quinta-feira, 5 de novembro de 2026

De Olhos Abertos e Pés no Chão: Companhia Melhoramentos Norte do Paraná

De olhos abertos e pés no chão: Companhia Melhoramentos Norte do Paraná

 

Prof.Dr. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br


CALDEIRA, Jorge; MESQUITA, Gastão. De olhos abertos e pés no chão: Companhia Melhoramentos Norte do Paraná: projetos visionários para um século de transformação territorial, industrial e de energia renovável no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2025. 448 p.

1. Sobre o que é o livro?

O livro "De olhos abertos e pés no chão: Companhia Melhoramentos Norte do Paraná: projetos visionários para um século de transformação territorial, industrial e de energia renovável no Brasil" escrito por Jorge Caldeira e Gastão Mesquita, foi lançado em 2025 com 448 páginas, o livro não é só mais um caso de sucesso empresarial. Como a própria sinopse da obra avisa: "Se fossem as histórias triviais, este livro contaria mais um caso de sucesso empresarial. Mas aqui tudo é excepcional, desde o início." 
        Caldeira conta a história de 100 anos da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP), que é, na prática, a história da fundação do Norte do Paraná - onde você está.



            A narrativa começa em 1924, quando um engenheiro ferroviário vislumbrou um projeto de colonização e convenceu um lorde escocês a levantar muito capital em Londres para executá-lo. O engenheiro virou acionista minoritário de uma grande multinacional. Essa empresa é a Companhia de Terras Norte do Paraná, que depois virou a Companhia Melhoramentos.
        O ponto de virada vem com a família Mesquita. Gastão de Souza Mesquita Filho foi organizando empreendimentos próprios na velocidade do crescimento de Londrina e aproveitou a janela da Segunda Guerra Mundial para, junto com Gastão Vidigal, comprar a empresa em 1944.
       Daí em diante, o que Caldeira descreve é uma gestão quase impensável hoje: um conglomerado que continuava vendendo lotes, mas ao mesmo tempo entrou no agronegócio, fabricou cimento, açúcar, material ferroviário e siderurgia. Tudo "na base da palavra fiada entre os controladores, sem um papel assinado".
            Só em 1994, 70 anos depois da fundação, sob o comando de Gastão Mesquita, neto do pioneiro, a sociedade tornou-se de fato uma empresa familiar. Como ele foi testemunha de toda a epopeia não escrita, dividiu memórias com Caldeira para que a história pudesse ser contada. 

2. O que faz o livro ser diferente

  • É história do Brasil pelo interior. Jorge Caldeira é um historiador que foge do eixo Rio-São Paulo. Ele mostra como o Paraná foi loteado, vendido, ocupado - não por ação do Estado, mas por uma empresa privada com capital inglês que trouxe um modelo de colonização planejada. Londrina, Maringá, Cornélio Procópio, Umuarama... todas são filhas desse projeto.
  • É uma aula de empreendedorismo à brasileira. Não tem business plan de Harvard. Tem intuição, coragem de comprar uma empresa gigante no meio da guerra, diversificação absurda e uma relação de confiança pessoal que sustentou o negócio por 50 anos sem contrato formal.
  • É memória oral virando documento. O grande valor do co-autor Gastão Mesquita é justamente esse: sem ele, essa história se perderia. Caldeira organiza, contextualiza e dá rigor histórico a memórias que nunca foram escritas.


3. Os pontos fortes da obra?


  • Escrita muito fluida para um livro de história empresarial. Caldeira narra como romance.
  • Conexão direta entre geopolítica mundial (crise de 1929, Segunda Guerra) e o loteamento no Paraná.

  • Ideal para quem mora no Norte do Paraná e quer entender por que as cidades aqui têm traçado, tamanho de lotes e vocação agrícola tão diferentes do resto do Brasil.

  • Por ser uma obra comemorativa dos 100 anos, feita em parceria com a família controladora, o tom é naturalmente celebratório. Não espere uma crítica dura à colonização ou aos conflitos de terra da época. É uma epopeia de empreendedorismo.


4. Para quem eu recomendo?


Para você, que está aí no Norte do Paraná, é leitura quase obrigatória. Você vai reconhecer sobrenomes, cidades e lógicas de ocupação que estão no seu dia a dia.

Recomendo também para quem gosta de história econômica do Brasil, de agronegócio e de como grandes projetos territoriais realmente acontecem: de olhos abertos para a oportunidade, e com os pés no chão para executar.







terça-feira, 3 de novembro de 2026

O Norte Velho, Norte Pioneiro: o berço colonizador do Norte do Paraná

Professor Dr. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br


A historiografia tradicional divide o Norte do Paraná em três áreas: Norte Pioneiro (Velho), Norte Novo e Norte Novíssimo, conforme Tomazi (1997, 2000). Essa divisão, embora criticada como construção ideológica que justificava a (re)ocupação, permanece operativa para compreender fases distintas. 
        O Norte Pioneiro estende-se do Rio Itararé até a margem direita do Rio Tibagi, do final do século XIX até 1929. O Norte Novo vai até as barrancas do Rio Ivaí, limitando-se com Terra Rica e Terra Boa, expandindo lentamente a partir de 1930, com aceleração pós-Segunda Guerra. O Norte Novíssimo segue até o Rio Paraná, 1940-1960. 
       Gosto de utilizar fontes primárias da CTNP/CMNP, dados IBGE, arquivos da UTFPR-Cornélio Procópio e bibliografia crítica de Tomazi, Wachowicz, Cancian, Müller e Kohlhepp.
    
        Formado entre 1860 e 1929 entre os rios Itararé, Tibagi e Paranapanema, com núcleos como Colônia Mineira (1862), Jacarezinho (1900), Cambará (1904) e Cornélio Procópio (1924), ele nasceu da expansão cafeeira paulista e mineira em busca da terra roxa.


Familias mineiras rumo ao Paraná durante o século XIX
(Fonte: https://familiazevedo.com.br/2026/09/21/a-familia-azevedo-na-historia-do-brasil-e-do-parana/ 

        Sua importância foi estrutural. Primeiro, criou a ferrovia. A Sorocabana chega a Ourinhos em 1908 e a Ferrovia Noroeste do Paraná, criada em 1920 para ligar Cambará a Ourinhos, foi o embrião que depois os ingleses da Paraná Plantations compraram e levaram até Londrina (1935) e Apucarana (1942).


        Segundo, criou o modelo. Foi em Cambará, em 1924, que Antônio Barbosa Ferraz Junior mostrou a Lord Lovat o potencial da terra. Daí nasce a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), que lotearia 546 mil alqueires, fundaria 63 cidades e venderia 41 mil lotes com título de propriedade — algo inédito que evitou conflitos.





Antonio Barbosa Ferraz Junior - à esquerda - Ano de 1924

(Fonte: Revista Fon Fon - Acervo Roberto Bondarik)

        Sem esse laboratório, Londrina não existiria. Fundada em 21 de agosto de 1929 por George Craig Smith como primeiro posto avançado da CTNP, virou município em 1934 e polo do café.

        Maringá é filha direta da mesma lógica. Fundada em 10 de maio de 1947 pela CMNP (sucessora da CTNP), com plano do urbanista Jorge Macedo Vieira inspirado na cidade-jardim inglesa, foi pensada como capital do Norte Novíssimo.


        O Pioneiro forneceu gente, trilho e dinheiro. Os colonos italianos, japoneses, espanhóis que trabalharam nas fazendas de Cambará e Jacarezinho compraram lotes na fronteira além do Tibagi. A população do Paraná dobrou de 1940 para 1950 e dobrou de novo até 1960.
        

Em resumo: o Norte Pioneiro foi a ponte. Ligou São Paulo ao sertão, testou a pequena propriedade titulada e abriu caminho para Londrina e Maringá se tornarem as metrópoles pé-vermelhas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Cemitérios, Túmulos e Monumentos Funerários: Arquivos Históricos a céu aberto

Cemitérios, Túmulos e Monumentos Funerários: Arquivos Históricos a céu aberto


Prof. Dr. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br


Os cemitérios são arquivos históricos a céu aberto e, talvez, uma das fontes históricas mais democráticas, por acessíveis que são, e que existem ao nosso alcance. Enquanto os arquivos oficiais guardam a história do poder — prefeitos, leis, escrituras — o cemitério guarda a história de todo mundo, inclusive de quem nunca apareceu em documento nenhum mas teve o seu espaço na sociedade e na comunidade.
    O Norte Pioneiro do Estado do Paraná, em especial esse Norte que se plasmou ao longo da Ferrovia São Paulo - Paraná a partir de 1924, possui já os seus cemitérios centenários ou bem perto disso. São fontes históricas que começam a ser exploradas e valorizadas.
    Para o historiador, cada lápide é um documento. O nome, a data de nascimento e morte, a filiação e a naturalidade permitem reconstruir a demografia de uma cidade: quando houve um surto de mortalidade infantil, quando chegou uma leva de imigrantes italianos, japoneses ou nordestinos, qual era a expectativa de vida em 1920 e como ela mudou em 1960.
    A causa da morte, a idade e a proximidade de túmulos de uma mesma família revelam epidemias, acidentes de trabalho, violência e até tragédias esquecidas, como a gripe espanhola ou a febre amarela. Cruzando esses dados com livros de óbito do cartório e notícias de jornais antigos, é possível reconstituir a história sanitária e social de um município.


Fonte: Produção própria - Acervo Roberto Bondarik

Tumulo de Antonio Barbosa Ferraz Junior, Esposa e Genro - Cemitério de Cambará-Pr
(Fonte: Produção Própria - Acervo Roberto Bondarik)


    A materialidade também fala. O tipo de pedra, a escultura, a frase gravada e o tamanho do túmulo mostram status social, religiosidade e gosto estético de cada época. O anjo de mármore importado, a cruz de ferro fundido, o retrato em porcelana e hoje a placa simples de granito são marcadores de classe, de fé e de moda.





Tumulo da Menina Creuzinha - Assassinada em 1963 - Objeto de devoção
Cemitério de Cornélio Procópio-Pr
(Fonte: Produção Própria - Acervo Roberto Bondarik)



    A própria organização do espaço é política. Quem está enterrado perto da capela central, da cruz principal ou na avenida mais larga? Quem foi para os fundos, para a quadra dos indigentes ou para fora dos muros? O mapa do cemitério reproduz o mapa da cidade dos vivos, com suas hierarquias e exclusões.





Tumulo do Barão do Serro Azul - Cemitério São Francisco - Curitiba-PR
(Fonte: Produção Própria - Acervo Roberto Bondarik)



    Há ainda a dimensão simbólica. As inscrições — "saudade eterna", "dormiu no Senhor", "aqui jaz um homem trabalhador" — revelam como cada geração entendia a morte, o luto e a memória. São mudanças de mentalidade que não se aprendem em decretos.





Monumento aos mortos no Combate de Quatiguá em 12 e 13 outubro de 1930
Contem os restos mortais de combatentes em sua base - Quatiguá-Pr
(Fonte: Produção Própria - Acervo Roberto Bondarik)


Por isso, preservar um cemitério não é culto à morte, mas respeito à vida que passou por ali. Perder um cemitério antigo é queimar um arquivo insubstituível da história local.

domingo, 23 de março de 2025

Lord Lovat: das Terras Altas da Escócia as Terras Roxas do Norte do Paraná

 Artigo publicado no Jornal "FOLHA DE LONDRINA" em 29 de Novembro de 2024.


Lord Lovat: das Terras Altas da Escócia as Terras Roxas do Norte do Paraná


Roberto Bondarik
Professor Titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio

  

Londrina completa em dezembro de 2024 seus noventa anos de emancipação política, frise-se que não se trata da sua fundação que foi gestada pelo menos há cem anos, no salão de jogos da casa sede da Fazenda Água do Bugre, em Cambará. Naquele momento foi apresentada, pelos Barbosa Ferraz e pelo Engenheiro Gastão de Mesquita, a grande área de terras devolutas pertencentes ao Estado do Paraná ao prospector de investimentos britânicos Lord Lovat. Londrina foi a porta de entrada e Lovat o seu idealizador, ao organizar a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP).

Nascido em 25 de novembro de 1871, o Major General Simon Joseph Fraser, cognominado pelos escoceses de MacShimidh, possuía os títulos de 14º Lord Lovat e 3º Barão Lovat, era um nobre das Terras Altas da Escócia. Ingressou no Exército Britânico e seguiu carreira no oficialato. Em 1899 criou o “Lovat Scouts”, formada com guardas-caça escoceses, uma unidade com atiradores de elite, as primeiras Forças Especiais britânicas e que lutaram na Guerra dos Bôeres na África do Sul. Foi deputado do Parlamento Britânico, comandou tropas na Primeira Guerra Mundial, foi presidente da Comissão Florestal do Exército e Subsecretário de Estado para Assuntos do Domínio no Gabinete do Primeiro-Ministro. Também era banqueiro, financista, investidor e executivo de diversas companhias, em especial o “Hong Kong and Shangai Bank Corporation” e a “Sudan Cotton Syndicate”, sendo esta dedicada a produção de algodão no Sudão e Egito. Lovat veio ao Brasil nos primeiros dias de 1924 como membro da “Missão Montagu” que, com a aquiescência do Governo Federal, analisou a situação e as potencialidades do sistema tributário do País, atividades produtivas ou a realidade econômica brasileira de então.

Lord Lovat chega a São Paulo 
(Fonte: REVISTA O MALHO de 06 de Janeiro de 1924)


Lord Lovat deixou claro seu interesse, prospectar condições de investimento, de negócios ligados ao plantio e a exportação de algodão para suprir a indústria têxtil britânica. Queria conhecer terras que pudessem ser adquiridas por seu grupo de produtores e fomentar a produção dessa commoditie em substituição à África onde as condições políticas afetavam a produção algodoeira. Lovat se interessou por três regiões: o vale do Rio São Francisco em Minas Gerais, Jaraguá do Sul em Santa Catarina e o Norte do Paraná entre os Rios Tibagi e Ivai. Minas exigia obras vultuosas para um sistema de irrigação semelhante ao egípcio e não havia ligação da região com a malha ferroviária existente; Santa Catarina não possuía um clima perene e constante adequado ao algodão e; o Norte do Paraná possuía terras férteis, clima temperado e recursos hídricos necessários, além de uma ferrovia já projetada, e iniciada, até o Rio Paraná e com vistas a atingir Assunção no Paraguai.

Lovat foi recepcionado pelos plantadores de algodão como um verdadeiro salvador da lavoura brasileira, literalmente ele representava a possibilidade de exportação de um novo produto para o mercado e a indústria britânicos. O algodão era potencialmente capaz de ficar ao par com o café, com bons preços e retorno financeiro. Por sua vez a indústria têxtil brasileira enxergava as pretensões do empresário britânico com a literalidade de uma nuvem de gafanhotos que, do horizonte, pairava ameaçadoramente sobre o futuro do seu negócio ante os melhores preços que poderiam ser pagos aos plantadores brasileiros pelos britânicos. O aumento dos custos poderia inviabilizar a indústria nacional. Lovat disse em entrevista que a industrialização do Brasil era inviável e que o futuro do País estava na modernização da agricultura.



A presença britânica no Paraná se fez então através da CTNP e da Ferrovia São Paulo – Paraná, sendo esta uma necessidade logística e uma exigência legal do Brasil para que se aprovassem projetos de colonização daquela magnitude. Os ingleses, como chamados, representaram um modernização capitalista que já fora, de certo modo, sentida em Curitiba quando as introdução da mecanização, do sistema de fábrica, um processo de industrialização no beneficiamento e envaze do mate.

Inauguração da Ponte Ferroviária sobre o Rio Tibagi
(Fonte: O Estado de São Paulo, 28 de julho de 1935)


Após um século das suas viagens e tomada de decisões, Lord Lovat é lembrado como o idealizador do Norte do Paraná, novo, modernizado e diverso do Brasil de até então. Ele empresta hoje, com a utilização do seu nome, um certo ar de elegância histórica e glamour que remetem a Belle époque, do início do século XX. Fazem referência a ele logradouros, edifícios comerciais e residência, concessionárias de veículos e uma estação férrea que deu origem a cidade de Mandaguari.

Lord Lovat, falecido em 18 de fevereiro de 1933, antes de Londrina tornar-se oficialmente uma cidade, representou a colonização e exploração do Norte do Paraná segundo moldes capitalistas e administrativos modernos àquele tempo.



domingo, 23 de fevereiro de 2025

Os 76 anos do Distrito de Congonhas em 2025: uma Barriga histórica?

 OS 76 ANOS DO DISTRITO DE  CONGONHAS EM 2025: UMA BARRIGA HISTÓRICA?

 

Prof. Dr. Roberto Bondarik

Universidade Tecnológica Federal do Paraná 

Docente e Pesquisador

Coincidentemente a abertura de minha disciplina Pesquisa e Ensino de História e Geografia do Município no PPGEN-UTFPR, que versará sobre pesquisa em História e Geografia, trabalho onde um fato deve ser investigado e comprovado por fontes (texto, foto, imagem, desenho, restos materiais etc.). Estas fontes precisam ser criticadas ou analisadas de todas as formas possíveis para se conhecer a sua veracidade ou fidedignidade.

Quando afirmamos de maneira histórica, e os alunos do curso irão realizar afirmações desta natureza, em diversos momentos em pesquisas que realizarão em nossa disciplina, precisamos neste trabalho estar fundamentados em documentos comulmente chamados de fontes históricas. Todo historiador que segue um método científico fez, faz e fará isso.

Essa semana recebi uma reportagem de vídeo feita pela RCFM (Rádio Cornélio) a respeito da passagem e comemoração dos 76 anos do Distrito de Congonhas, aqui no Município de Cornélio Procópio. Divulguei para professores e grupos do ZAP. Até então estava tudo certo, gostei do empenho e do entusiasmo das pessoas celebrando sua história, da qualidade e do profissionalismo dos jornalistas conduzindo o trabalho que não deve ter sido facil.

Porém, um colega meu da Academia de Letras Artes e Ciências de Cornélio Procópio, Antonio Vilas Boas Neto autor do livro “Memórias Simplesmente Memórias”, baseado em matérias publicadas pelo jornal A Voz do Povo ao longo de décadas de história procopense. Ele me mandou ler as páginas 119, 120 e 121 de seu livro. Lá estava registrada uma discrepância ocorrida nas datas, ele citava nesse trecho uma matéria publicada em 1957 onde se dizia ter sido o distrito criado pela lei nº 64 de 02 de dezembro de 1948 mas também faz referencia a autores que afirmavam ter sido esse distrito criado por meio da lei nº 2 de 11 de outubro de 1947.

Estabelecida a polemica histórica fui a campo (pesquisa) em busca de fontes que elucidassem as dúvidas levantadas. Eis que encontrei algumas boas. Paulo Ribeiro Dias o mesmo jornalista da matéria citada, faleceu antes que o seu livro fosse publicado, deixou suas anotações que foram transcritas e editadas. No livro ele fala da criação do Distrito de Congonhas em 21 de janeiro de 1949. Até ai, mesmo com um mês de discrepância, os 76 anos se manteriam, sei que foram comemorados efusivamente sexta-feira passada (21/02/2025). 

Porem a Lei do Estado do Paraná nº 64, foi sancionada em 21 de fevereiro de 1948, trata-se da Lei Orgânica dos Municípios, versando sobre a criação e extinção de municípios, distritos. Nela não há menção ao nome de Cornélio Procópio ou Congonhas. Notem que não é fevereiro de 1949, é 1948.

Outra lei citada no livro Memórias (...) é a de nº2 de 10 de outubro de 1947, no site da Assembleia Legislativa consta o dia 11 de outubro. Nesta lei no seu artigo 4º, inciso XII, letra “C¨”, com a seguinte redação, criando no Município de Monte Castelo, breve nome que Cornélio Procópio teve naquele ano (VEJA AQUI), os Distritos de Sertaneja, Leópolis e Congonhas: (ACESSE O SITE E LEIA A LEI)

c) o de Congonhas, com sede no povoado do mesmo nome, que fica elevado à categoria de Vila, e com os limites seguintes: com o distrito de Sertaneja: começa na Barra do Córrego de Guaporé e por êste acima até as cabeceiras das águas do Petreli, por estas abaixo até a sua barra com o Ribeirão de Tangará e por êste até a sua barra com o rio Congonhas; com o distrito de Leópolis: começa na barra do Córrego do Veadinho, subindo por êste até as suas cabeceiras, daí em liha reta cruzando o divisor, até atingir as cabeceiras das águas do Prosdócimo; com o Município de Monte Castelo: começa nas cabeceiras do galho principal do Ribeirão Tangará seguindo em linha reta até a cabeceira do Ribeirão Macuco e por êste até a sua barra com o rio Congonhas.

Esta lei foi aprovada no dia 10 de outubro e sancionada pelo Governador do Estado do Paraná imediatamente. Os novos municípios e distritos deveriam ser instalados em até 30 dias após a lei entrar em vigor, o que ocorreu imediatamente. Desta forma Congonhas, ao menos administrativamente foi instalado em algum momento entre os dias 11 de outubro e 11 de novembro de 1947.

Alem da reestruturação no quadro politico-administrativo do Estado do Paraná, vivia-se um momento de extrema agitação politica pois no dia 15 de novembro ocorreram eleições municipais em todo o Brasil, as primeiras realizadas após o fim da Ditadura de Getúlio Vargas. Muito evidente o interesse politico nessa reestruturação da divisão politico-administrativa do Paraná. Foram criados os municipios de Curiúva, Cambé, Arapongas, Ibiporã, Campo Mourão, Quatiguá, Jataizinho, entre outros tantos.

O IBGE em seu site sobre o Municipio de Cornélio lista essa Lei nº 2 de 10 de Outubro de 1947, esta acessível e fácil leitura. (ACESSE O SITE) 

A própria instalação do Distrito de Congonhas não teria ocorrido em 15 de fevereiro de 1957, esta poderia ter sido uma reinstalação ou mesmoa criação da Sub-Prefeitura como um departamento administrativo do Município. Em uma matéria do jornal A Voz do Povo isso teria ocorrido em 07 de abril de 1949, conforme fala do então vereador Damasco Adão Sotile.

Desta forma a criação do Distrito de Congonhas data de 11 de outubro de 1947, levando em conta a sanção do Governador do Estado, 10 de outubro de 1947 se consideramos a data da sua aprovação pela Assembleia, mais ainda o que consta no site e publicações do IBGE. 

Congonhas completará 78 anos como Distrito em outubro de 2025.

Não foi em 21 de fevereiro, não foi em 1949, não se completaram portanto os 76 anos.

Foi em outubro de 1947, há quase 78 anos.

Por isso insistirei com meus alunos para que usem fontes fidedignas, façam a crítica dessas fontes, verifiquem tudo para ter certeza do que afirmarão.

Foi uma Barriga Histórica semelhante àquelas que ocorrem no jornalismo. Eu mesmo já fiz isso quando vendo uma legenda de foto na Revista O Cruzeiro, afirmei com abse nessa única fonte que quem acompanhava o Principe de Gales em Cornélio em 1931 era o Duque de York e pai da Rainha Eizabeth II. Deu até programa de televeisão transmitido pela RPC.  Quem o acompanhava era o Principe Jorge, Duque de Kent, falecido em 1942 em um acidentes aéreo. Em outras palavras uma “Fake News Histórica” ocasionada pela falta de pesquisa ou por sua insuficiência como ocorreu.

Usarei esses casos, inclusive o meu, como exemplo durante o curso.

______________________________________________

PS: Tecnicamente, a barriga ocorre quando o jornalista divulga uma informação equivocada,

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Centenários do Norte: Os Cem anos da Emancipação Politica de Cambará no Norte Pioneiro do Estado do Paraná

 Centenários do Norte: Cem anos da Emancipação Politica de Cambará no Norte Pioneiro do Estado do Paraná

Prof. Dr. Roberto Bondarik

bondarik@utfpr.edu.br

Professor Titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio

 

 

Em 21 de setembro de 1924 foi instalado o Município de Cambará, um centenário que marca as comemorações de tantos outros vindouros nos próximos anos acompanhando o traçado da Ferrovia São Paulo – Paraná até adentrar Londrina. A importancia de Cambará para a história e a integração do Norte do Paraná à Civilização Ocidental é imensa pois foi aí, há cem anos,  que o Paraná foi apresentado a Lord Lovat integrante da Missão Montagu que analisava a situação econômica e fiscal do Brasil para banqueiros britânicos. Lovat era um pesquisador das possibilidades de desenvolvimento do País, um prospector de investidores britânicos que haveriam de criar a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Antonio Barbosa Ferraz Junior, interessado em alavancar seus negócios, foi quem mostrou a Lovat o potencial econômico da terra roxa, do café e abertura desta grande região ao mercado nacional e internacional. Os ingleses se interessaram e se tornaram pró-ativos na transformação de um sertão de matas maciças em um grande centro de produção agropecuária.

Barbosa Ferraz, ao que consta conheceu a região ao Norte e Oeste de Jacarezinho ainda por volta de 1908, participando de uma caçada que era uma atividade tão comum quanto as pescarias que hoje se promovem. Já havia fazendas e fazendeiros na área e descreviam-na como um “maciço de arvores frondosas”, sem clareiras. Aufere-se portanto que Barbosa Ferraz conheceu o solo coberto de mata fechada e as terras já aberta e com a prática da agricultura, talvez já com o café em franca produção. 

A chegada naquele ano de 1908 da Ferrovia Sorocabana à Estação de Ourinhos-SP possibilitou uma facilidade no transporte de cargas em grandes volumes que favorecia a produção agrícola em grande escala. Barbosa Ferraz adquiriu grande extensão de terras atraído por sua fertilidade e pela ausência de uma legislação, como a existente em São Paulo, que limitava a implantação indiscriminada de cafezais bem como o volume do seu transporte pelas ferrovias até o Porto de Santos. A sua Companhia Agrícola Barbosa em pouco mais de uma década assumiria a posição de maior estabelecimento agropastoril e também industrial, considerando todo o Estado do Paraná, tornando-se inclusive foco de disputas politicas com a então sede do seu municipio, Jacarezinho. O projeto de expansão  economica que se vislumbrava no inicio da década de 1920 não era compreendido e muito menos alvo de atenção e investimentos do Governo do Estado do Paraná daquela época, cujos esforços estavam em alavancar e perpetuar as atividades ligadas a extração, beneficiamento e exportação da Herva-Mate. 

Cambará em seus primeiros decênios teve uma agricultura baseada na produção de café, com grandes fazendas que empregavam muitas vezes centenas de famílias de colonos. Registra-se que muitos, senão uma maioria, destes trabalhadores eram de origem estrangeira: italianos, espanhóis, eslavos, japoneses etc. Nestas fazendas adotavam um sistema em que ao colono era permitido cultivar principalmente o milho e o feijão em meio ao arruamento dos cafeeiros, além do arroz em áreas de baixada. A produção ou sua maior parte era de propriedade dos colonos que, atravez da ferrovia podiam levar o que colhiam para ser vendido em Ourinhos, Avaré, Sorocaba até São Paulo. Apesar do trabalho pesado e da quase inexistencia de proteções de leis trabalhistas inexistentes até muito tempo, esses colonos conseguiram, em sua grande parte adquirir terras na fronteira que ia se formando para além do Rio das Cinzas, transpondo o Laranginha, o Congonhas, o grande Rio Tibagi e se espraiando pela grande área da Companhia de Terras Norte do Paraná nos anos 1930. Destaque-se que o sistema de financiamento das companhias loteadoras era quase que auto-financiavel se houvesse a imediata ocupação e inicio do processo de produção das terras: derrubada da mata, extração da madeira mais valiosa, plantio do café, plantio de generos agricolas para sustento e comercio etc.

A possibilidade da extensão de um ramal ferroviário da Sorocabana até Cambará e mesmo adiante, a partir de Ourinhos, ideia que foi muito difundida no inicio dos anos de 1910 e seguintes,  fez aumentar o afluxo de compradores de grandes extensões de terras na região. Compravam-se as propriedades nominais de antigas posses do século XIX, de seus herdeiros e mesmo de terras devolutas do Estado do Paraná. A Primeira Guerra Mundial limitou os mercados consumidores de café e algodão, fez desaparecer do mercado os trilhos de aço, locomotivas, vagões, explosivos para detonação de rochas no leito em construção das ferrovias, de 1914 até pelo menos 1920 houve uma grande pausa na região, no Brasil e no Mundo.

Como a extensão da Sorocabana não foi efetivada, em 1920, impulsionados pelos discursos e artigos publicados pelo Deputado Federal por São Paulo Cincinato Braga que defendia a construção de uma ferrovia ligando Salto Grande à Guaíra, depois a Assunção no Paraguai e sua interligação com os barcos a vapor argentinos dos Rios Paraná e Paraguai, decidiu-se pela construção de uma ferrovia com recursos próprios dos fazendeiros locais. Os Barbosa, Antonio e seus filhos, possuíam investimentos muito diversificados e, ao que demonstraram, eram muito instruídos na potencial capacidade econômica do Norte do Paraná, ainda um projeto de exploração. A Ferrovia Noroeste do Paraná foi formalmente constituída em Agosto de 1920 para, inicialmente, ligar por meio de uma estrada de ferro com um metro de bitola, a localidade de Cambará até Ourinhos, meta atingida completamente até 1925. A concessão de construção contemplava a sua extensão até Jataizinho, na Comarca de Tibagi, tendo seus estudos e projetos sido feitos nos anos seguintes. Essa ferrovia seria adquirida pelos britânicos da Paraná Plantations, tornando-se o embrião fecundo que geraria Cornélio Procópio, Londrina até Maringá.

Sob a égide da Companhia Agricola Barbosa Cambará tornou-se Município com interesses econômicos um tanto que diversos daqueles que conduziam Jacarezinho e o  Estado do Paraná àquele tempo. Uma série de conflitos envolvendo a Companhia, seus proprietários e o Juiz de Jacarezinho levaram a implantação da Comarca de Cambará em 1928. A cidade foi o ponto de passagem para todos os que buscaram “fazer o Norte”, se “firmar na vida”, trabalhando nos sertões do Norte do Paraná tornados acessíveis pela CTNP.

Meu cafezal em flor, quanta flor no meu cafezal! Cem anos de Norte do Paraná, de trabalho, de dedicação e de construção de uma cultura pé vermelha!