domingo, 27 de julho de 2008

Puxando o Norte Para o Nosso Coração

Escrevi este artigo há algum tempo, em 13 de Abril de 2005, mas seu conteudo é bastante atual. Mais um que enviei a Folha de Londrina e acabou não sendo publicado, devia ter coisa melhor na frente! Bem vamos ao texto:
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Puxando o Norte para o nosso coração! Duplicação Já!
Prof. Ms. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br

Puxando o Norte para o nosso coração”, este era o objetivo de Manoel Ribas ao mandar construir a Estrada do Cerne, ligando o Norte do Paraná a Curitiba. Passando por Pirai do Sul e chegando até Jataizinho, a estrada tinha por objetivo puxar para o coração do Paraná aquelas que eram consideradas as mais férteis do mundo, o Norte do Paraná, procurando afastar a influência de São Paulo. E assim o fez.

Alem da fertilidade das terras, percebemos ainda o grande potencial de crescimento econômico que Norte do Paraná. Contatamos ainda aquilo que ele não possui e atrasa seu desenvolvimento. Um desenvolvimento e crescimento que depende cada vez mais de boas e seguras estradas. Independente de aumentarmos a discussão sobre a natureza da gestão das estradas, devemos ponderar que nossas rodovias nos afastam do coração do Paraná, nos afastam de uma integração maior e de melhores oportunidades de negócios.

Temos diferenças históricas e culturais com outras regiões do Paraná, diferenças que não nos afastam. Aquilo que realmente nos afasta do coração do Paraná é a constatação de que em uma economia que se fez dependente de caminhões, de ônibus e de automóveis, ainda não exista uma rodovia corretamente duplicada ligando Londrina e Maringá até Ponta Grossa. Que igualmente não existam rodovias adequadas ligando Jacarezinho, Santo Antonio da Platina, Ibaiti e Wenceslau Braz ao coração do Paraná. Até Cascavel e Guarapuava estão isoladas.

O Norte do Paraná foi construído com o trabalho arduo de pessoas que conseguiram transformar esta região em um celeiro de oportunidades. Não desejo cobrar apenas da classe política, que sozinha, não terá nunca condições para trazer o progresso. É chegada a hora da sociedade, organizada, conduzir ações para o nosso desenvolvimento. A sociedade somos nós, escolas, faculdades, universidades, organizações não governamentais, Cooperativas, Igrejas, Clubes de Serviço, Sindicatos, Associações Comerciais e Industriais, Sociedades Rurais, Lojas Maçônicas, etc, onde tenha alguém com o pé-vermelho. Precisamos de pessoas com a visão de negócios necessária para iniciar uma campanha para duplicação de nossas estradas, queremos estar juntos ao coração do Paraná, como paranaenses que somos esse é um sentimento enobrecedor, com dignidade para progredir. Se nos derem o mínimo, corremos atrás do máximo, alcançamos e venceremos como sempre. Com justiça e perfeição. Duplicação Já! Na Rodovia do Café, no Cerne e na PR-092.




sexta-feira, 11 de julho de 2008

O Dia da Industria

Este texto foi enviado para publicação em jornal, porém não o acharam adequado ou sei lá o que acharam pois o ignoraram. Mesmo assim toco em assuntos relacionados a industria brasileira e paranaense em especial, com certeza pode servir a alguem.
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25 de Maio - Dia da Industria e A Industria no Paraná

(Por Roberto Bondarik)
Neste dia da Industria (Decreto Nº 43.769 de 21 de Maio de 1958), cabe-nos lembrar que a sociedade brasileira é urbana e industrial, significando isto que boa parte de sua riqueza é gerada pela industria (35% do PIB) e que a maioria da população vive nas cidades e não mais no campo. A industria torna-se assim a mais viável opção para a geração de empregos e também uma promessa predileta momentos de crise e eleições pelo Brasil afora.
Iniciada na Grã-Bretanha em meados do séc. XVIII (Primeira Revolução Industrial), as origens da indústria estão ligadas ao desenvolvimento e utilização de máquinas que substituíam a força e a habilidade humanas e à necessidade de produzir cada vez mais e com menos custos. No Brasil o primeiro industria moderna foi o Estaleiro de Ponta da Areia pertencente ao Visconde de Mauá, em Niterói-RJ. Irineu Evangelista de Sousa foi o primeiro industrial e capitalista brasileiro.
No Paraná falamos em industria principalmente após a abertura da Estrada da Graciosa e da construção da Ferrovia Curitiba-Paranaguá (metade final do séc. XIX), quando ocorre uma melhoria na produção de erva-mate. Surgem inúmeros engenhos para beneficiamento da erva tanto no Planalto em Curitiba como no litoral, representando nossa primeira experiência industrial. Houve a exploração de madeira (araucárias), seu beneficiamento e exportação. Surgem empresas voltadas à utilização da madeira em diversas cidades.
A cafeicultura, praticada no Norte do Paraná a partir de 1860, comportou inúmeras atividades suplementares industriais, ligadas a seu beneficiamento, transporte e embalagem. Na década de 1920 a fazenda de Antonio Barbosa Ferraz, em Cambará, era considerada o maior estabelecimento industrial do Estado. Havia ali maquinas de beneficiamento, oficinas e outras atividades correlatas.
Com a decadência do café, na década de 1970, soja e trigo ocupam o seu lugar mudando o perfil da agricultura do Estado. Decorrentes da nova atividade agrícola surgem industria de transformação desses produtos, ligadas em sua maioria à cooperativas agrícolas, como em Campo Mourão, Maringá, Carambei e Rolandia. Industrializar a produção agrícola demonstra ser um caminho para agregar maior valor e renda ao campo e gerar empregos nas cidades.
Em 1972 foi oficializada a Cidade Industrial de Curitiba, uma ampla parte da Capital do Estado foi reservada para a implantação e ampliação de indústrias. Terrenos com infraestrutura e urbanizados eram vendidos com subsídios aos interessados. É realizada a construção da Refinaria de Araucária e a instalação de empresas como a Volvo.
Na década de 1990, assistimos a instalação de montadoras de automóveis em Curitiba e região. Isso decorreu de uma conjuntura internacional favorável, do afastamento do Estado de setores da economia (privatizações) e sobremaneira da existência de vantagens fiscais, tributarias e de financiamentos oficiais decorrentes do regime automotivo. Pode-se afirmar que ocorreu pelo menos uma mudança no perfil econômico do Estado do Paraná ao longo de todo esse tempo. Lembramos que a industria para germinar e dar bons frutos depende da boa vontade de todos, muito trabalho, investimentos e maior e melhor educação e qualificação profissional da população.

Geada Negra de 1975 - Erradicação da Cafeicultura Paranaense

Outro texto que publiquei na FOLHA DE LONDRINA em 2005. Ele versa sobre a "Geada Negra de 1975", responsavel pela erradicação total da cafeicultura paranaense naquele ano e com conseqüências profundas nos campos social, politico e econômico do Norte do Paraná ainda hoje.
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A Geada Negra de 1975
(Por Roberto Bondarik)

No domingo (19/06), a Folha de Londrina relembrou um o mais traumatizante evento de nossa história. Em 18 de Julho de 1975, há trinta anos, ocorria a Geada Negra, que erradicou a cafeicultura no Estado do Paraná. Naquela ocasião muitos não tiveram discernimento da amplitude dos problemas causados e das conseqüências que seriam geradas por esta geada, talvez ainda hoje muitos ainda não tenham essa compreensão.


Revistas e jornais daqueles dias mostram o frio europeu que atingiu o sul do Brasil. Em Curitiba ainda se relembra e comemora a neve daquela ocasião. No norte, onde o café era a principal atividade econômica, o frio intenso assumiu ares de tragédia, não sobrou espaço lembranças alegres. Haviam ocorrido geadas fortes em 1963, 1964 e 1966, prenúncios da maior de todas. No dia seguinte, a Folha afirmava que os cafeicultores estavam de luto, mas os órfãos, a história mostra isso, eram a população do Norte, em especial os colonos, os pequenos proprietários, os comerciantes, as cidades, todos aqueles que se relacionavam direta ou indiretamente com a cafeicultura. Foram todos atingidos em seu modo e no seu estilo de vida, tivemos de reaprender a viver.


Com as lavouras destruídas era preciso recuperar os prejuízos. As terras eram caras, precisavam continuar lucrativas, plantou-se soja, trigo e milho, principalmente. A mão-de-obra necessária era a mínima possível para as novas atividades. As colônias das fazendas começaram a se desfazer, os não proprietários passaram a se fixar nas cidades da região, muitos viraram bóias-frias. Londrina era sempre a melhor opção, surgiram bairros imensos, grandes conjuntos habitacionais como o “Cincão”. Outros foram para Curitiba e São Paulo. Próximo a Campinas, existem bairros inteiros habitados por gente que se orgulha e chora de saudade, por ser do Paraná. Para aqueles que já eram proprietários, optaram em vender o que possuíam e comprar novas terras em regiões livres do frio, assim hordas de paranaenses rumaram a Mato Grosso, Rondônia e Acre. Rapidamente Rondônia virou um Estado. Mato Grosso virou dois, no do norte estão muitos dos nossos antigos vizinhos.


Dizem que foi o maior fluxo migratório em tempos de paz, o êxodo rural norte-paranaense retirou do Estado quase 2,5 milhões de pessoas na década de setenta e 1,6 milhão na década de 1980, segundo dados do IBGE. Não é surpresa, cidades da região perderem lugar no ranking das mais populosas da região Sul.


Talvez tenha sido a Geada Negra de 1975, o maior golpe da história na economia e na sociedade do Paraná, um acontecimento que precisa ser estudado, explicadas as suas conseqüências. Buscamos, tateando, ainda hoje uma nova identidade econômica. Pessoalmente acredito que a solução de nossa economia e a construção de nossa riqueza se encontra na terra, em novas culturas e atividades, com a industrialização derivando, também, dessas atividades.



quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sessenta Anos do Fim da Segunda Guerra Mundial

Publiquei esse texto no Jornal Folha de Londrina no 60º aniversario do fim da Segunda Guerra Mundial, em 2005. Como não irei publicar mais por uns tempos textos sobre a Revolução de 1930, até que possa terminar o livro preciso manter esse blog ativo. Como ficou um texto gostoso acho que vale a pena publicar novamente.
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Os Sessenta Anos do Dia da Vitória na Europa

Há sessenta anos, em 08 de Maio de 1945, oficialmente quando a Alemanha Nazista se rendia de maneira incondicional. Iniciada em 01 de Setembro de 1939, quando os nazistas invadiram a Polônia, a Segunda Guerra Mundial moldou o mundo como o conhecemos hoje.

Após seis anos de conflitos cerca de 60 milhões de pessoas perderam a vida, dentre os quais seis milhões de judeus nos campos de extermínios (um milhão e meio de crianças). O Holocausto dos judeus sempre permanecerá como a lembrança mais terrível deste conflito, dizem que sua lembrança poderá nunca ser apagada, pois ocorreu não nos grotões esquecidos e primitivos do mundo atrasado, mas sim na civilizada e requintada Alemanha.

O nazismo com a sua ameaça de destruição reuniu do mesmo lado os “liberais capitalistas” norte-americanos, os “imperialistas” ingleses e os “comunistas” soviéticos, estavam lado a lado, apesar de se repelirem mutuamente. Os Aliados representam a melhor prova daquilo que o ser humano é capaz quando se sente ameaçado em sua existência. Forjada da necessidade e do desespero surgiu a Vitória na Europa, e dela o mundo que viveu a Guerra Fria, que apesar das crises, assistiu a uma convivência entre Estados Unidos da América de um lado, e União das Republicas Socialistas de outro, conduzindo seus aliados.

Parece repugnante a idéia de que progressos foram obtidos com a Guerra, porem, os alicerces do mundo contemporâneo surgiram desse conflito. As idéias de ajuda humanitária entre as nações, o auxilio econômico internacional, os Fóruns Globais para discussão entre as nações dos mais diversos temas (da educação a condição feminina), a idéia de economia internacional e mercado global e o principal, a criação de tribunais internacionais para punir crimes de guerra.

Muitos avanços tecnológicos também puderam ser obtidos Destacamos: o Radar que hoje auxilia na aviação civil; a Penicilina, produzida em serie na guerra; o avião a jato, desenvolvido pelos alemães; a energia nuclear; o helicóptero; o computador, sem qual hoje nossa realidade seria no mínimo diferente e; o foguete. O Brasil conseguiu a construção e a tecnologia para a produção de aço necessária para operar a Usina Siderúrgica Nacional de Volta Redonda-RJ (CSN).

O ser humano é capaz de aprender, ou não, com seus erros. Hoje um conflito com as proporções da Segunda Guerra Mundial, seria bem mais difícil de acontecer, não impossível. Porém seus resultados seriam muito mais catastróficos. Esperamos que a lembrança daqueles sacrificados nos campos de batalha, nas câmaras de gás, nas águas do oceano, sirva para que possamos construir um mundo mais justo e mais perfeito.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Força Expedicionária Brasileira: de Santo Antonio da Platina para a Itália

O Senhor Nery Corrêa do Prado, de Santo Antonio da Platina lutou na Força Expedicionária Brasileira, um exemplo de cidadão do Norte Pioneiro que cumpriu seu dever. A Gazeta do Povo contou a sua história. Reportagem completa no site: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=760295&tit=O-professor-que-deu-uma-licao-nos-alemaes

Manutenção de Equipamentos Mecânicos Pelo Exercito Norte-Americano na Segunda Guerra Mundial

Escrevi este artigo há muito tempo atrás quando fazia a Especialização em Gestão Industrial, era o tempo ainda do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (CEFET-PR), atual Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Como ele é um artigo produzido para conclusão da disciplina de Gestão da Manutenção, ele possui alguns erros de concordancia e até mesmo de ortografia, mas não esta disponível em nenhum outro site e é um assunto bélico, de certa forma esse blog acaba falando sobre guerra. Enfim espero que o achem interessante.
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Manutenção: Diferencial de Sucesso do Exército Norte-Americano na Segunda Guerra Mundial *
Roberto Bondarik
Rui Francisco Martins Marçal

Resumo: O presente artigo demonstra a importância atribuída ao serviço de manutenção dos exércitos mecanizados, em especial ao do Exército dos Estados Unidos da América, durante a Segunda Guerra Mundial, como diferencial de seu sucesso em comparação com outras forças no mesmo conflito.
Palavras Chave: Manutenção; Treinamento; Segunda Guerra Mundial; História Contemporânea.

Introdução:

Desde que a Revolução Industrial teve seu início na Inglaterra do século XVIII, as máquinas tornaram-se uma presença constante no cotidiano da humanidade[1]. A identificação das suas necessidades, a elaboração e adequação do seu projeto, por fim a etapa de construção e aplicação de uma máquina ás necessidades humanas[2], sempre demandaram uma boa disponibilidade de capitais, tanto financeiro como humano.
Uma das causas e motivações que tornaram a Revolução Industrial uma realidade, foi justamente a considerável disponibilidade de capitais e recursos, existentes na Grã-Bretanha. Esta disponibilidade foi conseguida em virtude de diversos fatores, principalmente graças ao domínio britânico do comércio mundial[3] naqueles tempos. A construção do Império Britânico se deu em constante marcha ritmada pelo crescimento e ampliação deste comércio que foi se estendendo pelas mais distantes e diversas regiões do mundo.
Uma vez construída e instalada uma máquina, que normalmente possuiu um custo considerável, há que se colocar a mesma para trabalhar, produzindo bens ou serviços, recuperando desta maneira o capital investido. Devido a esta necessidade de recuperação dos investimentos e a maneira rápida que os industriais procuraram implementá-la, resultaram muitas das críticas à exploração a que os trabalhadores foram submetidos neste período. As interrupções e a diminuição no ritmo do funcionamento das máquinas, certamente representam seguramente prejuízos que precisam ser evitados, revertidos e recuperados.
O bom funcionamentos das máquinas e equipamentos de uma indústria depende da eficiência e da agilidade dos serviços de manutenção, serviços estes que devido a sua eficiência, poderão contribuir para com o sucesso ou para com o fracasso de uma organização. Sucesso ou fracasso, que em tempos atuais podem ser traduzidos em uma maior ou menor competitividade e esta em lucratividade, conjugada com a manutenção do nível e da qualidade da empregabilidade da empresa. Empregabilidade que podemos indicar como sendo de interesse primordial para os trabalhadores.
Não apenas as atividades produtivas civis dependem de um bom serviço de manutenção, as organizações militares também se acabaram por se inspirar no ambiente fabril, para a efetivação e dos seus diversos serviços, missões e estratégias. Procurar demonstrar como a manutenção foi importante às organizações militares, em especial àquelas que atuaram durante a Segunda Guerra Mundial, torna-se portanto, o objetivo deste breve trabalho, realizado com base em uma pesquisa bibliográfica e eletrônica, que pretende apenas apresentar-se como uma reflexão de caráter histórico, sem maiores preocupações descritivas ou mesmo técnicas. Procuraremos apresentar a manutenção militar como um paradigma para a ação das empresas contemporâneas.

Os Serviços de Manutenção no Exercito Norte-Americano:

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)[4], que foi considerada o maior conflito bélico internacional de toda a hsitória da humanidade, o Exército dos Estados Unidos da América, cuja dependência e a utilização de equipamentos mecânicos foi enorme, sendo que, podemos defini-lo como um exército praticamente mecanizado em sua totalidade. O Exercito Norte-americano teve apontado como um dos seus muitos diferenciais de sucesso, além da disponibilidade quase que ilimitada de recursos materiais, equipamentos e pessoal, a implantação de um sistema de manutenção que foi considerado extremamente ágil, competente e eficaz.

Os norte-americanos utilizavam como o seu principal veículo blindado de combate, os tanques Sherman, de fabricados pelos próprios Estados Unidos. O Tanque Sherman era considerado bastante ágil e rápido, para poder manter estas que eram suas qualidades ele era também muito mais leve e frágil diante dos grandes e pesados tanques alemães, como o Tigre. O Alto Comando dos Estados Unidos, resolveu utiliza-los, principalmente porque em primeiro lugar eles conseguiam produzi-los em grande número e quantidade; em segundo lugar as dimensões do Sherman facilitavam o transporte ultramarino entre a América do Norte e a Europa[5]. Além do mais, o Sherman poderia ser facilmente consertado e recuperado em caso de avarias. (AMBROSE: 2002, p 58).

Sobre este assunto utilizamos como principal base de referência para a nossa reflexão a obra “Soldados Cidadão: do desembarque do Exercito Americano nas praias da Normandia, à Batalha das Ardenas e à rendição da Alemanha ”, escrita pelo norte-americano Stephen E. Ambrose, que relatou a história da Segunda Guerra Mundial vista pela perspectiva dos soldados e sub-oficiais[6]. Ambrose procurou destacar a extrema rapidez e eficiência com que os reparos eram feitos nos veículos danificados, quer seja por combates, quer seja pelas dificuldades apresentadas pelo terreno, ou ainda por defeitos mecânicos que eram considerados e classificados como comuns ou rotineiros:

"(...) Os (norte) americanos eram também infinitamente melhores na recuperação e no conserto dos tanques danificados, para fazer que voltassem a entrar em operação; os alemães não tinham nada que se assemelhasse aos batalhões de manutenção dos americanos (...)” (Idem, p.71)

Devido ao potencial produtivo de seu enorme parque industrial automobilístico, que originalmente destinado a produção de bens para uso civil, havia sido rapidamente convertido para a produção indústrial bélica. Os norte americanos supriram o seu Exercito, Marinha e a Força Aérea e também as forças dos seus muitos aliados[7], com um sortimento considerável de armas e veículos:

"(...) Pelo fím de 1944, a indústria alemã produziria 24.630 tanques (...) a produção britânica desse tipo de veículos, chegaria a 24.843. Mas os americanos entregariam aos militares, por essa época, o espantoso número de 88.410 blindados (...)” (Ibidem)

Apesar de sua superioridade no campo da produção, os americanos tinham a necessidade de transportar os seus equipamentos e suprimentos por todo o Atlântico, em uma viagem que era considerada muito arriscada, até que por fim chegassem aos campos de batalha na Europa, ou como chamavam no jargão militar, TOGE[8]. Apesar de eficaz, a reposição desses equipamentos avariados possuia um custo bastante elevado, fatorres estes que tornavam a ação dos batalhões de manutenção extremamente necessária, essencial e imperiosa.
Uma grande responsabilidade pelo suprimento e pela reposição de materiais estava centrada, portanto, nos serviços de manutenção das forças norte-americanas. Cabia aos mecânicos e engenheiros além da manutenção dos equipamentos, garantindo então o seu funcionamento, a manutenção na prática do poderio e da supremacia material do próprio exército. Os componentes destas unidades, especialmente convocados e selecionados demonstravam toda a sua competência e habilidade, aprendida nas atividades e organizações industriais e também nas áreas de prestação de serviços:

"(...) Aliás nenhum exercito do mundo tinha essa competência. Dois dias depois de terem sido postos fora de combate por bombas alemãs, por volta da metade dos Shermans[9] danificados era reparada pelos batalhões de manutenção e voltava para a linha de frente. Jovens que tinham trabalhado em postos de gasolina e oficinas mecânicas dois anos antes haviam trazido suas habilidades de mecânica para a Normandia, onde substituíram lagartas de tanques danificadas, soldaram placas de blindagem em tanques perfurados e consertaram motores. Mesmo sem condições de conserto, os blindados eram rebocados pelo s americanos para os galpões de manutenção, a fim de que se lhes aproveitassem as peças. Os alemães simplesmente abandonavam os seus, donde, por motivos os mais dispares, não podiam sair por si mesmos(...)". (Ibidem).

Os aliados dos norte americanos, não dispunham porém, de toda a organização destes, sendo que acabaram por reduzir um pouco daquilo o que poderiam ter conseguido com a utilização em combate de suas forças motorizadas na totalidade. Os soviéticos apresentam-se como um exemplo disso, freqüentemente abandonavam os seus veículos danificados e os substituíam por um novo:

"(...) O Exército Vermelho[10], tinha os seus próprios tanques, os T-34 (de concepção norte-americana e talvez o melhor tanque da guerra). Ele (o Exército Vermelho) precisava era de caminhões. O programa de empréstimos e arrendamento do governo americano forneceu-lhes milhares de caminhões Studebaker (...) quando as velas de ignição entupiam, o que, de fato, ocorria rapidamente nas estradas de terra, os soviéticos simplesmente abandonavam os caminhões (...)". (Ibidem).

O exemplo das velas nos é bastante elucidador e conclusivo, ao se compararmos o planejamento de ação e até mesmo do espírito de improviso e empreendimento destes dois exércitos: Vermelho e Norte-Americano.

“(...) as guarnições de manutenção das divisões americanas eram compostas por homens que trabalhavam dia e noite limpando velas com jatos de areia. Quando se lhes esgotava o meterial usado nessas limpezas, enviavam homensàs praias para colher mais. A Areia tinha então de ser secada e peneirada antes de poder ser usada, mas lhes servia
Todo esse trabalho era feito como se o pessoal estivesse nos Estados Unidos, consertando carros e caminhões – ou seja, os homens no pisoda oficina tomavam suas próprias decisões, pegavam as ferramentas e iam cuidar do seu trabalho (...)". (Ibidem).

Conclusões:

Pode se concluir que a rapidez e eficácia dos serviços de manutenção do Exercito dos Estados Unidos foi um fator decisivo para a construção e a sustentabilidade de seu poderio, resultante na vitória sobre a Alemanha em 08 de Maio de 1945. Cabe ressaltar ainda, que existem poucos trabalhos a respeito de tais serviços e de sua importância, sendo o seu estudo ainda um fertil campo para a atuação de futuros pesquisadores.
Um paralelo pode e deve ser traçado entre as ações que descrevemos e a atuação das empresas na atualidade, um eficaz serviço de manutenção pode reduzir consideravelmente a possibilidades de ficarmos a mercê dos inimigos, uma metáfora bastante agressiva, mas necessária para compreendermos o atual nível de competitividade que tem sido incutido ao mercado e nele detectado.
Bibliografia:

KOSHIBA, Luiz. História: origens, estruturas e processos. São Paulo: Atual, 2000
HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
CHURCHIL, Winston S.; Memórias da Segunda Guerra Mundial. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995;
AMBROSE, Stephen E. Soldados Cidadãos: do desembarque do Exercito Americano nas praias da Normandia, à Batalha das Ardenas e à rendição da Alemanha. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002;

* Artigo produzido, como exigência parcial de conclusão da Disciplina de Gestão da Manutenção, ministrada no Curso de Especialização em Gestão Industrial (I ESPGI). do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, Unidade de Cornélio Procópio.
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[1] A substituição das ferramentas pelas máquinas, da energia humana pela energia motriz e do modo de produção doméstico pelo sistema fabril constituiu a Revolução Industrial; revolução, em função do enorme impacto sobre a estrutura da sociedade, num processo de transformação acompanhado por notável evolução tecnológica.
A Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e encerrou a transição entre feudalismo e capitalismo, a fase de acumulação primitiva de capitais e de preponderância do capital mercantil sobre a produção. Completou ainda o movimento da revolução burguesa iniciada na Inglaterra no século XVII. (KOSHIBA, Luiz. História: origens, estruturas e processos. São Paulo: Atual, 2000);

[2] Mecanização da Produção: As invenções não resultam de atos individuais ou do acaso, mas de problemas concretos coloca­dos para homens práticos. O invento atende à necessidade social de um momento; do contrário, nasce morto. Da Vinci imaginou a máquina a vapor no século XVI, mas ela só teve aplicação no ,século XVIII.
Para alguns historiadores, a Revolução Industrial começa em 1733 com a invenção da lançadeira volante, por John Kay. O instrumento, adaptado aos teares manuais, aumentou a capacidade de tecer; até ali, o tecelão só podia fazer um tecido da largura de seus braços. A invenção provocou desequilíbrio, pois começa­ram a faltar fios, produzidos na roca. Em 1767, James Hargreaves inventou a spinning jenny, que permitia ao artesão fiar de uma só vez até oitenta fios, mas eram finos e quebradiços. A water frame de Richard Arkwright, movida a água, era econômica mas produzia fios grossos. Em 1779, S Samuel Crompton combinou as duas máquinas numa só, a mule, conseguindo fios finos e resistentes. Mas agora sobravam fios, desequilíbrio corrigido em 1785, quando Edmond Cartwright inventou o tear mecânico.
Cada problema surgido exigia nova invenção. Para mover o tear mecânico, era necessária uma energia motriz mais constante que a hidráulica, à base de rodas d’água. James Watt, aperfeiçoando a máquina a vapor, chegou à máquina de movi­mento duplo, com biela e manivela, que transformava o movimento linear do pistão em movimento circular, adaptando-se ao tear. (KOSHIBA: op. cit. p

[3] Os capitais também vinham do tráfico de escravos e do comércio com metrópoles colonialistas, como Portugal. Provavelmente, metade do ouro brasileiro acabou no Banco da Inglaterra e financiou estradas, portos, canais. A disponibilidade de capital, associada a um sistema bancário eficiente, com mais de quatrocentos bancos em 1790, explica a baixa taxa de juros; isto é, havia dinheiro barato para os empresários. (KOSHIBA: op.cit)

[4] A Guerra iniciou-se 1° de setembro de 1939, quando as tropas nazistas invadiram a Polônia, utilizando-se das ofensivas - relâmpago (blitzkrieg), com aviões Stuka da Luftwaffe e tanques blindados, que, em menos de um mês derrotaram as forças polonesas.
A invasão alemã pretendia retomar o “corredor polonês” e o porto de Dantizg, considerado estratégico e um direito alemão. Interessava também à Alemanha a região da Alta Silésia, com importantes reservas carboníferas
Seguindo a política anglo-francesa, a polônia havia retardado a mobilização de suas tropas. Embora na semana precedente ao ataque alemão tivessem tomado as medidas preliminares, elas não foram suficientes para garantir a resistência. a eficácia do ataque aéreo alemão foi devastadora e total. O bombardeio das estradas de ferro da Polônia desorganizou completamente os transportes e comunicações e tornou difícil a coordenação. Os ataques às bases aéreas polonesas, eliminaram qualquer possibilidade de reação por ar.
Em 17 de setembro o país também foi invadido pela URSS. As tropas poloneses foram massacradas pelos dois exércitos, que dividiram o país em dois, conforme já definido no pacto assinado em agosto. (www.historianet.com.br);
A Guerra Alemã durou de 1° de setembro de 1939, quando os exércitos de Hitler invadiram a Polônia, até 8 de maio de 1945, quando eles se renderam. Na verdade, ela foi uma continuação da "Guerra do Kaiser" de 1914-1918: foi a segunda tentativa alemã de alcançar suas aspirações nacionais - a hegemonia da Europa e, talvez, posteriormente do mundo.
A Guerra Japonesa durou de 7 de dezembro de 1941 (data do ataque contra Pearl Harbor) até a rendição em 15 de agosto de 1945, apesar de que a assinatura oficial tenha sido feita a 2 de setembro, no couraçado Missouri. Sua meta consistia simplesmente em estabelecer o domínio japonês no Extremo Oriente. (http://adluna.sites.uol.com.br)

[5] Um exemplo clássico de um produto que tem o seu projeto desenvolvido ou continuado tendo-se levado em conta os meios de transporte disponíveis. (N.A.)

[6] AMBROSE, Stephen E. Soldados Cidadãos: do desembarque do Exercito Americano nas praias da Normandia, à Batalha das Ardenas e à rendição da Alemanha. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002;

[7] Entre os diversos países aliados dos Estados Unidos da América que receberam equipamentos, armas e munições destes, destacam-se: URSS, Inglaterra, Brasil, França Livre, China e vários outros. (N.A.);

[8] TOGE: sigla que significa – Teatro de Operações de Guerra Europeu;

[10] Exercito regular da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

PONTE “ALVES DE LIMA” E A REVOLUÇÃO DE 1930 NO NORTE PIONEIRO DO ESTADO DO PARANÁ

Prof. Ms. Roberto Bondarik*

bondarik@utfpr.edu.br


A Ponte “Alves de Lima”, ligação rodoviária entre as localidades de Ribeirão Claro, no Estado do Paraná, e Chavantes, no Estado de São Paulo, foi construída na década de 1920 com objetivo de escoar a produção de café do Norte do Paraná. Os estudos visando s a sua construção foram realizados em 1918, conforme histórico do Município de Chavantes-SP, publicado pelo IBGE:

1918 - São feitos os estudos para a construção da Ponte "Alves Lima" - PONTE PÊNSIL DE CHAVANTES". (IBGE, 2008)[1]

Outra referência a esta obra, encontra-se na Mensagem do Presidente do Estado do Paraná ao Poder Legislativo, em 1920[2]. Há neste documento o comunicado do Presidente Dr. Affonso Alves de Camargo referente a esta construção e o acordo feito entre os Estados do Paraná e de São Paulo, referente ao financiamento e autorização da condução da obra.


Attendendo[3] ao auxilio pedido por vários moradores dos Municípios de Jacarésinho e Ribeirão Claro, o Governo autorizou a construcção de uma ponte pencil de 77m10 de vão livre sobre o Rio Paranapanema no Porto Emygdão, na estrada de Ribeirão Claro a Chavantes. Para a execução desse melhoramento cujos serviços estão em andamento, o Paraná concorrerá com 50:000$000 [cinqüenta contos de réis] e São Paulo com 40:000$000 [quarenta contos de réis], correndo o resto das despesas por conta dos demais interessados (MENSAGEM PRESIDENCIAL DO ESTADO DO PARANÁ 1920, p.59)

Confirma-se portanto o início da construção da Ponte Alves de Camargo no ano de 1919, uma vez que a mensagem referida foi apresentada em 1920. A construção foi conduzida pelos dois governos estaduais mais a iniciativa privada, formada por fazendeiros do Município de Ribeirão Claro.

A mensagem presidencial de 1921, apresentado pelo Presidente do Estado do Paraná, Dr. Caetano Munhoz da Rocha, apresenta os valores totais do orçamento da construção desta ponte, que se encontrava em andamento. O valor total da obra estava orçado em 103:270$000 (cento e três contos, duzentos e setenta mil réis), como relatado pelo Presidente:


Em execução: Ponte pênsil sobre o Rio Paranapanema na estrada de Ribeirão Claro a Chavantes, auxilio á Comissão constructora 50:000$000 [cinqüenta contos de réis]. O Estado de São Paulo contribue também com 40:000$000 [quarenta contos de réis] para essa construcção que esta orçada em 103:270$000 [cento e três contos, duzentos e setenta mil réis], cabendo aos fazendeiros do município de Ribeirão Claro, o pagamento da quantia restante de 13:270$000. (MENSAGEM PRESIDENCIAL DO ESTADO DO PARANÁ 1921, p.55)

A mensagem apresenta ainda os valores pagos e a pagar até aquele momento (1921):

Valor total dos serviços 77:760$013

Importância paga 27:760$013

----------------

Saldo a pagar 50:000$000

(MENSAGEM PRESIDENCIAL DO ESTADO DO PARANÁ 1921, p.55)

Com a sua conclusão e uso, a Ponte “Alves Lima” tornou-se um importante elo de ligação entre o Norte do Paraná e o Estado de São Paulo, permitindo o escoamento da produção agrícola da região e o fluxo crescente de pessoas. Devido a sua importância logística, a ponte foi alvo de especial atenção durante a Revolução de 1924 em São Paulo e principalmente na Revolução de 1930, que alçou Getúlio Vargas ao poder.

Após a eclosão da Revolução de 1930 no Rio Grande do Sul e a conseqüente adesão das forças militares federais e estaduais no Estado do Paraná, o Governo Federal e do Estado de São Paulo deslocaram forças para esta região. Devido à importância do Norte Pioneiro do Paraná, forças militares vindas diretamente do Rio Grande do Sul trataram também de assegurar o seu controle.

Tropas legalistas (paulistas) e revolucionarias se enfrentaram em Quatiguá-Pr, nos dias 12 e 13 de Outubro de 1930. Derrotados os paulistas se retiram em direção ao Estado de São Paulo.

O inimigo tenta então fazzer uma retirada em ordem, a qual não pode ser levada a effeito, como pretendia o adversário, em virtude da acção immediata da nossa infantaria que, apoiada pela artilharia e pelos fogos da companhia de metralhadoras pesadas desarticulou logo as suas linhas, rompendo-as com tal impetuosidade que o adversário desorganisado empreende uma fuga desastrosa. (VÉRAS, 1933, p. 00)

Ana Godoy[4] relata que seu pai, no dia 13 de outubro, logo após o fim do combate em Quatiguá, recebeu em sua casa um oficial paulista que lhe relatou que haviam sido derrotados, o comandante da coluna legalista havia dado a ordem de debandar e fugir em direção ao Estado de São Paulo. O próprio Coronel Alcides Etchegoyen, comandante do Destacamento Revolucionário, citado por Véras (1933), menciona a fuga das forças legalistas em direção às divisas de São Paulo e a suposta segurança nas margens paulistas dos rios Itararé e Paranapanema. A destruição das pontes que ficavam pelo caminho demonstram o quanto o combate deve ter sido traumatizante e também apontam que as forças legais não se encontravam preparadas para dar combate às tropas regulares e profissionais como as que se deslocavam a partir do Rio Grande do Sul e agora se espraiavam pelo Norte Pioneiro do Paraná.

No relatório sobre a sua columna dia o bravo coronel Etchegoyen, referindo-se a fuga do adversário: “O seu dispositivo esfrangalhou-se, o pânico se manifestou em suas fileiras, veiu a desordem e a confusão. A ninguém mais seria dado conter aquella tropa cheia de terror, cujo pensamento único era fugir e cuja fuga era cortada pelo fogo das nossas metralhadoras pesadas que a fusilava em massa. As populações das cidades e villas, ao longo da via férrea Quatiguá-Jacaresinho, são testemunhas do estado de desmantello e desmoralisação das tropas adversárias em fuga, as quaes tomadas de pavor e viajando em caminhões incendiavam, com auxilio de gazolina, as pontes e pontilhões ao longo da estrada, afim de evitar a perseguição de nossa tropa e destruindo a dinamite de uma maneira bárbara as pontes lançadas sobre o Paranapanema e incendiando todas as balsas, botes e canoas existentes nos diversos passos daquele rio, abandonando em definitivo naquella região, o Estado do Paraná.” (VÉRAS, 1933)

Desta forma destruíram a forças paulistas e federais, leais ainda ao Presidente da República, Washington Luiz, a ponte ferroviária em frente à Ourinhos-SP e Jacarezinho-PR, e a ponte pênsil rodoviária (Alves de Lima) defronte a Chavantes-SP e Ribeirão Claro-Pr. O Jornal a Gazeta do Povo publicou um relato de um morador de Jacarezinho, para quem a retirada das forças paulistas e do Governo Federal do Norte do Paraná teria se constituído em uma verdadeira fuga. O relato de Candido Berttrer, foi publicado no dia 24 de Outubro de 1930.

O sr. Cândido Berttrer Fortes, fazendeiro e commerciante em Jacarezinho, é um velho amigo da GAZETA DO POVO, e um dos nossos muitos assignantes naquella região.

Testemunha dos últimos acontecimentos desenrolados em Jacarezinho, o sr. Cândido Fortes, veio a nossa reducção, afim de narrar pormenorisadamente, para os leitores da GAZETA DO POVO, tudo quanto se passou, naquella localidade, nestes últimos dias.

Disse-nos que na madrugada de 12 para 13 do corrente[5], as forças paulistas, que haviam dado combate em Quatiguá, sob o commando dos coronéis Sandoval e Agnello passaram por Jacarezinho, em verdadeira debandada, apavorados com a perseguição de tropas revolucionárias.

As forças governistas – disse-nos o nosso informante – entraram pelas ruas de Jacarezinho, trazendo cada soldado, na ponta do fuzil uma bandeira branca. Chegaram completamente desmoralizados, dizendo que haviam combatido durante 15 horas.

Qual era o efectivo dessa tropa?

Mais ou menos, mil e duzentos homens – respondeu-nos o sr. Candido Fortes.

No dia 14 – continuou nosso entrevistado – as tropas governistas começaram a abandonar a cidade. Nessa retirada commeteram uma série enorme de depredações, causando innumeros damnos à cidade. Incendiaram duas pontes do Ribeirão “Fartura”. Mais adeante, na ponte “Mello Peixoto”, sobre o rio Paranapanema, deitaram grande quantidade de gazolina, incendiando-a também. A ponte metallica da E. de ferro S. Paulo-Paraná também foi bastante dannificada. Dynamitaram os pilares que ficam em território paulista, destruindo grande parte da linda ponte. (GAZETA DO POVO, 24 de Outubro de 1930, p.01)[6]

A destruição da ponte pênsil provocou inúmeros problemas aos habitantes do Norte do Paraná, pois o transporte rodoviário ficava desta forma interronpido, sendo feito por balsas. Em dezembro de 1930, a Gazeta do Povo publicou noticia de sua sucursal em Jacarezinho, referente a acidente com um caminhão transportado por balsa no Rio Paranapanema, que cheio devido a chuvas torrenciais apresentava perigoso à navegação e travessia. Comenta-se também a sobre os autores da destruição da ponte:

Ainda não fizemos nesta sessão nenhum commentário sobre a covardia das forças que se intitulavam legalistas e que tiveram a desfaçatez de incendiar a Ponte da Estrada de Rodagem sobre o Rio Paranapanema, que nos ligava a praça de Ourinhos, de onde recebe o nosso comercio a maioria de suas mercadorias.

Covardes e asquerosos esses assalariados tiveram ainda o desplante de fazer ruir a parte paulista da ponte da Estrada de Ferro sobre o mesmo rio.

Resultado desse crime, estamos soffrendo nós agora, pois ficamos sem ponte para a passagem de automóveis, sujeitando-nos a perigosa travessia em balsas.

Ultimamente com as chuvas torrenciais que tem cahido, o leito do rio Paranapanema esta muito cheio e caudaloso, apresentando um grave perigo a sua travessia em balsa como se vem fazendo.

No sábado ultimo, 20 do corrente, um caminhão da firma Eduardo Salgueiro, de Cambará, carregado de mercadorias, tombou da balsa e afundou no rio, numa profundidade de 8 metros.

O chauffeur depois de ter cahido juntamente com o vehiculo, conseguiu submergir.

O caminhão trazia 2 tambores de gazolina que já foram salvos, perdendo-se o restante das mercadorias, inclusive 500 saccos vasios. (GAZETA DO POVO, 28 de Dezembro de 1930, p.08)[7]

Os prefeitos da região, inclusive de Ourinhos, procuravam os governos de seus Estados para conseguir a reconstrução das pontes destruídas.



* Professor e Pesquisador. Mestre em Engenharia de Produção, Especialista em História e em Gestão Industrial, Graduado em História e Geografia. Docente da Universidade Tecnológica Federal do Paraná e Secretaria de Estado da Educação do Paraná.

[1] Disponível em <> Acesso em 15 de Janeiro de 2008;

[2]Mensagem Dirigida ao Congresso Legislativo do Estado pelo Dr. Affonso Alves de Camargo, Presidente do Estado do Paraná, em 1º de Fevereiro de 1920, p.59;

[3] Foram mantidas em todas as citações a ortografia original da época;

[4] Entrevista não gravada com o autor em 08 de setembro de 2007, em sua residência em Quatiguá-Pr;

[5] È possível que um equivoco de datas tenha ocorrido quando da publicação ou da referência dada por Cândido Berttrer. A data correta deve ser a madrugado dos dias 13 para 14 de outubro. A derrota da força legalista em Quatiguá ocorreu na manhã do dia 13 de outubro de 1930. (Nota do Autor);

[6] A DEBANDADA DAS FORÇAS PAULISTAS E SUA PASSAGEM POR JACAREZINHO. Dia 24 de Outubro de 1930 – Nº 4.179 – Ano XI – p.01;

[7] DESASTRE NO RIO PARANAPANEMA. Dia 28 de Dezembro de 1930 – Nº 4.245 – Ano XI – p.08;

domingo, 4 de novembro de 2007

Parei um pouco com a pesquisa ...

Pois bem! Devido a muitas tarefas, o PDE e a conclusão do curso de mestrado, não posso postar informações novas. Na verdade parei com a pesquisa desde setembro. Prtendo terminar a dissertação até semana que vem ... defendo em dezembro e ano que vem vou fuçar em arquivos no Rio Grande do Sul e quando der em São Paulo.

2008 será importante, é minha intenção publicar nem que seja um livreto sobre o Combate em Quatiguá. A data para isso é 26 de outubro de 2008.

Bem tem um lugar, segundo Dante, bem quentinho que esta cheio de gente ou ex-gente com boas intenções.

Até depois do mestrado.

sábado, 15 de setembro de 2007

ATENÇÃO - OPINIÕES SOBRE O BLOG!!!!!!!

Se vc esta lendo o blog HISTÓRIA E INFORMAÇÃO (...), e gostou ou não gostou do que leu, deixe sua opinião no final de cada post. Se puder mais ainda, envie um comentário ou depoimento sobre a Revolução de 1930 em Quatiguá ou no Norte Pioneiro para o e-mail: bondarik@utfpr.edu.br , sua opinião será de grande valia e auxilio para que possamos melhorar mais este espaço. Visite também e participe da comunidade "REVOLUÇÃO DE 1930 EM QUATIGUÁ", postando comentários, informações e dúvidas, no seguinte endereço no Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=18171968 espero que seja útil.

Atenciosamente:

Professor Roberto Bondarik

Cornélio Procópio, aos Quinze Dias do Mês de Setembro de Dois Mil e Sete

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

TERRA DOCE DE QUATIGUÁ

Este texto foi publicado no jornal "O Estado do Paraná", um jornal curitibano portanto, no dia 09 de setembro de 2007. Escrito por Dante Mendonça, diz o autor que não é nascido em Quatiguá, nem por ai viveu, mas que sua historia lhe foi contada por um amigo quatiguaense. Achei interessante reproduzi-la aqui. Quem desejar ler no original pode entrar no endereço http://www.parana-online.com.br/noticias/index.php?op=ver&ano=temp&id=303704&caderno=3 porém deverá se cadastrar para poder ver.
Bem ai vai uma doce história de Quatiguá:
Terra doce de Quatiguá
Dante Mendonça [09/09/2007]

Quatiguá, pequena cidade de 8 mil habitantes do Norte Pioneiro do Paraná, é uma terra doce. Assim esperam os degustadores do bom café ao redor do mundo. Em busca de raras rubiáceas, importadores de finos grãos constataram que a região produz um tipo especial de café, com característica única: o sabor - digamos para o leigo - adocicado.
Sonhar com a recuperação econômica do Norte Pioneiro é preciso, mesmo sendo de gosto acre a estagnação que há tantos anos vem abatendo as esperanças das novas gerações. Sonhar é preciso, recordar também é preciso. Especialmente se as recordações trazem bons humores ao espírito, com histórias como a protagonizada pelo médico Delcino Tavares, ex-secretário da Saúde do governo Alvaro Dias e ainda hoje residente em Quatiguá.
Nunca foram diagnosticadas as causas da implicância do farmacêutico Miguelão com o homem que cuidava da saúde de todos os paranaenses. Com chuva ou sol, Dr. Delcino saía do consultório e fazia o caminho de casa, passando em frente à farmácia do Miguelão. Era um trajeto pontual, que o farmacêutico usava como relógio. Passava Delcino, cinco minutos depois Miguelão cerrava a porta de aço do estabelecimento.
Até que certa feita Miguelão esqueceu de juntar uma caixa vazia de Sadol na calçada em frente. Mais pontual que representante farmacêutico, Dr. Delcino passou na calçada e -pimba! - chutou a caixa de papelão, que foi cair no meio da rua.
No dia seguinte, no mesmo horário e mesmo local, Miguelão ajeitou outra bola para o Delcino chutar. Desta vez era uma caixa de óleo de fígado de bacalhau. Dr. Delcino, mais pontual que horário de missa -pimba! - a caixa de Emulsão Scott voou longe.
E assim passaram-se os dias em Quatiguá: num dia, Dr. Delcino chutava uma caixa vazia de Melhoral, outro dia de Sonrisal, se não fosse uma caixa de Sal de Fruta Eno ou Pomada Minâncora. Os chutes certeiros de Dr. Delcino estavam famosos na praça - os sorrateiros marcavam encontro pra assistir ao goleador -quando o farmacêutico Miguelão resolveu encerrar o cotejo, com três tijolos dentro de uma caixa de Vic Vaporub.
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” - Carlos Drummond de Andrade é o poeta mais lembrado de Quatiguá.
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Quando o prefeito Epifânio Mocelin lançou o nome de Lourival Gouveia para a sucessão, tinha certa dúvida quanto à performance do candidato. Lourival bem que gostava da política, mas tremia feito vara verde quando precisava subir no palanque para discursar. Palanque era modo de dizer, no Norte Pioneiro não se fazia comício sem carroceria de caminhão.
No comício final, não houve jeito e maneira de fazer Lourival Gouveia subir na carroceria de um Scania-Vabis, mesmo com o Epifânio empurrando.
- Sobe, Gouveia! Sobe e fala do ‘pogresso’ de Quatiguá!
Tropicando, subiu enfim Lourival Gouveia no Scania-Vabis, não sem antes concordar com o argumento final de Epifânio: uma garrafa de Tatuzinho.
- Povo umirde e bão de Quatiguá! Antes do Epifânio, nessa cidade não passava nem carroça! Hoje passa até avião! -encerrou Gouveia, apontando pro céu!
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Epifânio, por sua vez, foi eleito prefeito graças aos discursos inflamados do ex-deputado Santinho Furtado, falecido líder político do Norte Velho.
Na carroceria do Scania-Vabis, Santinho era um poeta:
- Quatiguá, é PMDB com três pês! P de Povo! P de PMDB! P de Pifânio!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

FOLHA DE LONDRINA - REPORTAGEM DE 1984 SOBRE O COMBATE DE OUTUBRO DE 1930 EM QUATIGUÁ

Este texto que torno disponível agora, foi publicado em 1984 pelo Jornal Folha de Londrina, nos mesmos dias em que a TV Coroados divulgou uma reportagem feita aqui sobre o mesmo tema. Se não me falha a memória, a Folha publicou na sexta-feira e a Tv Coroados em um Jornal Estadual Especial de Sábado, ou seja no dia seguinte. Ambos os documentos são tratados como verdadeiras relíquias por quem os possui e foram por muito tempo os únicos testemunhos materializados, a única produção além da tradição oral sobre os Combates de 1930 em Quatiguá. Consegui as cópias que possuo dos jornais, há também outra reportagem de 1991, com o Panga (Adailton Ribas Lopes) que é também um interessado e preocupado com a preservação da memória não somente da Revolução de 1930 em Quatiguá, mas do restante da memória e história da cidade. Um dia deveriamos pegar todas as fitas de vídeo que ele possui, são muitas e de diversas épocas e eventos do município, e passar para DVD, prestariamos um grande serviço a nossa história. Aproveitem o texto:


REPORTAGEM FOLHA DE LONDRINA

Caderno 2 – Sexta-feira, 06/04/84 pág. 24

PAULISTAS E GAÚCHOS LUTARAM EM QUATIGUÁ

“A política do café com leite”, que impunha o revezamento de paulistas e gaúchos na presidência da República, foi definitivamente rompida pela Revolução de 30, que abriu espaço para o Rio Grande do Sul, diminuindo a influência da oligarquia cafeeira, que, incólume, desfrutava do poder. Neste contexto, uma revolução de fato passou pelo pequena Quatiguá, no Norte Pioneiro, tendo ali ocorrido luta armada entre gaúchos e paulistas, cujos mortos, indistintamente, a comunidade glorifica num monumento em praça publica.

O choque armado, sequer é mencionado no resumido histórico do município (população de 5.315 dos quais 3.990 eleitores) antigos moradores contam que “a coisa foi feia” e a população fugiu para as matas próximas ao patrimônio, deixando as casas comerciais à mercê dos revoltosos (gaúchos), que “requisitaram” até uma boiada de Pedro Gonçalves Lopes, a quem obrigaram a usar um lenço vermelho e dar vivas a Getúlio Vargas. Para deter as tropas gaúchas, em superioridade, o prefeito de Joaquim Távora e um líder dos paulistas mandaram arrancar trilhos nos diversos pontos do ramal ferroviário entre Quatiguá e a divisa com São Paulo.

“A REVOLUÇÃO FOI SÓ MEDO”
Aos 8l anos de idade e muito conhecido por Jorge Luna, uma das testemunhas oculares da refrega é Jorge Barbosa Lima, que chegou à “praça”(ele não diz “cidade”) em 13 de junho de 1928 e dela não se retirou quando chegaram as tropas gaúchas em 1930. Mesmo tendo consciência de mortos e feridos. (...) Os paulistas, “defendendo o Sr. Washington Luiz”, eram os “liberais” ou “legalistas” , as tropas gaúchas. Marchando com Getúlio Vargas, eram a dos “revoltosos”, que apontaram no morro sudeste de Quatiguá, procedentes da região de Ponta Grassa, “Era um batalhão do coronel Cavalcanti, mais ou menos uns quatrocentos homens, uma força mista de voluntários” – vai recordando Jorge Luna. Inferiorizados em número, “uma força de uns duzentos e poucos homens, bate-paus do doutor Ataliba Leonel e uma rapaziada que fazia o serviço militar em Iquitaúna, perto da capital”, os paulistas apareceram no lado oposto da cidade, a noroeste, procedentes de Piraju e Fartura.
Depoimentos de vários moradores antigos estabelecem o consenso de que os Gaúchos começaram a disparar o canhão de 75 ou 100 mm) do alto do morro, enquanto os paulistas assestavam metralhadoras sobre a cobertura da estação ferroviária. Os gaúchos avançaram gradativamente, até obrigarem os paulistas a baterem em retirada. Os gaúchos se deslocaram a cavalo, os paulistas em caminhões e – segundo alguns depoimentos – trem.
Segundo Jorge Luna, “os paulistas chegaram à estação, derrubaram postes e arrancaram o telegrafo. O telegrafista era o Raul Bittencourt, imparcial sem ser favorável a ninguém” mas para assustá-lo os paulistas dispararam contra duas locomotivas chamadas “Maria-fumaça”. (...) Houve muitos mortos e feridos de ambos os lados, que chegaram a entrar em choque num ponto hoje dentro do perímetro urbano. “Foi na Serraria do José Volpato e do João Lucas, duas casas inacabadas foram transformadas em hospitais de sangue” – recorda Jorge Luna.

O POVO CORREU PARA O MATO
A Revolução de 30 começou no dia 3 de outubro, calculando Jorge Luna que as tropas permaneceram cinco dias em Quatiguá e que os choques se verificaram entre os dias 11 e 13. Porém, a população começou a se retirar do patrimônio ao perceber a chegada dos gaúchos/ dos quatro ou cinco comerciantes, apenas dois permaneceram, José Simeão Rodrigues (avô do atual Secretário da Indústria e Comércio do Paraná, Francisco Simeão) e Silvio Zanini, “os demais se retiraram para os sítios e fazendas”.
Porém, aqueles que permaneceram em suas casas não foram molestados por qualquer das tropas, conquanto as “requisições” nas casas comerciais, principalmente as abandonadas, fossem feitas a grosso. Naquele tempo. Quatiguá (o nome do município é corruptela do “cuatingua”, um vegetal outrora abundante na região e que apenas um patrimônio dividido em duas zonas, uma conhecida por Barra Grande e outra por Chapada. O atual município de Joaquim Távora (a sede fica a oito quilômetros de Quatiguá) tinha o nome de Afonso Camargo (um dos presidentes do Paraná, relata Isidoro Mocelim, hoje com 72 anos de idade.
Contemporânea, Dna. Conceição Eliziaria Teixeira Godoy, de 77 anos, recorda o patrimônio, umas trintas casas, só quatro comerciais. Morava no sítio a quatro quilômetros, vizinho a Mocelin, “a linha férrea ficava entremeio às nossas propriedades”. Se recordam, ambos, de ter aparecido lá um oficial paulista avisando: “É preciso se retirar de vossas casas, vai haver combate por aqui.” Mocelim conta que “aí, tocamos um pouco de mudança sobre o caminhão e seguimos para a “bica”. Logo começou uma tempestade de tiros e nossa casa foi baleada”.
Também Conceição e a família batiam em retirada, rumando para um abrigo natural, debaixo de uma grande parede de pedra. Difícil era descer a encosta e Conceição ainda estava grávida de sete meses. Buscou apoio num arbusto, mas antes que levasse a mão, foi advertida pelo marido: “Não, Conceição, isso é “mamilo de porca”. Referia-se a um espinheiro cortante, que poderia dilacerar as mãos da esposa. Depois de vários dias, quando terminou a luta, , ela saiu do abrigo e olhou para o alto. E não pode imaginar coo havia descido. Afinal, temera até pela gravidez, “pensei que fosse perder, mas não perdi!”
Uma das filhas dela, Mary Elen Godoy, é hoje professora de Estudos sociais na Escola de primeiro grau Pedro Gonçalves Lopes. Uma das tarefas de seus alunos tem sido registrar a Revolução em Quatiguá, para o que entrevistam testemunhas.
SAQUES E “REQUISIÇÕES”
Nome da Escola, Pedro Gonçalves Lopes foi humilhado pelos revoltosos gaúchos, que “chegaram a fazer sepultura para enterrá-lo”, recorda o genro dele, José Horácio Bueno.
Pedro residia fora do patrimônio, no Alecrim, e teve 26 reses e vacas de leite “requisitadas” pelos gaúchos, que depois o prenderam sob acusação de ser legalista. Ele tivera a coragem de interpelar um certo capitão Busch: “Você é o velhaco que roubou meu gado?” Segundo José Horácio, ao que parece o capitão Busch era do Paraná e anteriormente e anteriormente se desentendera com Pedro Gonçalves. Integrando-se às tropas gaúchas, aproveitava para se desforrar, porém Pedro acabou sendo poupado pelo comandante, que não admitia “questões de vingança”.
Isidoro Mocelim diz ter tomado conhecimento que Pedro Gonçalves foi obrigado “a usar lenço vermelho da vivas a Getúlio”. Finalmente liberado, quando os gaúchos se dirigiram a Itararé, regressou a Quatiguá andando e s[o conseguiu um cavalo emprestado na casa de Mocelim.
Chegando ao patrimônio, ficou mais revoltado, ao constatar que “gente do lugar estava comendo o gado dele, que os gaúchos haviam deixado para trás...”
Aos 70 anos de idade, o ex-prefeito Antônio Rodrigues Filho recorda-se e ter ouvido disparos de canhões e de outras armas, a 2,5 quilômetros, que a família residia, numa área próxima ao Ribeirão Bonito, tinha 14 anos de idade e o terror de seu pai era de que os revolucionários pudessem incorporar os filhos, a família achou por bem se retirar para mais longe e na ausência houve saques não sabe ao certo se foram as tropas gaúchas ou oportunistas da situação. Quando findou a Revolução, apareceram enviados do novo Governo, pedindo a moradores que informassem sobre os bens perdidos durante a passagem das tropas. Tudo foi relacionado como “requisitados” para efeito de indenização que ficou apenas na promessa.

MONUMENTO AOS MORTOS

As testemunhas não sabem precisar o número de mortos e feridos no choque armado em Quatiguá. “Foram muitos, a maior parte levada embora pelas tropas”- afirmam.
Isidoro Mocelin diz ter presenciado o enterro em valas comuns e mortos em estado de decomposição, cinco cadáveres de cada vez. E de uma coisa ele tem certeza: sob o monumento na praça Eurides Nascimento encontram-se 6, dos quais cinco paulistas. O próprio Mocelin participou da trasladação, anos depois do choque, e foi um dos que tiveram a idéia da homenagem. O marco está no centro de uma área de 40 por 40 metros quadrados “doada pelo Lourenzon”.
Homenagem do povo de Quatiguá aos heróis tombados em 1930” – esta escrito na placa de bronze.
A REVOLUÇÃO NA ESCOLA
A Revolução de 30, segundo trechos da redações de alunos da professora Mary Elen Godoy, de Estudos Sociais, que ouviram testemunhas em agosto de 1982.
“Quando as tropas se aproximaram de Quatiguá”, o prefeito de Joaquim Távora, a época Miguel Dias, em acordo com Ataliba Leonel, político (...) domiciliado em Piraju, Estado de São Paulo, ambos da situação, acertaram de mandar policiais para enfrentar os gaúchos”. Consta que “o prefeito de Joaquim Távora mandou arrancar os trilhos” nas proximidades de Quatiguá, para deter os gaúchos. (Depoimento de Leonardo Rodrigues Vargas ao aluno Sérgio Roberto Alexandrino Rodrigues)
“Numa Segunda-feira, os gaúchos deram um tiro de canhão, a bala foi parar na Colônia Varsóvia – que era a colônia das polacas”. (Maria Cecheleiro a Eliane Maria Rodrigues).
“Quando acabou (...) os soldados haviam roubado bastante coisa, roupas, alimentação, panelas, etc. Os soldados haviam deixado roupas deles, mas meu bisavô queimou tudo, ele achava balas e jogava fora, ou no poço. Ele achou um pente com cinco balas, mas minha avó não sabe o que ele fez.”(Pesquisa da aluna Eliane Borges Disseró).
“Ele (o entrevistado) disse que a Revolução de 30 foi entre os paulistas e os gaúchos, disse que quando se encontraram aqui, foi um tiroteio tremendo” (Segundo depoimento de Reinaldo Mocelin ao aluno Lucélio Helder Cherubin).
“Quem contou (...) foi minha mãe. Ela disse que quando começou a Revolução, morava no sítio e as pessoas de Quatiguá iam ficar na casa dela. Quando começava o tiroteio, elas iam se esconder em uma grota. Os soldados roubaram muitos cavalos de meus avós”. Em outro trecho? “Um dia (...) viram um avião e como (...) ainda não conheciam, saíram todos correndo e foram se esconder em um cafezal”. (Solange).
“Num Sábado, o tenente veio avisar que o combate entre paulistas e gaúchos ia acontecer e Quatiguá ia ficar entre os dois”. (Ainda o depoimento de Maria Cecheleiro a Eliane Maria Rodrigues).
[Texto copiado integramente do Jornal Folha de Londrina 06 de Abril de 1984 - Sexta Feira - Caderno 2 – Sexta-feira, 06/04/84 pág. 24]

domingo, 9 de setembro de 2007

OBELISCO DA PRAÇA E SOLDADOS SEPULTADOS SOB ELE:

Existem realmente ossos humanos sepultados sob o monumento da Praça Eurides Fernandes do Nascimento?
A respeito do monumento da Praça Expedicionário Eurides Fernandes do Nascimento somente posso dizer o que sei. Não fui testemunha ocular de sua construção, porém a tradição da cidade afirma que ali foram depositados os ossos de seis combatentes mortos nos combates dos dias 12 e 13 de outubro de 1930 em Quatiguá. Lembro que o fato histórico torna-se realmente históprico pela ação do historiador que o recorta, define, interpreta e descreve.
Em que me baseio para afirmar isso de maneira peremptória?
  • Primeiro, a própria tradição oral, conforme me contaram, mais especificamente, meu pai, minha mãe meus avós, meus amigos comentaram. Destaco o papel desempenhado pelo Panga (Adailton Ribas Lopes) na preservação da memória de Quatiguá, pessoa preocupada e comprometida com a municipalidade e com quem sempre tenho boas conversas;
  • Segundo, em documentos, em 1984 o jornal Folha de Londrina publicou reportagem de uma pagina inteira com depoimentos de diversos moradores antigos de Quatiguá que aqui viviam por ocasião dos combates. Pois bem, um desses depoimentos é do senhor Izidoro Mocelim, que segundo o jornal participou do movimento que promoveu a construção do monumento e, segundo afirmação dele próprio ajudou a transladar os ossos dos soldados e a coloca-los sob o monumento no centro da Praça.

Não se tem noticias de que esses ossos tenham sido retirados do monumento após 1984, pois neste ano quando ocorreu uma cerimônia registrada pela TV COROADOS (GLOBO/RPC) de Londrina eles ainda estavam lá.

Para evitar maiores discussões reproduzo a seguir o trecho da reportagem com a respectiva referência bibliográfica:

MONUMENTO AOS MORTOS
As testemunhas não sabem precisar o número de mortos e feridos no choque armado em Quatiguá. “Foram muitos, a maior parte levada embora pelas tropas”- afirmam.Isidoro Mocelin diz ter presenciado o enterro em valas comuns e mortos em estado de decomposição, cinco cadáveres de cada vez. E de uma coisa ele tem certeza: SOB O MONUMENTO NA PRAÇA EURIDES NASCIMENTO ENCONTRAM-SE SEIS, DOS QUAIS CINCO PAULISTAS. O próprio Mocelin participou da trasladação, anos depois do choque, e foi um dos que tiveram a idéia da homenagem. O marco está no centro de uma área de 40 por 40 metros quadrados “doada pelo Lourenzon”.“Homenagem do povo de Quatiguá aos heróis tombados em 1930” – esta escrito na placa de bronze.
(FOLHA DE LONDRINA, Caderno 2 – Sexta-feira, 06/04/84 pág. 24)



Um equivoco que se pode ter ao ler umas das reportagens da Folha de Londrina, porém uma outra publicada em 1991, diz respeito aos mortos e a seu sepultamento. Os gauchos retiram todos os seus mortos, ao que tudo indica menos aqueles que ficaram perdidos pelos cafezais. Os mortos gauchos devem ter sido sepultados no cemitério de Siqueira Campos, mas não foram tantos quantos os mortos paulistas. Os sepultados proximos aos locais em que morreram foram os soldados paulistas, e alguns deles podem ter sido levados pela tropa que se retirou para São Paulo. No local proximo ao asilo, estadio e CTG haviam diversas sepulturas apagadas pelo tempo.
Os feridos após serem medicados pelo corpo de saúde do Destacamento Etchegoyen (Tropas gauchas) foram removidos a Colônia Mineira e de lá para Jaguariaíva e Ponta Grossa. No Hospital da Ferrovia São Paulo-Rio Grande, os feridos do Combate de Quatiguá, mesmo os paulistas foram visitados por Getúlio Vargas quando ele chegou àquela cidade.

A mesma Folha de Londrina fala sobre os sepultamentos dos mortos paulistas em Quatiguá, e o senhor Izidoro Mocelim também faz menção a isso na entrevista a TV COROADOS. Dona Gema Mocelim Shoinski deu entrevista a Folha de Londrina em 1991, sobre isso. Este jornal foi muito reproduzido e divulgado na cidade de Quatiguá:

Dona Gema Mocelim Shoinski conta que seu pai ajudou a enterrar muita gente. “Meu pai era curioso, aí pegaram ele pra enterrar defunto. Ás vezes era até mais de três numa cova. A gente encontrou soldado morto no cafezal e em várias partes da cidade. Alguns ainda foram levados de trem mas muitos ficaram esquecidos pelo meio da lavoura”.
(FOLHA DE LONDRINA, Domingo, 27 de outubro de 1991, p.16)



quinta-feira, 2 de agosto de 2007

MATERIAL DIDÁTICO - PDE - REVOLUÇÃO DE 1930 NO PARANÁ

Voltando das férias ... Neste semestre no PDE irei desenvolver material didático sobre a Revolução de 1930 no Estado do Paraná ... estou buscando mais informações ...

domingo, 22 de julho de 2007

FOTOS DE QUATIGUÁ - 2006 E 2007

Estou publicando algumas fotos de Quatiguá.
Foram tiradas por mim em 2006 e 2007 para ilustrar e auxiliar na compreensão da pesquisa que realizo.

Vista da estrada velha para Siqueira Campos ...
Vista da Serra com a cidade ao fundo

Em frente a Prefeitura (Avenida Dr. João Pessoa) com a Serra ao fundo.

Eu acho que o canhão ficou posicionado bem próximo desta posição e local em que a foto foi tirada.

sábado, 21 de julho de 2007

UM OBJETO E UMA HISTÓRIA


Um objeto apenas, quando possuimos conhecimento histórico, passa a ter um valor extraordinário e nos faz viajar por outros tempos, outras terras, outros cenários.
Tirei esta foto em 2007, quando iniciava a pesquisa sobre o Combate de Quatiguá.
É um monumento que se encontra logo na entrada do Quartel do 13º BIB, do Exército em Ponta Grossa.
Um coturno preservado que nos pergunta se sabemos por onde ele andou. O minimo que alguem que colocou sua vida a disposição da Pátria e da Sociedade pede é que nos lembremos dele.
Este coturno e seu dono passaram pela Itália combatendo o Nazismo e o Fascismo, lutando pela liberdade em um sacrificio que não pode ser deixado no esquecimento.
Parabéns ao idealizador deste monumento.

MUSEU PARANAENSE

Em Curitiba, no Palácio São Francisco (prox. Largo da Ordem) funciona o MUSEU PARANAENSE, estive lá esta semana. Como não se pode tirar fotos, vale a pena visita-lo mesmo que seja virtualmente. É um grande acervo histórico sobre o Paraná.
http://www.pr.gov.br/museupr/galeria.shtml

Visitem ...

LOCAL, OU UM DOS LOCAIS DO COMBATE


Acredito que neste lugar (em frente ao Asilo) ainda estejam enterrados alguns dos soldados paulistas mortos no Combate de Quatiguá. Seriam eles vitimados no contra-ataque das forças gauchas na manhã do dia 13 de outubro de 1930. Imaginei a hipótese de que este local tenha sido alvejado diretamente por metralhadoras pesadas que estavam instaladas no telhado da Estação Ferroviária e em um morro proximo (ainda não sei qual é) conforme um mapa do combate que encontrei em um arquivo de Curitiba.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

INICIO DA REVOLUÇÃO DE 1930 EM PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL

Como todos sabem a Revolução de 1930 teve seu inicio no Rio grande do Sul, reproduzo aqui um texto que esta no site http://www.brasilescola.com/historiab/3-outubro.htm que mostra de maneira clara o que houve naquele dia em Porto Alegre.
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3 de Outubro em Porto Alegre

O Grande Hotel, em Porto Alegre, transformara-se no quartel-general dos revolucionários, onde Oswaldo Aranha coordenava as ligações. "Olha, o doente piorou muito; seu estado é grave, exige intervenção cirúrgica que vai ser praticada logo à tarde", era a senha transmitida pelo telefone, normalmente com voz feminina
Às 14 horas do dia 3 de outubro, os colégios suspenderam as aulas, com recomendação para que os alunos se recolhessem às suas casas. O comércio cerrara as portas. Parecia que a população adivinhava o que se ia passar.
Um radiograma transmitido para o General Gil Antônio Dias de Almeida, Comandante da 3ª Região Militar, informava que o edifício dos Correios fora ocupado por civis armados, às 17 horas. As comunicações começaram a entrar no ritmo frenético que antecede as grandes convulsões sociais. O General Gil alertou o 8º Regimento de Infantaria, de Passo Fundo, e procurou contactar o General João Simplício Carvalho, Secretário da Fazenda, e Getúlio Vargas.
Novos radiogramas chegados ao Comando da 3ª Região Militar, provindos das guarnições de Bagé, Alegrete e Passo Fundo, revelavam indícios de levante armado iminente. Getúlio, Presidente do Estado, laconicamente transmitiu ao Comandante da 3ª Região Militar por intermédio de um oficial, a mensagem: "Diga ao general que as providências serão tomadas".
Às 17:25 horas ocorreu uma primeira ação contra o Quartel-General da 3ª Região Militar. Seu objetivo era capturar o general. A hora foi estudada com cuidado. O quartel-general tinha uma guarda reduzida e a maioria dos oficiais e praças já havia saído, por término do expediente.
Inicialmente, 50 homens da Guarda Civil simularam a rotineira passagem pelo portão. Seguiu-se o grupo de choque que se encarregou das sentinelas. Oswaldo Aranha, Flores da Cunha e o Capitão Agenor Barcelos Feio dirigiram as ações. O sucesso do ataque deveu-se ao perfeito planejamento. Nos edifícios vizinhos havia metralhadoras instaladas para bater o prédio do quartel-general. A pretexto de conserto nos encanamentos, abriram-se valas nas ruas Riachuelo e Canabarro, nas proximidades do quartel-general, que foram ocupadas por combatentes disfarçados de operários. Vários soldados da guarda, solidários com o movimento, além de deixarem seus postos retiraram os percursores das armas.
O General Gil foi preso. Um ataque comandado por Elpídio Marins forçou a rendição do Arsenal de Guerra. Exatamente às 17:30 horas subiu do Morro do Menino Deus o foguete que anunciava a deflagração do movimento revolucionário. Desde setembro a guarnição de Porto Alegre dispunha de reforços – eram o 8º e o 9º Batalhão de Caçadores, comandados, respectivamente, pelo Tenente-Coronel Galdino Esteves e pelo Coronel Toledo Bordini, e também uma seção de artilharia. O efetivo da tropa era de 1.500 homens, o que preocupava os revolucionários. O primeiro aderiu e o segundo ofereceu resistência, mas foi logo dominado e preso com alguns de seus oficiais.
O 4º Esquadrão, depois de pequena resistência, rendeu-se; alguém na unidade retirara os percursores das armas de fogo. A 2ª Companhia de Estabelecimentos, depois de intensa reação, cedeu, o mesmo ocorrendo com o Contingente da Carta Geral 43. O 7º Batalhão de Caçadores, comandado pelo Coronel Benedito Marques da Silva Acavan, cunhado do General Flores da Cunha, estava reduzido de um terço de seu efetivo, pois cerca de 200 homens desertaram. Somente três metralhadoras dispunham de percursores. Mas só pela manhã do dia 4 aceitava os termos apresentados por Goes Monteiro.
As ações em Porto Alegre resultaram em 19 mortos e quase 100 feridos.
O 8º Regimento de Infantaria (Passo Fundo) do Coronel Estêvão Leitão de Carvalho fora cercado pelos revolucionários e resistiu durante algum tempo. Outras unidades no Estado aderiram.