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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Origens Históricas de Quatiguá - Estado do Paraná


História de Quatiguá: origens e formação da cidade

Prof. Roberto Bondarik, Dr.


            Segundo consta nos registros históricos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Quatiguá foi fundada em 1903 pelo sertanista Orlando Ferreira de Paiva. Sendo ele o primeiro a edificar uma casa no local onde hoje é a cidade. Não existem em documentos ou outras fontes, maiores menções a esse fundador, também não há registros sobre as motivações que o levaram a escolher esse local para habitar. A tradição histórica local tende a confirmar essa informação.
            Ao que tudo indica, essa edificação deve ter sido feita quando da abertura da “Estrada do Borromei”, construída a partir de Jacarezinho em direção à Colônia Mineira (atual Siqueira Campos), passando por Tomazina e, finalmente atingindo os Campos de Piraí do Sul e algum ponto da Ferrovia São Paulo – Rio Grande do Sul. O responsável pela execução da obra foi o engenheiro Carlos Borromei, italiano de nascimento e funcionário da Secretaria de Estado da Viação e Obras Públicas, ao final ele próprio acabou residindo em Jacarezinho após adquirir ali uma fazenda e tornar-se também produtor de café.

“Do senhor engenheiro Carlos Borromei, communicou-se que nesta data foi encarregado da direção da construção da estrada que do Jacarezinho, vae ao Pirahy (...)” (Fonte: Jornal “A REPÚBLICA”, Curitiba, 06 de Maio de 1903, p.01)

Estrada do Borromei
Fonte: detalhe de mapa do Estado de São Paulo editado em 1912 e disponivel no Arquivo Público daquele Estado

            A estrada foi construída nas terras altas do divisor de águas entre as bacias hidrográficas dos rios Jacaré e das Cinzas, medida que evitava a travessia por dentro de cursos d’água ou a construção e a manutenção de pontes. O objetivo era facilitar o escoamento da produção de café do entorno de Jacarezinho que, aquele tempo tinha apenas uma trilha de tropas que a ligava a Santo Antonio da Platina e consequentemente ao restante do Paraná. A iniciativa também visava atrair a incipiente produção agrícola do Norte do Paraná para Curitiba e os gêneros exportáveis para o Porto de Paranaguá. A estrada cortava uma região sem povoados e escassamente povoada, em especial o trecho de pouco mais de oitenta quilômetros entre Jacarezinho e Colônia Mineira. Sua abertura significaria a integração econômica do Norte do Estado com o restante do Paraná e até seus portos, visando o comercio internacional, dando importância financeira e valor às terras, sua produção e riqueza a seus habitantes. Gastava-se mais no transporte dos produtos do que com a sua obtenção:

O nosso commercio se acha mais ou menos paralysado, e não fora essa crise que tomo a Esphinge da Mythologia, assolará o nosso pobre Brazil até que tenhamos um novo Edipo que decifre o seu enigma, e esta localidade já andaria muito longe na senda do progresso. Elementos tem de sobra à começar pela pujança do seu solo secundada hoje pela nova estrada de rodagem mandada construir pelo benemérito dr. Governador do Estado, auxiliado pelo distincto engenheiro dr. Candido de Abreu.
Antes de se começar a construção o preço da arroba de café para conduzir em tropa, até o Pirahy, era de quatro mil reis e até de quatro mil e quinhentos reis!
Hoje, 2 annos, apezar de não estar ainda prompta a estrada, paga-se somente mil e seiscentos reis. A diferença já é grande e maior será quando a estrada varar para o campo recebendo directamente o viandante que dará graças aos céus por não ter mais que subir ou descer as alterosas serras da Natureza, Colônia Mineira e Jaboticabal. A construção, a cargo do não menos distincto engenheiro dr. Carlos Borromei, acha-se já na Colônia Mineira com 82 kilometros, com picadão, se acha a 12 kilometros além da Colônia, em demanda do Campo onde sahirá talvez com pouco mais de 30 kilometros.
O encurtamento da distância entre o Jacaresinho e o Campo sendo notório, além da magnifica topografia do terreno percorrido, é claro e fora de dúvida que esta estrada será para esta zona um extraordinário benefício.
Que se recolham, pois, os despeitados que querem fazer crer o contrário; e o tempo melhor dirá de que lado está a razão (DIÁRIO DA TARDE, 24 JUL. 1903, p.01).

            A estrada foi construída a mando do Governo do Estado do Paraná, ao custo total de 200:000$000 (duzentos contos de réis). Sua construção deve ter demandado pelo menos uns dois anos inteiros e seus idealizadores enfrentaram oposição daqueles que achavam melhor investir na chamada “Estrada Velha”, aberta pela Câmara de Vereadores de Thomazina e que ligava a aquela cidade ao povoado de Santo Antonio da Platina, seguindo próxima ao Rio das Cinzas, passando pelos atuais Distrito do Sapé, pelo patrimônio da Barra Grande, que aquele tempo existia na foz do Ribeirão com esse nome. Localidade transferida a posteriori para a atual Guapirama. Ao que consta os núcleos urbanos ao longo desse caminho dariam maior segurança aos viajantes até atingirem Jacarezinho, por tempos chamada de Ourinho. A falta d’agua no traçado da Estrada do Borromei era um argumento forte, porém era rebatido pelos seus defensores como podemos ver:

Continuando a occuparmo-nos da nova estrada de rodagem entre o Jararesinho e Pirahy, precisamos salientar a abundância d’agua que se encontra em seu percurso.
É um facto cuja contestação só pode ser feita por má fé e crida por quem indiferente aos progressos do nosso Estado não procura indagar da verdade e se deixa impressionar pelo que primeiro se lhe informa, sahindo logo a pregar que esta estrada é um monstrengo!
Não é tal: é um elemento de progresso desta zona, é a communicação melhor que temos para aqui ser mais curta, é a mais suave por ter melhor topografa, pois não tem rampas de mais de 10 graus, a declividade permitida em estradas de rodagem; é finalmente a mais commoda porque os córregos que dão de beber aos animais são mais próximos uns dos outros. E senão vejamos. A partir da villa do Jacaresinho no kilometro 8 se encontra o rio Jacaresinho; no kilometro 15 o córrego da Capivara com bom volume d’agua e que passa por dentro de uma fazenda; no kilometro 20 há um morador, no fundo de cuja casa passa um córrego chamado do “Pinto”; no kilometro 24 há também um córrego, onde já os tropeiros fazem pouso; no kilometro 26 há um pequeno córrego, no kilometro 29 – Pedra Branca há um morador e rancho para tropeiros; no kilometro 32 há um pequeno córrego; finalmente nos quilômetros 36, 41, 42, 49, 57, 60, 61 e 64 há agua e em quase todos tem moradores já; dai por diante entramos na fazenda da Colônia Mineira, onde de meia em meia légua, no máximo, se encontram moradores e também pastos para os animais até o kilometro 82 na sede da Colônia.
Como se vê a maior distância que se caminha sem água é de 8 kilometros.
Ora, se tanta água não se tinha necessidade, pois quantos e quantos córregos passam os animais sem beber água mesmo no verão.
Em quase todos esses córregos acham-se signaes de pouso das tropas. Capim não falta, porque o constructor da estrada com inteligência o semeou em toda a margem para o duplo fim de apascentar os animaes das tropas e evitar que o matto viceje, prejudicando o trânsito e o seccammento do terreno, o que é natural em terras fortes como em geral são as desta zona.
O mesmo já não se pode dizer em relação às outras estradas por onde se chega a caminhar até 3 léguas sem se encontrar uma gotta d’agua, como acontece na estrada de Thomazina, pela Serra da Natureza, e mesmo por S. José da Boa Vista há pontos seccos de quase duas léguas.
Pelo celebre picadão entre Thomazina e S. Antonio da Platina, nem por experiencia, afim de conhecer é detestável, aconselhamos a que passem por lá passem. Tem trechos longos também sem água e é de princípio a fim, em todos os tempos, um atoleiro medonho. A nova estrada não demorará muito a ser transitada por carroças, pois já se acham promptas algumas pontes, e uma vez entregue de todo a esse trânsito, veremos a nossa zona prosperar, e muito, porque só nos estão faltando os meios fáceis de transporte para o que se produz.
Por enquanto os transportes absorvem os produtos das vendas e por isso o retrahimento é grande. A exportação dos nossos gêneros para fora do Estado, pelos seus portos, é o nosso Ideal.
Torna-se, porém, necessário para essa realização, que depois da estrada tenhamos o abaixamento das tarifas nas estradas de Ferro. Isso se dará? Esperemos, contando com os esforços do actual governo do Estado, que tudo tem procurado fazer a bem da nossa prosperidade, e com a influência do nosso ilustres chefe dr. Vicente Machado, junto ao União (DIÁRIO DA TARDE, 29 out. 1903, p.02).


Detalhe da Estrada do Borromei entre Jacarezinho e Colonia Mineira (atual Siqueira Campos Paraná), grafado erroneamente como Colônia Militar

           A fertilidade do solo, o crescimento rápido da mata derrubada em seu longo trajeto, a falta de manutenção aliada ao sertão inóspito e quase desabitado, fizeram com que em poucos anos a estrada fosse abandonada a sua própria sorte:

Não sabemos qual a razão de achar-se abandonada e coberta de matto a estrada de rodagem que da Colônia Mineira vai a Ourinhos e na qual o governo gastou 200:000$000. Devido o estado em que se acha essa estrada. Estafeta do Correio, que de Thomazina ia para Ourinhos, passando pela Colônia Mineira, vê-se obrigado chegar a esta, voltar a Thomazina para dahi seguir a Ourinhos pela estrada velha. Pedimos ao exmo. Sr. Dr. Governador do Estado, lançar as suas vistas para essa importante via de communicação, presentemente abandonada por falta de roçadas na extensão de 82 kilometros. Há quem se proponha a fazer esse serviço por 2:000$000, deixando livre trânsito para cargueiros (DIÁRIO DA TARDE, 13 nov. 1905, p.01).

            Foi ao logo do traçado dessa estrada do Borromei, ou em suas proximidades que Quatiguá foi fundada, inicialmente como dois pequenos povoados: Barra Grande e Chapada. Nome das duas grandes glebas que, subdivididas, deram origem ao Município. Uma vez unificados com a chegada do Ramal Ferroviário do Paranapanema em 1919, o povoado de Quatiguá tirou o seu nome do serro próximo: Serro do Quatigual. Esse nome já figurava nos documentos que, em 1890, determinavam os limites do Distrito e do Termo de Jacarezinho. Assim a cidade cresceu, em meio a mata, a beira das encostas da serra, nos campos, os cafezais que surgiram. Em 1924 já despertava a atenção:

Quatiguá era, até bem pouco, o último ponto da via férrea. É um logar bonito, erguido no meio de matta expessa onde se encontram as madeiras mais raras. Metade do povoado pertence à Colônia Mineira e a outra metade é da jurisdicção platina.
Um bom hotel, modesto, mas limpo e commodo, atende a freguesia que ahi aporta, com a mesma solicitude de uma casa de família, gentil em obsequiar os hospedes (MARTINS, 1924, parte III, p.01).

            A Estrada do Borromei não se manteve, mas seu traçado conhecido, usado como trilha ou picada, serviu de base para a construção da Ferrovia que desde Jaguariaiva iria atingir Ourinhos em São Paulo. Também uma nova estrada de rodagem foi aberta ao lado da ferrovia:

Nas paradas obrigatórias, o major Infante Vieira mostrava-nos o serviço que fizera, abrindo aquelle caminho onde ainda se percebiam vestígios da antiga picada Borromei que em tempos fora feita para ligar o sertão Norte a Thomazina (MARTINS, 1924, parte VI, p.01).


 Novas histórias antigas virão.

 Referências:

PELO ESTADO: Pirahy. Diário da Tarde, Curitiba-PR, p.01, 13 nov. 1906;
PELO ESTADO: Jacaresinho. Diário da Tarde, Curitiba-Pr, p.01, 24 jul. 1903;
PELO ESTADO: Jacaresinho. Diário da Tarde, Curitiba-Pr, p.02, 29 out. 1903;
A REPÚBLICA, Curitiba, 06 de Maio de 1903, p.01;
MARTINS, Romário. Sertão em Flor: o Paraná Cafeeiro – parte III. O Dia, Curitiba-PR, pp.01 e 08, 21 jun. 1924;
MARTINS, Romário. Sertão em Flor: o Paraná Cafeeiro – parte VI. O Dia, Curitiba-PR, pp.01 e 08, 26 jun. 1924;
TOMAZI, Nelson Dácio. Norte do Paraná: histórias e fantasmagorias. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2000;
WACHOWICZ, Ruy Chistowam. Norte Velho, Norte Pioneiro, Curitiba: Gráfica Vicentina, 1987;
______. História do Paraná. 6ª ed. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1988;



domingo, 27 de fevereiro de 2011

Cidades e Vilas Desaparecidas do Norte Pioneiro do Paraná: ESPIRITO SANTO DO ITARARÉ


Cidades e Vilas Desaparecidas do Norte Pioneiro do Paraná
==== ESPIRITO SANTO DO ITARARÉ ====

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio


                Dando continuidade a um texto anterior onde tratei sobre a localidade de São José do Cristianismo, desta feita abordarei outra cidade desaparecida do Norte Pioneiro do Paraná: Espírito Santo do Itararé, próxima a atual Ribeirão Claro e hoje sob as águas do lago artificial que abastece a Usina Hidrelétrica de Chavantes-SP. Usarei neste texto informações baseadas principalmente na obra de Ruy Chistovam Wachowicz – “Norte Velho, Norte Pioneiro” (WACHOWICZ, Ruy Chistovam. Norte Velho, Norte Pioneiro. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1987, 178pp.). Mesmo assim ainda são poucas as informações que possuo sobre a formação desta localidade que podemos dizer tenha sido um dos embriões do Norte do Paraná.

                A antiga Espírito Santo do Itararé foi erguida na região próxima da confluência do Rio Itararé com o Paranapanema, a ocupação desta área data do século XIX, relatos nos informam que nas primeiras décadas daquele século uma mulher, provavelmente mineira havia ali se fixado junto com seu marido. Conhecida como Maria Ferreira, ela frequentemente levava alguns produtos e principalmente peles de animais para serem trocadas em Piraju-SP, para tanto fazia uso dos dois rios que eram navegáveis, descia o Itararé e depois subia o rio Paranapanema. Ao que consta seu marido, que era caçador, deveria ser um foragido da policia, pois nunca se aproximava da cidade quando Maria Ferreira para lá ia comerciar.

                No local onde Maria Ferreira habitou desenvolveu-se um porto, à margem esquerda do Rio Itararé, que recebeu o nome desta sua primeira habitante. Próximo ao porto, posteriormente em terras que pertenciam a Fazenda Taquaral desenvolveu-se o núcleo urbano de Espírito Santo do Itararé. A primeira doação de terras para a formação deste patrimônio data de 1894, mas é evidente que já havia ocupação urbana desde muito tempo antes disso. Com o avanço da ferrovia Sorocabana pelo vale do Parapanema e com a possibilidades de transporte assegurada, a cafeicultura avançou e atingiu o Norte do Paraná. O afluxo de pessoas aumentou cada vez mais e empurrou a colonização para o oeste.

                Um novo centro urbano acabou surgindo nas margens do riacho Ribeirão Claro, em terras mais altas e livres do mal que, a exemplo de São José do Cristianismo, também assolava Espírito Santo do Itararé, a malária e outras doenças palustres.

                Espírito Santo do Itararé foi sede de município, teve Igreja, delegacia postos de serviços do Governo Estadual, força policial, etc. A Loja Maçônica “Amor a Virtude" Nº 0776 do Grande Oriente do Brasil, fundada em 21 de Dezembro de 1901,  ali funcionou por um certo tempo e chegou a ter um razoável número de membros cuja participação pode ser identificada em diversas outras oficinas pelo Norte do Paraná pelo menos até a década de 1950.

                Em grande parte devido a malaria e a insalubridade do local, grandes algozes destes povoadores pioneiros, Espírito Santo do Itararé foi se esvaziando em prol de Ribeirão Claro. Em 13 de maio de 1908 a sede da municipalidade foi solenemente transferida para a aquele lugar, inclusive com a devida mudança na denominação para Município de Ribeirão Claro. A cerimônia contou com a presença de autoridades estaduais, locais e de Jacarezinho, município vizinho que já vicejava há algum tempo. E em 1911 foi instalada a Comarca de Ribeirão Claro cuja foto se encontra abaixo.


Autoridades presentes à instalação da Comarca de Ribeirão Claro em 1911