encontrei uma coluna um tanto que humorística no Jornal "Mundo Esportivo" de 20 de outubro daquele ano (1950), onde há uma referencia a esse jogo e a transmissão pioneira. 

O livro de Patricia Alves do Rego Silva, intitulado " TV Tupi: A pioneira na América do Sul", sobre a história da emissora de televisão Tupi também fala sobre a partida nesta data (obra disponível em http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4204434/4101419/memoria11.pdf  )

Em 18 de novembro de 1950, Levy Kleiman em sua coluna no jornal "Esporte Ilustrado" comemora a novidade tecnológica  que foi a transmissão pela televisão Tupi de seu primeiro jogo na cidade do  Rio de Janeiro. 

Foi um jogo entre o Clube de Regatas do Flamengo e Olaria Futebol Clube, transmitido também ao vivo e em sua integra. 

Em janeiro de 1951 a TV Paulista anunciava no jornal  "O Estado de São Paulo" a transmissão de partidas direto do Estádio do Pacaembu, durante o domingo. 

No mesmo janeiro de 1951,  a Federação Metropolitana de Futebol do Rio de Janeiro discutia sobre a cobrança de direitos de transmissão pela TV de suas partidas. 

O clube Botafogo de Futebol e Regatas, alegando defender o direito dos clubes chegou a pedir a proibição das transmissões afinal taxadas em Cr$ 3.000,00.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Museus - Lugares da preservação da memória e da história

MUSEUS - LUGARES DA PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA E DA HISTÓRIA


Por: Roberto Bondarik



Há alguns anos fiz uma série de cards com fotos de museus que visitei, em especial aqui no Paraná. Era parte de um projeto meu de divulgação de assuntos de interesse histórico e tecnológico.
Acho pertinente republica-los por que antes o havia feito pelo Facebook, como deletei minha conta naquela plataforma creio que estas imagens tenham-se perdido.

Museu Paranaense - Curitiba 


Museu Histórico de Cornélio Procópio- Pr

Museu Histórico de Cornélio Procópio - Pr


Museu do Mate - Curitiba Pr

Museu do Expedicionário - Curitiba - Pr



domingo, 26 de agosto de 2018

Uma escultura mecânica - Engenhosamente artistica

UM ENGENHO ARTÍSTICO

Por: Roberto Bondarik

No encontro de motos realizado em 26 de Agosto de 2018 pela Promotos em Cornélio Procópio - Estado do Paraná - teve, é logico, muitas motos e motociclistas. Uma em especial me chamou a atenção: feita artesanalmente, reunindo uma série de peças e ornamentos não seriais. 

Equipada com um motor Wolkswagen (Fusca), montada sob pneus de charrete, com chaves de pressão como manetes, colheres de pedreiro de retrovisores, um inusual tanque de combustivel com visor, a "Moto do Carlão" chamou a atenção.

Abaixo a serie de fotos com essa "obra de arte contemporânea", fruto de muita criatividade e bom humor:









Retomada ... História & Informação : Um Mundo em Movimento

Ficamos quase que um ano sem postagens, os mais diversos motivos e justificativas poderiam ser elencados, usados e abusados!

Mas há um recomeço, uma retomada, o Mundo se encontra em movimento constante, a Geometria Divina não paralisa suas equações e as formulas da vida, da ação humana, o futuro é uma certeza.

Um novo foco, além da história do Paraná, do Norte Pioneiro e do Brasil será dado. A Ciência, a Tecnologia, a Educação, a Informação e o Conhecimento, a Produção, a Inovação e a Economia também serão lembrados e trabalhado. Um mundo todo se movimentando.

Vivemos um momento de rápidas transformações, de disruptura que é a quebra de conceitos, parâmetros e paradigmas há muito estabelecidos. Um momento marcado pela inflexão de modelos de produção, de desenvolvimento e porque não dizer de interação social que chegaram a um ponto de superação em que o novo ainda não se estabeleceu. Um momento em que a informação necessita ser precisa, confiável afim de ser transformada em conhecimento e este em riqueza.

Pensando a qualidade da informação passaremos a publicar recortes de noticias, links de jornais, videos de programas de televisão, documentários e trechos de filmes que auxiliem no trabalho de separar o joio do trigo, o fake do news, o conhecimento da ignorância.

A ignorância é o não saber ou o saber mal sobre algo ou alguma coisa.

"História e Informação: Um Mundo em Movimento" irá fazer sua parte. 

Nos leiam, nos usem e nos divulguem!!

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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

12 e 13 de Outubro - 87 anos do Combate de Quatiguá durante a Revolução de 1930

Em 12 e 13 de outubro de 1930, há 87 anos portanto, foi travado nas imediações da Estação Ferroviária de Quatiguá, o maior combate da Revolução de 1930. 
De incipiente povoado, Quatiguá tornou-se a cidade com o melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Norte Pioneiro do Estado do Paraná.
Informações sobre o combate podem ser obtidas diretamente em meus artigos e entrevistas que dei a respeito, quase todas elas disponiveis neste blog.
Em 24 de julho de 2009 publiquei um video no Youtube em que mostro parte da história daquele combate.
O link para o video esta disponivel abaixo, aliás são duas partes:

PARTE 01:

PARTE 02:

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

História do Paraná - Palestra em curso da UENP

Dia 10 de outubro de 2017 estive ministrando uma palestra para o quarto ano do curso de Pedagogia na UENP em Cornélio Procópio.
Disciplina de Metodologia do Ensino de História daquele curso.
Pessoal atencioso e interessado, gostei muito de estar lá.

Quarto Ano do Curso de Pedagogia da Uenp em Cornélio Procópio
Palestra/Conversa sobre História, História do Parana e de Cornélio Procopio e região.

domingo, 1 de outubro de 2017

Visita dos Príncipes Britânicos ao Brasil, Paraná e a Cornélio Procópio em 1931: fatos, fotos e documentos

Durante os meses de março e abril de 1931 o então Principe de Gales e seu irmão estiveram em visita oficial ao Brasil. O futuro rei britânico Eduardo VIII (bem mostrado  no filme "O Discurso do Rei" e na série "The Crown" do NetFlix), esteve no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e no Norte do Paraná.
Já publicamos a respeito dessa visita que, em virtude de sua originalidade, é lembrada na história de Cornélio Procópio e da região.
Textos disponiveis em dois posts:


Os principes estiveram com autoridades brasileiras, foram recebidos pelo Presidente Getúlio Vargas, os Governadores de São Paulo, Minas Gerais e do Paraná, este em Cambará.
A história contada sempre se torna mais atarente quando também mostrada, sendo assim conduzi uma pesquisa em arquivos do jornal "O Estado de São Paulo" e da revista "O Cruzeiro" que, como orgãos de imprensa, apresentaram fotos, noticias e acompanharam essa viagem que ainda é lembrada por muitos.

Capa da Revista "O Cruzeiro", 21 de março de 1931
Edward, Principe de Gales, herdeiro do trono do Reino Unido, em 1931
(Fonte: Acervo da Revista "O Cruzeiro" disponivel na Hemeroteca da Biblioteca Nacional)
 Houve grande repercusão à época, as capas coloridas de "O Cruzeiro" eram bem produzidas e chamavam muito a atenção. O Imperio Britanico, seu poder militar e o alcance do poder economico financeiro de seus cidadãos, instituições e empresas atraiam pensamentos e aguçavam a imaginação das pessoas

O Rei Jorge V e o Principe de Gales
(Fonte: Revista "O Cruzeiro",n.20,  p.03, 21 de Março de 1931, Hemeroteca da Biblioteca Nacional)
Os principes chegaram ao Brasil após um longo tour que havia incluido Canadá, Chile e Argentina, entre outros destinos intermediários:

Capa da Revista "O Cruzeiro", 28 de março de 1931, Principe de Gales chega ao Brasil
(Fonte: Acervo da Revista "O Cruzeiro" disponivel na Hemeroteca da Biblioteca Nacional)

Houve uma recepção oficial no Rio de Janeiro:
 Principe de Gales e seu irmão sendo recepcionados pelo Presidente da Republica Getúlio Vargas
(Fonte: Revista "O Cruzeiro",n.22,  p.03, 04 de Abril de 1931, Hemeroteca da Biblioteca Nacional)
O Principe de Gales e seu Irmão no Palácio Guanabara no Rio de Janeiro:

O Principe de Gales e o Duque de York, juntos no Brasil, em destaque o títulos de ambos registrados ao pé da foto
(Fonte: Revista "O Cruzeiro",n.22,  p.05, 04 de Abril de 1931, Hemeroteca da Biblioteca Nacional)
Os principes visitaram empreendimentos britanicos no Brasil ou que recebiam investimentos deles. Alguns dos negocios visitados possuiam os proprios principes ou membros da realeza como acionistas, exemplo disso era a Ferrovia São Paulo - Paraná, ligando Ourinhos-Assunção no Paraguay. Sabemos que a estrada de ferro deteve-se em Apucarana-PR e depois prolongou-se até Maringá-PR, atingindo o centro do maior dos investimentos britanicos no Brasil àquele tempo: a "Companhia de Terras Norte do Paraná".
(Fonte: Revista "O Cruzeiro",n.23,  p.05, 11 de Abril de 1931, Hemeroteca da Biblioteca Nacional)

Também o jornal "O Estado de São Paulo" acompanhou e registrou a viagem ao Paraná: tratavam dos principes de Gales e de seu irmão que haviam passeado pela cidade de São Paulo.

"O Estado de São Paulo", terça-feira, 31 de Março de 1931, primeira página
(Fonte: Acervo do jornal "O Estado de São Paulo")
Um fato original e emblematico como este, mostrando o interesse que o Brasil despertava ou a importancia que possuia para os investimentos britânicos, torna-se mais atrativo quando apresentado junto de documentos que o comprovam, materializando-o.
(Fonte: Acervo do autor)

Em Minas Gerais os principes além de visitarem Belo Horizonte, sendo recebidos pelo Governador daquele Estado, estiveram também presentes em outro negócio, literalmente lucrativos, com controle britanico no Brasil: a Mina de Morro Velho. A mina tida como a mais profunda do mundo àquele tempo. 

Visita à Mina de Morro Velho
(Fonte: Revista "O Cruzeiro",n.25,  p.17, 25 de Abril de 1931, Hemeroteca da Biblioteca Nacional)
Relembramos mais uma página da história do Norte do Paraná, registrada em páginas da imprensa brasileira.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Municipio de Joaquim Távora: origens históricas ... em 1924

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@outlook.com 

Em 2017 o Município de Joaquim Távora completa oitenta e oito anos de emancipação politica e instalação, dados em 21 de setembro de 1929. Recebeu o nome do Capitão Joaquim Távora após a vitória da Revolução de 1930.
Suas origens remontam à posse da "Fazenda Jaboticabal da Barra Grande" estabelecida às margens do ribeirão Barra Grande que desagua no Rio das Cinzas. Posse reinvindicada por José Antonio Pinto da Fonseca que, em 1891, declarava te-la feita em 1850.
Os registros de medição da Fazenda teriam sumido em 1906, causando disputas e invasões, até que fossem regularizados pela ação dos advogados Affonso e Marins Camargo.
Em suas terras surgiu o povoado de "Barra Grande", "Barra do Cinzas" ou "Barra Velha" em 1910,  que foi transferido para o local onde, atualmente, é a cidade de Guapirama em 1917.
O "Distrito da Barra Grande" foi criado em março de 1920, sendo transferido para a povoação de "Affonso Camargo" que se formava onde passaria o Ramal Ferroviário do Paranapanema. Destacou-se na instalação desse povado e distrito, o fazendeiro Miguel Dias.
Em 1924, quando da inauguração da Ferrovia São Paulo - Paraná, em seu primeiro trecho entre Ourinhos-SP e Cambará-PR, com a entrega da ponte ferroviária sobre o Rio Paranapanema, um grupo de jornalistas e politicos vieram pelo Ramal do Paranapanema, de trem desde Curitiba até Affonso Camargo. Fazia parte do grupo o jornalista e também historiador Romário Martins. 
Romário Martins produziu uma serie de textos, descrevendo a viagem e principalmente a região por onde passaram. A coletânea "Sertão em Flor: o Paraná cafeeiro" constitui-se em um dos primeiros relatos descritivos, histórico, geografico, social e que demonstrou uma preocupação ecológica com os destinos do Norte do Paraná. A parte quatro do Sertão em Flor trata especificamente de "Affonso Camargo", seu fundador Miguel Dias, a economia e a produção local naquele distante junho de 1924, há 93 anos.
A seguir o texto em questão no qual procurou-se manter a ortografia vigente àquele tempo.

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Sertão em Flor: o Paraná Cafeeiro - IV

“AFFONSO CAMARGO” SEDE DO DISTRICTO DE BARRA GRANDE – UM SERTANISTA DE VALOR – UMA FLORESTA DE PEROBEIRAS

Romário Martins


MARTINS, Romário. Sertão em Flor: o Paraná Cafeeiro – parte IV. O Dia, Curitiba-PR, pp.01 e 08, 22 jun. 1924.


            “Affonso Camargo” surgiu com a estrada de ferro. Seu fundador, Miguel Dias, emprestou, sem querer o seu nome ao logarejo de outrora. Era ahi, antes um sertão bruto, sem casas e lavouras, apenas habitado por esse sertanejo que se tornou celebre pela sua hospitalidade. Seu nome é conhecido de quantos se habituam ao sertão, e as amizades que conquistou perdem-se pelas regiões mais distantes de Minas e São Paulo.
            Miguel Dias é, na verdade, um sertanista sympathico, de feições leaes, de trato simples, mas sincero, comedido nos gestos e nas palavras, reservado, perscrutador, insinuante, positivo e ousado, sem se atrapalhar nos juízos que expede, sem perder a serenidade que o caracteriza.
            Deve-lhe a povoação – futura villa, tudo o que possue: as terras doadas, as ruas traçadas e abertas, o próprio local onde se assenta a linda estação, grande parte dos prédios que se erguem, a abertura de casas de negócio, hospedaria e outros melhoramentos notáveis.
            Existem actualmente 150 edificios, alguns bem acabados, outros de proporções avantajadas. Em derredor avista-se a matta rica de essências florestaes e de madeiras de lei. Duas serraria começam já a sua obra devastadora para atender reiteradas encomendas de S.Paulo.
            O pinheiro não existe. Substitue-o a peroba, o jequitibá, a canelleira, o cedro, a caviuna, a guajuvira, a cabreuva, o pao marfim e outras qualidades de madeira.
            Um movimento de carroças começa a sua faina entre a estação e Carlopolis, a villa mais próxima ligada por excelente estrada de rodagem mandada construir pelo Exmo. Sr. Presidente Munhoz da Rocha, a quem essa região nova deve já assignalados serviços.
            Uma outra estrada de rodagem, traçada e executada por um dos mais intelligentes lavradores dessa zona rica, o major José Infante Vieira, proporciona também vehiculos um trafego regular, transportando mercadorias da estação para Santo Antonio da Platina e Jacarezinho, ligação essa de poucos dias e para a qual o Presidente do Estado concorreu com um valioso auxílio em dinheiro.
            “Affonso de Camargo” será, dentro em pouco tempo, a sede um futuroso município. Os prédios que seus moradores começam a construir, dentro de um regimem sabiamente delineado pela previsão do benemérito fundador – Miguel Dias, já se apresentam dignos de uma cidade, sobre ruas e praças rigorosamente marcadas.
            Três hotéis attendem numerosa freguezia. Um deles mantem magnifico serviço de cozinha, quartos asseiados, garage para automóveis.
            As casas de commercio apresentam movimento considerável. Crescido número de forasteiros para ahi se dirige, á procura de terras para a abertura de sítios e fazendas. Dia a dia crescem as compras, avultam os negócios, effectuam-se largas empreitadas para a derrubada das mattas e plantio de cereaes.
            Alguns pontos do districto, os mais altos, prestam-se para a cultura do café, principalmente pelos lados da Pedra Branca, onde essa lavoura já se delinea, embora em pequena escala. Os outros logares são magníficos para a cultura do algodão, da cana de assucar, fumo, arroz, feijão e toda sorte de cereais. A engorda de porcos constitue, no momento, a maior riqueza.
            São na verdade admiráveis as florestas de peroba. Em uma faixa extensa, quase interminável, erguem-se milhares desses troncos de considerável diâmetro e altura, com suas frondes lá no alto, de folha meuda, sobre galhos retorcidos que se abrem para o sol. Enfileiram-se muito juntos dominando a matta. Assim erguidos, parecem indicar uma cultura adrede preparada, que muitas dezenas de anos de chuva e sol fizeram vingar, plenos de viço.
Encontram-se ás vezes arvores abatidas de fresco, pelo vendaval que conseguiu abrir os alicerces profundos, ou pelo machado inclemente do lenhador. Outras, o tronco já se confunde com o solo humano, sem casca, meio apodrecido pelo tempo, o mesmo tempo que o gerou e lhe deu todo explendor, que temperou o lenho para tornal-o aço rubro, de fibras retejadas, consistentes e longas. Causam piedade assim consumidos nomeio de companheiros mais afortunados que disfructam o grande banquete da Natureza, plenos de vida, dominando o azul do espaço, soberbos da sua força e da sua belleza.
Dentro em pouco, por ahi há de passar a indústria destruidora do machado e da serra. Derrubados, retalhados em toras, desdobrados em taboas, lá irão pelos trilhos a fora as perobeiras seculares, em demanda dos grandes centros, para a feitura do vigamento, das cobertas, do assoalho e dos batentes das casas.
Todo esse tronco desfeito embellezará cidades, será o pão de pobres operários suarentos, se transformará em riqueza de alguns, em metal espécie para o movimento dos bancos.
Desse sertão bruto restarão, por algum tempo, as raízes expostas e depois germinarão as searas que hão de florescer para os fructos, para a alegria do lavrador que as formou pelo trabalho constante.
Os troncos das perobeiras seculares não voltarão para reconstituir a matta de outrora; mas as searas hão de florescer todos os annos, com as chuvas e o sol das estações, e da mão do lavrador que enriquece passarão para outras mãos commerciantes até chegar ao seu glorioso destino: a vida humana. E ahi, por um prodígio de Deus, serão o sangue, calor, sentimento, intelligencia, vontade; luz dos olhos, pressentimentos, alegrias, lagrimas e dissabores, esperanças e desenganos. E como a perobeira que cresceu e teve pujança, que dominou pela força, que atrahiu a luz e as aves e que resistiu aos vendavaes de muitos annos, também esse outro tronco humano um dia tombará com o seu cortejo de esperanças, de sonhos e visões...