segunda-feira, 28 de março de 2011

O DISCURSO DO REI, CORNÉLIO PROCÓPIO E O NORTE DO PARANÁ: UMA RELAÇÃO DE OITENTA ANOS


O Discurso do Rei, Cornélio Procópio e o Norte do Paraná
==== UMA RELAÇÃO DE OITENTA ANOS ====

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio


O Discurso do Rei
                “O Discurso do Rei” foi em 2011 o grande ganhador do Oscar, premiação máxima do cinema norte-americano tendo recebido as premiações de melhor filme, diretor, ator e roteiro original. Foi considerado pelo público como o melhor filme no Festival de Toronto e recebeu ainda o Globo de Ouro de melhor ator de drama. Particularmente considerei esse filme muito agradável de ver. A história gira em torno do momento em que o Príncipe Albert, pai da atual Rainha Britânica se vê contingenciado a assumir o trono como George VI no lugar de seu irmão Eduardo VIII que renunciara para se casar com uma norte-americana divorciada. Desde criança Albert sofria com uma gagueira que o deixara em má situação toda vez que precisava pronunciar-se em público. Bem no filme vemos como um especialista auxilia o monarca a combater seu problema.
                Mas qual seria a relação desta história de superação com o Norte do Paraná? Digamos que ela é um tanto que pitoresca, uma ilustração que se destaca em seu passado, lembrando pois que, se a História não tivesse utilidade alguma pelo menos serviria para nos entreter e divertir. O Norte do Paraná foi objeto de interesse e visitação dos dois futuros monarcas ingleses cuja vida é retratada neste filme.
                Quando eram príncipes ainda, Edward e Albert estiveram no Brasil, corria o ano de 1931, ambos viajam o mundo como o Príncipe de Gales, herdeiro do trono, e o Duque de York, segundo na linha sucessória. Eles chegaram ao Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro em 25 de Março de 1931 e receberam toda a atenção do Governo Provisório de Getúlio Vargas sendo-lhes designado como oficial para atender-lhes a todas as necessidades o General Tasso Fragoso, um dos mais importantes oficiais do Exercito àquele tempo.
Edward
Principe de Gales em 1919 
                A visita oficial à Capital da República durou cerca de três dias e os príncipes hospedaram-se no Palácio Guanabara. Verificaram-se as trocas de visitas protocolares, jantares, recepções bailes no Palácio do Itamaraty e também no local onde os visitantes se hospedavam. Quando se dirigiram depois a outros estados a visita foi considerada de carater semi-particular e houve recepções semelhantes as do Rio de Janeiro.
                Ao final dos três dias os visitantes seguiram até São Paulo e de São Paulo seguiram para o Norte do Paraná, conforme especificado no Relatório do Ministro de Estado das Relações Exteriores do Brasil, no ano de 1931, página 18 e seguintes:
                              
De São Paulo, os Príncipes seguiram para o Norte do Estado do Paraná em visita às terras da Companhia “Paraná Plantations”. Essa parte do programma foi arranjada de accôrdo com o desejo de sua Alteza Real de conhecer as propriedades da referida Companhia ingleza”.

Albert - Coroado como George VI
Pai da Rainha Elisabeth II
Como Duque de York acompanhou
o Principe de Gales ao Brasil
                Um dos funcionários da “Companhia de Terras Norte do Paraná”, subsidiaria da “Paraná Plantations” registrou essa interessante visita que marcou o período inglês na construção da Ferrovia São Paulo – Paraná e da ocupação da região onde hoje se ergue a cidade de Londrina. Segundo Gordon Fox Rule, o Príncipe de Gales, que se tornaria Eduardo VIII, era um grande acionista da “Paraná Plantations”, decorrendo daí seu interesse em conhecer as terras e as histórias que já deviam ser-lhe afamadas.
                A visita dos príncipes concentrou-se em Cornélio Procópio, que era naquele momento apenas uma estação ferroviária entregue havia pouco tempo, em 1º de dezembro de 1930, com uma povoação que dava seus incipientes passos. Havia aqui pátio de manobras, depósitos e os alojamentos dos engenheiros e condutores da construção da ferrovia que se estendia em direção a Jataizinho e as margens do Tibagi. Segundo Atila Silveira Brasil o relato sobre essa visita vale pelo seu aspecto pitoresco, pois os ingleses quase nada deixaram de sua breve passagem e permanência forçada nas terras da cidade que ainda seria erguida. Ficaram a ferrovia e as lembranças que vão se esvaindo.
                O relato mais interessante que temos dessa visita do Príncipe de Gales e do Duque de York a Cornélio Procópio e ao Norte do Paraná é justamente de Atila Silveira Brasil em seu livro “Das Origens da Emancipação do Município” (pagina 54-55), que versa sobre Cornélio Procópio.
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E O PRINCIPE CHEGOU
               Era março de 1931.
               No casario de madeira, construído pelos ingleses no aclive frontal da Estação Cornélio Procópio, havia grande alvoroço, preparando a recepção da real visita.
Arco de boas vindas ao Principe de Gales
e ao Duque de York em Cornélio Procópio em 1931
(Fonte: Blog Ferrovia São Paulo - Paraná)
               Colocaram no portão do condomínio fechado um enorme arco de madeira com a saudação “WELCOME” iluminada por lâmpadas elétricas.
               Na estação, o jovem agente também tomava suas providencias para aquela recepção.
               Lá pelas 11 horas, chegou o trem especial da Sorocabana, com a comitiva visitante. Os trens utilizados pela Estrada de Ferro São Paulo – Paraná eram bem menores, pois a estrutura dos trilhos não suportava excesso de peso. O trem especial entrou apitando, lento, no pátio da estação. O agente comandou a parada do trem, enquanto a comitiva de recepção, formada por ingleses, técnicos e poucos empregados da Companhia, preparava-se para receber o Príncipe de Gales.
Funcionários, familiares e moradores
sob o arco de boas vindas momentos
antes da chegada dos Principes
(Foto: Acervo Átila Silveira Brasil)
               Suspense na chegada. O trem permaneceu fechado durante alguns minutos. Então sua porta se abriu e começaram a descer os visitantes. Primeiro desceu Lord Lovat, depois Arthur Thomas e em seguida o Príncipe de Gales. Jovem claro, olhos e cabelos castanhos, de cerca de um metro e oitenta de altura, trajando um safári cáqui, de calças curtas, e com um chapéu caça-leão, modelo africano. Aparentava ter 30 anos [na verdade tinha 36].
               Feitas as apresentações, com os naturais beija-mão dos estrangeiros, os visitantes se encaminharam para as casas dos ingleses, onde ficava o escritório da Companhia de Colonização Norte do Paraná.
               Houve grande decepção, pois o sistema elétrico do arco com a saudação WELCOME falhou. Entraram e naturalmente foram tratar de negócios, pois o Príncipe era um dos acionistas da Paraná Plantations, financiadora da Companhia de Terras Norte do Paraná. Ele não veio em visita oficial, por isso não houve o natural aparato de segurança que acompanha os visitantes oficiais.
Estação Cornélio Procópio em 1932
(Fonte: http://www.estacoesferroviárias.com.br)
               Depois de duas horas, retornaram à estação. Decidiram ir a pé até à ponta da linha, que estava no Catupiri. Quando lá chegaram, o Príncipe que era grande atleta, decidiu que voltaria correndo até Cornélio Procópio. Não adiantaram as afirmações da longa distancia. O Príncipe correu e chegou normalmente, dando provas de sua grande vitalidade. Carros foram improvisados para trazer os suarentos ingleses do Catupiri, pois eles vinham caminhando com dificuldades entre os dormentes e as pedras do leito da ferrovia.
               Enquanto esperava seus companheiros, o Príncipe sentou-se num banco da plataforma e começou a conversar em português com o agente Antônio Marques Júnior. O agente surpreendeu-se com esse conhecimento real da língua portuguesa. Pediu informações sobre a qualidade das terras, sobre as madeiras das matas, sobre as principais lavouras, principalmente sobre o algodão, e até sobre leis. Segundo declarações do próprio Antônio Marques Júnior, “Como conhecia tudo isso, expliquei para ele”.
Mapa da Ferrovia São Paulo - Paraná
(Fonte: Blog Ferrovia São Paulo - Paraná)
               Depois o Príncipe disse que ia descansar so seu trem especial. Mas não foi. A comitiva foi até Jatay de carro, onde estava o grupo inglês preparando-se para o loteamento de Londrina. Conforme testemunha, o Príncipe foi recebido com usa comitiva em Jataizinho, pelo administrador dos ingleses, Elias Dequêch, permanecendo ali algumas horas, suficiente para participar da festa de batizado de Paulo, filho de Elias.
               Retornou o Príncipe de Gales tarde da noite. Depois de jantar, quase à meia-noite, despediu-se e o trem especial se pôs em marcha.
               Este relato vale mais pelo pitoresco, do que pelo seu valor histórico, pois os ingleses nada deixaram de sua curta permanência forçada em nossa Cornélio Procópio.
               O Príncipe de Gales tornou-se, em 1936, Rei Eduardo VIII da Inglaterra e no mesmo ano renunciou à coroa, para não renunciar ao amor de uma plebéia.
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                É bem plausível que os príncipes britânicos não tenham podido vislumbrar a frondosa Aruacária, pinheiro símbolo do Estado do Paraná, uma vez que adentraram em seu território pelo Norte. Tivessem vindo pelo Sul e com mais tempo, na época certa poderiam até ter conhecido seu fruto e quem sabe mesmo ter provado de suas matizes combinadas com diversas carnes no prato que conhecemos como entrevero.
Peroba-Rosa sendo serrada (desdobrada)
 em serraria do Norte do Paraná
(Fonte: Blog Ferrovia São Paulo - Paraná)
                É certo porém que o então Príncipe de Gales e o Duque de York tenham vislumbrado o porte, a altivez e a agradável coloração da Peroba-Rosa, árvore que por sua vez pode muito bem ser o símbolo do Norte do Paraná. Os visitantes chegaram em um momento em que a exploração dessa madeira encontrava-se se não em seu auge, pelo menos em ritmo bastante acelerado, com cidades florescendo e crescendo às margens da Ferrovia São Paulo – Paraná. A região cheirava a pó-de-serra e este possuía o aroma peculiar da Peroba-Rosa.  A incipiente indústria de beneficiamento da madeira, desdobrava milhares de metros cúbicos ao dia, enviando por via-férrea os caibros, vigas, sarrafos e tábuas que produzia para os mercados consumidores de São Paulo e Rio de Janeiro. Cidades que cresciam também em ritmo acelerado. Nós é permitido então concluir que Edward e Albert tenham também sentido o aramo e o perfume da Peroba –Rosa recém derrubada e desdobrada.

                Podemos fixar a chegada e a permanência dos Príncipes a Cornélio Procópio por volta de 29 ou 30 de Março de 1931, pois chegaram a Fazenda Morrinhos em 02 de Abril, conforme publicado pelo site “Estações Ferroviárias”. Nesta fazenda os ingleses pararam para descansar da viagem, neste lugar passaram todo o dia, participando de caçadas e festas esportivas.
Príncipe de Gales caçando na Fazendo Morrinhos
(Fonte: http://www.estacoesferroviarias.com.br)
Em 2 de abril de 1931, o Príncipe de Gales, o futuro Eduardo VIII, e seu irmão Jorge, o futuro Jorge VI da Inglaterra, estiveram na estação de Paula Souza [próxima a Botucatu – SP]. Os príncipes, de acordo com o correspondente da revistaNossa Estrada, Benvindo Lobo, vieram "fazer uma visita e realizar uma caçada de perdizes na fazenda Morrinhos, de propriedade doSr. Lineu de Paula Machado. Às 8 horas dava entrada nessa estação (Paula Souza) o grande especial de Suas Altezas, que era composto de 9 carros e conduzido pela locomotiva 809, tendo como maquinista João Antonio e chefe de trem Filenno Bucci. O desembarque da comitiva se deu às 13 horas, estando SS. AA. acompanhados pelas seguintes pessoas, (entre outras) (...) Dr. Lineu de Paula Machado, Dr. João Teixeira Soares, (...) Carlos Chagas, (...) e Dr. Gaspar Ricardo Junior, chefe da 4ª divisão, que representava a Sorocabana. Logo após o desembarque, dirigiram-se todos ao "Haras Expedictus" da fazenda Morrinhos, onde visitaram suas principais instalações. O pavilhão de caça, destinado exclusivamente a SS. AA., foi transformado em acomodações, decoradas finamente. (...) A excursão terminou às 23 horas e (...) Às 23:27, partiu desta Estação o Especial de SS. AA., com destino a São Paulo (...)" (Revista Nossa Estrada nro. 27, 1931).

                Os príncipes foram ainda até Belo Horizonte, onde os futuros Eduardo VIII  e George VI visitaram a mina de ouro de Morro Velho, em Nova Lima, mineradora pertencente também a britânicos. Retornando ao Rio de Janeiro passaram mais uma semana hospedados no Copacabana Palace Hotel, dedicando-se a assuntos particulares, visitas a empresas e istituições; Em São Paulo visitaram o Instituto Butantã, no Rio de Janeiro no Instituto Oswaldo Cruz, nos estaleiros da Ilha do Vianna, no Hospital dos Enfermeiros e o Colégio Anglo-Americano. Constou que essa visita incentivou muito o estudo da língua inglesa no Brasil.
                Por fim após receberem diversas condecorações do Governo Brasileiro e retribuir também com outras do Império Britânico, o Príncipe de Gales e o Duque de York partiram do Brasil, a bordo do navio “Arlanza”, em 12 de Abril de 1931. Deixaram a lembrança de sua visita e essa relação que pode ser apontada agora entre o premiado “O Discurso do Rei”, a cidade de Cornélio Procópio e o Norte do Paraná.

FONTES:
BRASIL, Átila. Das Origens da Emancipação do Município. [s.d.t]: Cornélio Procópio, 1988;
ESTAÇÃO PAULA SOUZA. Disponível em < http://www.estacoesferroviarias.com.br/p/paulasouza.htm > Acesso em 15 de Março de 2011;
REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL. Relatório do Ministro de Estado da Relações Exteriores no Ano de 1931. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1934. 


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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Cidades e Vilas Desaparecidas do Norte Pioneiro do Paraná: ESPIRITO SANTO DO ITARARÉ


Cidades e Vilas Desaparecidas do Norte Pioneiro do Paraná
==== ESPIRITO SANTO DO ITARARÉ ====

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio


                Dando continuidade a um texto anterior onde tratei sobre a localidade de São José do Cristianismo, desta feita abordarei outra cidade desaparecida do Norte Pioneiro do Paraná: Espírito Santo do Itararé, próxima a atual Ribeirão Claro e hoje sob as águas do lago artificial que abastece a Usina Hidrelétrica de Chavantes-SP. Usarei neste texto informações baseadas principalmente na obra de Ruy Chistovam Wachowicz – “Norte Velho, Norte Pioneiro” (WACHOWICZ, Ruy Chistovam. Norte Velho, Norte Pioneiro. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1987, 178pp.). Mesmo assim ainda são poucas as informações que possuo sobre a formação desta localidade que podemos dizer tenha sido um dos embriões do Norte do Paraná.

                A antiga Espírito Santo do Itararé foi erguida na região próxima da confluência do Rio Itararé com o Paranapanema, a ocupação desta área data do século XIX, relatos nos informam que nas primeiras décadas daquele século uma mulher, provavelmente mineira havia ali se fixado junto com seu marido. Conhecida como Maria Ferreira, ela frequentemente levava alguns produtos e principalmente peles de animais para serem trocadas em Piraju-SP, para tanto fazia uso dos dois rios que eram navegáveis, descia o Itararé e depois subia o rio Paranapanema. Ao que consta seu marido, que era caçador, deveria ser um foragido da policia, pois nunca se aproximava da cidade quando Maria Ferreira para lá ia comerciar.

                No local onde Maria Ferreira habitou desenvolveu-se um porto, à margem esquerda do Rio Itararé, que recebeu o nome desta sua primeira habitante. Próximo ao porto, posteriormente em terras que pertenciam a Fazenda Taquaral desenvolveu-se o núcleo urbano de Espírito Santo do Itararé. A primeira doação de terras para a formação deste patrimônio data de 1894, mas é evidente que já havia ocupação urbana desde muito tempo antes disso. Com o avanço da ferrovia Sorocabana pelo vale do Parapanema e com a possibilidades de transporte assegurada, a cafeicultura avançou e atingiu o Norte do Paraná. O afluxo de pessoas aumentou cada vez mais e empurrou a colonização para o oeste.

                Um novo centro urbano acabou surgindo nas margens do riacho Ribeirão Claro, em terras mais altas e livres do mal que, a exemplo de São José do Cristianismo, também assolava Espírito Santo do Itararé, a malária e outras doenças palustres.

                Espírito Santo do Itararé foi sede de município, teve Igreja, delegacia postos de serviços do Governo Estadual, força policial, etc. A Loja Maçônica “Amor a Virtude" Nº 0776 do Grande Oriente do Brasil, fundada em 21 de Dezembro de 1901,  ali funcionou por um certo tempo e chegou a ter um razoável número de membros cuja participação pode ser identificada em diversas outras oficinas pelo Norte do Paraná pelo menos até a década de 1950.

                Em grande parte devido a malaria e a insalubridade do local, grandes algozes destes povoadores pioneiros, Espírito Santo do Itararé foi se esvaziando em prol de Ribeirão Claro. Em 13 de maio de 1908 a sede da municipalidade foi solenemente transferida para a aquele lugar, inclusive com a devida mudança na denominação para Município de Ribeirão Claro. A cerimônia contou com a presença de autoridades estaduais, locais e de Jacarezinho, município vizinho que já vicejava há algum tempo. E em 1911 foi instalada a Comarca de Ribeirão Claro cuja foto se encontra abaixo.


Autoridades presentes à instalação da Comarca de Ribeirão Claro em 1911

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Combate de Quatiguá no Youtube

Há um ano e meio atrás fiz esse pequeno filme com algumas fotos e slides sobre o Combate de Quatiguá durante a Revolução de 1930. Eu o postei aqui no blog, porém ficou muito pequeno o quadro, como eu o havia colocado no Youtube, em duas partes, coloco a seguir os dois endereços dos filmes:

= Primeira Parte =








= Segunda Parte =



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Transferência de Comando da Terceira Divisão de Exercito - Santa Maria - Rio Grande do Sul

Dia 04 de Fevereiro de 2011 participei da cerimônia de transferência de comando da Terceira Divisão de Exercito em Santa Maria no Rio Grande do Sul. Assumiu o comando da Divisão que tem a alcunha de "Encouraçada" o General de Divisão Sergio Westphalen Etchegoyen, que por sua vez é neto de Alcides Gonçalves Etchegoyen o vencedor do Combate de Quatiguá em Outubro de 1930.

A cerimônia transcorreu no quartel do Regimento Mallet de Artilharia, chamado de "Boi de Botas", unidade que a exemplo da 3ª Divisão de exercito fez sua história na Guerra da Triplice Aliança, nome mais garboso para a Guerra do Paraguai.

A cerimônia em si me transmitiu bastante força mas ao mesmo tempo é simples sem deixar de ser garbosa. Fiquei bastante impressionado com a organização e harmonia da apresentação que se seguiu.

Aproveitei para desenvolver minhas pesquisas em Porto Alegre e também visitar alguns pontos de Santa Maria e conhecer esse importante centro que foi extremamente estratégico para a Revolução de 1930 e consequentemente para todo o contexto que se visualizou depois no Estado do Paraná.

Na ocasião pude conhecer e conversar pessoalmente com o Comandante do Exercito, General Enzo; com o comandante da 5ª Região Militar aqui do Paraná, General Adhemar e é lógico com o General Sergio Etchegoyen que assumia o comando da Divisão Encouraçada. 

Coloco na seqüencia as fotos que tirei junto com o General Enzo, o General Adhemar, com o General Etchegoyen e por fim da tropa formada durante a cerimônia:







terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

CORNÉLIO PROCÓPIO - Km 125 da Ferrovia São Paulo - Paraná

==== CORNÉLIO PROCÓPIO ====
KM 125 DA FERROVIA SÃO PAULO - PARANÁ

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio



Uma pergunta pode povoar a mente dos menos avisados a respeito do primeiro nome da cidade de Cornélio Procópio – Km 125: "Mas que Km 125 afinal de contas"? ... Da ferrovia podemos responder com toda a segurança!
A cidade de Cornélio Procópio surgiu e desenvolveu-se as margens da Ferrovia São Paulo/Paraná Ferrovia esta também detentora de interessante história que se confunde ou funde-se com a própria história do Norte do Paraná.
Projetada e iniciada nos anos de 1920, a "Ferrovia São Paulo/Paraná", fazia parte de um projeto de capitalistas de São Paulo, visando um objetivo maior de atrair para aquele Estado toda a produção de café que já se iniciava no Norte do Paraná, e também toda produção agrícola que porventura surgisse na região.
A ferrovia não se limitaria apenas ao Norte do Paraná, uma vez que cortaria todo o Estado de forma diagonal até Guaíra, as margens do Rio Paraná. Vale salientar que seu início é na cidade de Ourinhos (SP), como um ramal da ferrovia denominada Sorocabana. De acordo com os projetos e idéias originais, de Guaíra a ferrovia se prolongaria até Assunção, capital do Paraguai. Era como dissemos um projeto grandioso, e também caro e dispendioso. Vencer o sertão não era o principal problema, mas sim convencer investidores e angariar capitais.
Para a construção da ferrovia, havia necessidade de autorização ou concessão do Governo Federal, fator que não era problema, pois o mesmo era influenciado por São Paulo e Minas Gerais, dentro daquilo que se convencionou chamar "política do café com leite".
Quem obteve a concessão foi o grupo econômico liderado por Antônio Barbosa Ferraz, que fez construir o primeiro trecho da ferrovia ligando Ourinhos a Cambará, até uma importante fazenda do grupo. Devido a falta de capitais a construção ficou estacionada nessa localidade por um bom tempo.
A solução para a construção viria através da venda das ações da ferrovia para empresários ingleses, atraídos pela fertilidade e disponibilidades das terras no Norte do Paraná. Diga-se de passagem a possibilidade de bons lucros foi o melhor argumento.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CORNÉLIO PROCÓPIO - As Origens do Município


==== CORNÉLIO PROCÓPIO ====
As Origens do Município

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio

A Cidade de Cornélio Procópio, e consequentemente o município, foram fundados em terras que pertenciam a Francisco da Cunha Junqueira, inseridas em uma gleba denominada Fazenda Laranjinha. Junqueira comprou essas terras em 1923. Era comum que fazendeiros paulistas e mineiros comprassem terras nessa região, quer fosse para projetos de loteamentos e colonização, quer fossem para esperar a valorização destas glebas para posterior venda a terceiros.
Francisco Junqueira era um político paulista, e como tal envolveu-se na Revolução Constitucionalista de 1932, ao lado de seu Estado. Como foram derrotados, Francisco Junqueira acabou sendo deportado pelo Governo de Getúlio Vargas para Portugal. Em dificuldades financeiras, vendeu suas terras aqui no Paraná para a empresa de loteamentos formadas pelo Coronel Francisco Moreira da Costa e Antônio de Paiva. Antes porém. Junqueira planejou o parcelamento das propriedades de deixou planejados dois núcleos urbanos, denominados Santa Mariana em homenagem a sua esposa, Mariana e Cornélio Procópio em homenagem a seu sogro.
                No intervalo entre a venda das terras por Junqueira e a posse da empresa Paiva & Moreira, algumas ruas começaram a ser ocupadas sem obedecer qualquer planejamento, ou seja algumas construções rústicas começaram a ser erguidas, fugindo ao padrão urbanístico previamente estabelecido. Os novos proprietários reordenaram a ocupação urbana e com a chegada de Ferrovia a cidade passou a crescer e a desenvolver-se. Vale a oportunidade para lembrar que os primeiros lotes urbanos foram vendidos em torno da Praça Brasil, sendo que ali na esquina da Rua Quintino Bocaiúva e Av. XV de Novembro, encontra-se o marco inicial da cidade.
                A população inicial, era originária principalmente de São Paulo e Minas Gerais. Os primeiros colonizadores e desbravadores eram atraídos principalmente pela fertilidade da terra, tida como umas das melhores do Brasil. Essa fertilidade era propagada em diversas regiões. Fato interessante dos primeiros tempos de Cornélio Procópio, foi a "propaganda enganosa", se é que podemos dizer, realizada pelos ingleses, que eram donos da Ferrovia São Paulo/Paraná e das terras a oeste do Rio Tibagi, onde desenvolveu-se a cidade de Londrina. Em seus panfletos de propaganda, os ingleses constantemente aumentavam a altitude de suas terras e baixavam a das terras vizinhas de seus concorrentes. Isso se dava pelo fato de que as terras aqui da região eram procuradas para o plantio de café, cuja geada, pior inimigo, ocorre mais forte em terras baixas.
                Cornélio Procópio cresceu rapidamente, dependendo administrativamente de Bandeirantes. No ano de 1938, portanto a 62 anos, uma comissão formada por moradores resolveu pleitear a emancipação política e a criação de um novo município. Faziam parte dessa comissão entre outros: José Paiva, Oscar Dantas e Américo Ugorini, que utilizando-se de um documento onde se colocavam os motivos da criação do Município, elaborado por Benjamin Soto Maior, que era administrador da Cia Barbosa, foram a Curitiba ter uma audiência com o Interventor (Governador) do Estado naquela época, Manoel Ribas.
                Portando credenciais e cartas fornecidas pelas Empresas Matarazzo de São Paulo, que possuíam uma Fazenda na região, e uma carta pessoal de apresentação da própria filha de Manoel Ribas, a comissão foi recebida e expôs seus motivos e intenções.
Desta maneira, o Município de Cornélio Procópio acabou sendo criado pelo decreto nº 6.212, de 18 de janeiro de 1938, sendo que a implantação do Município deu-se dia 15 de fevereiro daquele mesmo ano, mais ainda, na mesma oportunidade, Manoel Ribas transferiu a sede da Comarca de Jataizinho para o novo município. Cornélio Procópio de simples povoado passou a sede de Município e sede de Comarca, tudo no mesmo dia.
                Desde sua emancipação política Cornélio Procópio vem crescendo e se destacando no cenário regional, como o demonstra o fato de ser sede dos núcleos regionais de diversas secretarias estaduais, como a da Educação, da Agricultura, do Trabalho, da Saúde, bem como de serviços e agências também estaduais e federais.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Curdos no Norte do Paraná

Estou publicando novamente este texto sobre a tentativa de remoção de populações curdas do Iraque e sua fixação no Norte do Paraná na década de 1930.

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==== CURDOS NO NORTE DO PARANÁ ====

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio


                 A História do Norte do Paraná, é cheia de curiosidades, algumas até esquecidas, ou pouco lembradas. Fato interessante foi o da tentativa inglesa de fixar povos curdos aqui na região. Os mesmos curdos que até hoje lutam para se tornar independentes da Turquia e do Iraque, cujo líder acabou preso recentemente provocando protestos desse povo por toda a Europa.

Na mesma época em que o grupo inglês liderado por Lord Lovat adquiria terras no Norte do Paraná, companhias inglesas descobriam petróleo no norte do Iraque. Esse pais era à época uma possessão britânica, e a região em questão habitada pelos curdos que eram um povo belicoso, guerreiro e inquieto que não aceitavam o domínio inglês, nem a exploração estrangeira das suas terras. Portanto para explorar o petróleo, havia necessidade de remoção dos curdos para outra região.

Para resolver o problema, o Príncipe de Gales, que era um dos acionistas da Companhia de Terras Norte do Paraná, e Lord Lovat ofereceram em 1933, de forma sigilosa, suas terras no Norte do Paraná à Liga das Nações, em forma de arrendamento. Atitude que logo seria também apoiada secretamente pelo governo brasileiro, chefiado à época por Getúlio Vargas, uma vez que o Brasil esta endividado com Bancos Ingleses.

No ano seguinte, 1934, o assunto foi parar nos jornais. Uma forte campanha contraria a essa imigração foi desencadeada pela imprensa curitibana, sindicatos, associações de operários, entidades de profissionais liberais pressionavam o governo de Getúlio Vargas, para que voltasse atrás. Houveram reações de intelectuais, principalmente a Ordem dos Advogados do Paraná, e também de alguns professores da Universidade do Paraná.

Os motivos alegados ou as idéias básicas utilizadas na “Campanha contra a imigração dos assírios”, eram os mais variados iam desde ataques ao imperialismo britânico até a manifestações do mais puro racismo.

O governo brasileiro que através do Ministério das relações exteriores já havia dado seu aval para a imigração acabou por voltar atrás diante de tanta pressão. A própria Cia de Terras Norte do Paraná, desistiu do negócio, sob as alegações de que a localização daquela gente no coração de suas terras viria desvalorizar o restante da propriedade, mais de 400.000 alqueires.

                Diante da situação de extrema pressão em que se encontrava, e com a possibilidade real de uma grande desvalorização financeira de seu projeto, a Cia de Terras Norte do Paraná retornou a seus antigos objetivos, ou seja, a venda de terras:

                Quanto aos curdos, encontram-se ainda hoje sem o domínio efetivo de suas terras, divididos entre a Turquia o Iraque e a ex-União Soviética, sem poder constituir um Estado livre.

                A Companhia de Terras Norte do Paraná, passou então a vender em regime de pequenas propriedades, os 13.166 quilômetros quadrados de terras que haviam sido adquiridas de particulares, grileiros e posseiros e do próprio patrimônio do Estado do Paraná, as chamadas “Terras Devolutas”.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

São José do Cristianismo - Considerações de Jairo José Barbosa

Recebi hoje um e-mail de Jairo José Barbosa que fez considerações e importantes apontamentos a respeito do texto sobre as Cidades Desaparecidas do Norte Pioneiro, em especial de São José do Cristianismo que é ligada a de São José da Boa Vista. Aliás Jairo Barbosa tem realizado pesquisas sobre esse minicipio, bem a mensagem por ele enviada é por sí só um documento e importante relato histórico. Peço a participação de todos que desejarem contribuir com nossa história com seus conhecimentos ...

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HISTÓRIA DE SÃO JOSÉ DA BOA VISTA

De: Jairo Jose-Barbosa
Data: 14 de janeiro de 2011 11:53


Bom dia Professor e parabéns pela iniciativa.

Meus bisavós paternos: José Libânio de Oliveira e Manoel José Barbosa, eram coroneis contemporâneos do também coronel Tico Lopes e fizeram parte dessa história no final do século XIX e início do século XX, e passaram muitas informações para meu saudoso avó Bráulio Libânio de Mesquita. Mais recentemente, também meu tio, político reconhecido no norte pioneiro até 1980, Leopoldo José Barbosa, fez história nesse município, onde foi prefeito e elegeu sucessores por algumas vezes.

Já faz alguns anos realizando um trabalho de coletar dados em cidades como Castro, Brasópolis e Itajubá em Minas Gerais, além de outras fontes de pesquisas, que de condições de resgatar uma das principais histórias do Paraná, que passa por São José do Cristianismo sucedida por São José da Boa Vista, alguns poucos quilômetros de distância. Todo esse trabalho, cedi recentemente ao Município, para a realização de um livro em comemoração à sua emancipação política que será em outubro de 2011. (50 anos de sua segunda fase como município).

Apenas uma observação, embora se afirmem que São José do Cristianismo tenha sido fundada em 1848, existem dados em Brasópolis, Minas Gerais, que Domiciano Correa Machado, já em 1842, apenas mantinha sua fazenda em Brasópolis (antiga São Caetano da Vargem Grande) e já teria iniciado a Freguesia de São José do Cristianismo, inclusive com a construção de um trapiche à margem esquerda do Rio Itararé. Essa localidade é atualmente denominada Capela Velha, e fica dentro da Fazenda de Nerzio Barbosa, onde ainda é possível encontrar algus vestígios dessa antiga cidade.  E mais, São José da Boa Vista, esta sím, teria sido fundada em 1848, alguns quilômetros mata a dentro, em direção à região atual de Wenceslau Bráz e Tomazina, tanto que o fundador de Tomazina veio em seguida à Domiciano Correa Machado.

Em 1853, é fato concreto que já existia Freguesia de São José da Boa Vista, tanto que começava a herdar toda a população da decadente São José do Cristianismo.


Caso queira fazer uma vista, no blog de Lu Fiedler, no seguinte endereço: http://lu-fiedler.blogspot.com   existem algumas informações que também podem lhe interessar sobre São José da Boa Vista.

O texto principal da história de São José da Boa Vista, que me referi acima, talvez até venha publicálo também nesse blog, por enquanto, aguardando o que a Prefeitura irá fazer.

Se tiver mais alguns dados históricos e puder nos passar, será um prazer encaminhar para que o mencionado livro possa também citá-lo como um colaborador.

Essa história atualmente, não é mais somente de São José da Boa Vista, fará parte de outras diversas cidades do norte pioneiro, que tenho certeza, não será possível sem antes, decifrar da melhor forma possível sua gênese.

Mas, uma coisa é certa, São José do Cristianismo foi o início, e a segunda na lista, foi sem dúvida São José da Boa Vista, logo em seguida.

Cordialmente.


Jairo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Cidades e Vilas Desaparecidas do Norte Pioneiro do Paraná = SÃO JOSÉ DO CRISTIANISMO =

Este primeiro texto, e pretendo escrever dois, trata de São José do Cristianismo, primeira povoação fundada no que conhecemos por Norte Pioneiro do Paraná, ainda no século XIX. 
O próximo texto que pretendo publicar, espero que neste mês ainda, será sobre Espírito Santo do Itararé. Duas localidades que não mais existem mas deixaram sua curiosa lembrança na nossa história local e foram responsáveis pelo nosso desenvolvimento.

Se gostarem peço que postem um comentário ao final do texto, isso será meu incentivo para que continue pesquisando, escrevendo e publicando. Já são em média uns 1.500 acessos e visualizações deste Blog por mês, acho que estamos no caminho certo valorizando a História do Paraná, do Norte Pioneiro e do Norte do Estado.

Obrigado e boa leitura, espero que seja instrutivo!!!

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Cidades e Vilas Desaparecidas do Norte Pioneiro do Paraná
==== SÃO JOSÉ DO CRISTIANISMO ====

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio


                Em filmes e livros de arqueologia é comum nos depararmos com ruínas de cidades e construções, locais que já foram muito importantes e hoje se encontram completamente desabitados e sem os vestígios aparentes de sua glória passada. Interessante é sabermos que no Norte Pioneiro do Paraná existem pelo menos dois antigos sítios urbanos, ambos do século XIX que foram importantes centros e hoje se encontram desabitados, abandonados praticamente desaparecidos. Trata-se de duas cidades ou vilas que existiram próximas ao Rio Itararé, separadas por diversas léguas e que foram responsáveis pela passagem dos colonizadores que ocuparam a região: São José do Cristianismo mais ao sul, próxima a atual São José da Boa Vista e Espírito Santo do Itararé quase na foz desse rio no atual município de Ribeirão Claro.

                A primeira das vilas e cidades desaparecidas do Norte Pioneiro do Paraná que tratarei aqui é São José do Cristianismo povoado que foi fundado em 1848, mas ao que nos parece já deveria existir desde 1842-43, em terras que pertenciam a Domiciano Correa Machado, fazendeiro mineiro que fomentaria a ocupação do Norte Pioneiro. Em 1853 por ocasião da criação da Província do Paraná esta localidade já devia ser uma vila de tamanho aprazível, chegando em 1872, conforme o censo daquela época, a possuir 3.572 habitantes: 1.927 homens, 1.645 mulheres; 3.297 pessoas livres e 275 escravos (através deste podemos concluir que houve trabalho escravo no Norte Pioneiro do Paraná); havia ainda 585 domicilios, chamados à época de “fogos” (devido ao fogão existente em cada casa).
Mapa indicando a localização de São José do Cristianismo
(Adaptação Prof.Me. Roberto Bondarik)

                A exemplo do que aconteceria praticamente em toda a região, dava-se inicio em São José do Cristianismo da ocupação e colonização por migrantes oriundos de Minas Gerais. Essa seria ao longo do século XIX e boa parte do século XX uma peculiar característica do Norte Pioneiro.

                Domiciano Corrêa Machado era natural de São Caetano da Vargem Grande, hoje conhecida por Brazópolis, em Minas Gerais. Ali era proprietário de terras, fazendeiro, mas atuava também como tropeiro na rota de Sorocaba até o Rio Grande do Sul. Conduzia gado e especialmente mulas desde o Sul, passando pelos Campos Gerais paranaenses até São Paulo e pode-se supor até as Alterosas. Foi na pratica desta atividade que Machado tomou conhecimento sobre as terras devolutas (sem titulação) que existiam no Vale do Rio Itararé, em especial na sua margem esquerda, corria ainda o ano de 1842 ou 1843 e a Província do Paraná ainda não havia se emancipado de São Paulo, aliás ninguém supunha que um dia ela teria esse nome tirado do maior rio de seu território.

                Naquele tempo, antes da aprovação da Lei de Terras de 1850, uma propriedade fundiária poderia ser adquirida somente de duas formas:

·        Pela compra de terras que houvessem sido tituladas;
·        Pela formação de posses em áreas devolutas e seu posterior registro.

                Destaque-se que um dos nomes pelos quais a região do Norte Pioneiro era conhecida no século XIX era justamente “Valuto”, derivado do fato da totalidade de suas terras serem de fato ainda devolutas.

                Após informar-se sobre a natureza legal da área que desejava, Domiciano Corrêa instalou sua posse após trazer sua família e proceder a venda de suas terras em Minas Gerais. A posse foi registrada em Faxina-SP e após a criação da Província do Paraná em 19 de Dezembro de 1853, repetiu o registro desta feita em Castro. Outras famílias de mineiros seguiram seus passos, é possível que a malograda Revolução Liberal de 1842 em São Paulo e Minas Gerais tenha influenciado os simpatizantes, envolvidos e derrotados neste movimento pelo Governo Imperial, a procurar novos ares e a sair de sua terra natal.

                Devidamente instalado Domiciano Corrêa doou as terras para o primeiro núcleo urbano do Norte Pioneiro. Chamado então de São José do Cristianismo, como já dissemos, foi fundado ao que consta em 1848, alguns anos antes do estabelecimento da Colônia Militar do Jatahy, bem mais ao norte, em 1853.

                Relatórios dos Presidentes da Província atestam que a produção de tabaco e fumo era uma das principais atividades do lugar, além da produção agrícola de subsistência. Seu principal contato para comercio foi por muito tempo Itapeva-SP, que era atingido por meio de uma picada e trilha.

                São José do Cristianismo prosperou e serviu de apoio aos colonizadores mineiros e paulistas que por ali passavam para adentrar pelo lado Leste do Norte Pioneiro em direção aos sertões do Rio das Cinzas e do Rio Laranginha. Conforme Ruy Christovam Wachowicz que historiou a região e cujo livro serve de base para esse texto, o estabelecimento das posses e seu desenvolvimento eram difíceis e custosos para serem conduzidos. Os custos eram elevados e apenas aqueles que já dispunham de algum capital se arriscavam pela região neste primeiro momento.

                Quase que ao mesmo tempo em que se estabelecia São José do Cristianismo, ali perto surgia um novo núcleo, São José da Boa Vista, em terras mais altas e livres da malaria, sezões e outras pestes palustres que assolavam a população daquele povoado pioneiro. Desta forma São José do Cristianismo passou a declinar em população e em importância logística devido as novas estradas que ligavam o novo núcleo aos Campos Gerais.

                A Lei nº 421 de 29 de Março de 1875 transferiu a sede distrital e administrativa do Cristianismo para São José da Boa Vista, que afinal se tornaria posteriormente município e comarca.

                São José do Cristianismo acabou sendo extinto, hoje devem existir alguns vestígios ainda aparentes em seu antigo sítio. O local desta pioneira vila norte-paranaense que deserta e abandonada é hoje apenas uma lembrança histórica que ainda teima e permanecer e manter-se viva em alguns relatos de antigos moradores da região ou pesquisadores curiosos que vislumbram a sua importância para a incorporação do Norte Pioneiro do Paraná à realidade brasileira.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

OS CAMPOS DO PAIQUERÊ: OS CAMPOS DO SENHOR

OS CAMPOS DO PAIQUERÊ:
 OS CAMPOS DO SENHOR


Prof.Me. Roberto Bondarik
UTFPR
bondarik@utfpr.edu.br



            Os Campos do Paiquerê eram para os indígenas paranaenses a materialização da felicidade e do bem estar. Conforme Josué Corrêa Fernandes em “Das Colinas do Pitangy” (2003), o Paiquerê estaria em toda a parte e em parte alguma, sua existência seria mítica, esotérica e espiritual, uma espécie de Xangri-lá brasileiro.
            O índio desprovido do tipo de visão de mundo econômica que o homem branco possuía, sem ter a sua cobiça material típica dos exploradores portugueses e espanhóis, enxergava o Paiquerê de uma forma muito diversa daquela dos portugueses e espanhóis que esquadrinharam o interior paranaense em busca desse paraíso perdido.
            Para o indígena o Paiquerê era como um imenso campo banhado permanentemente pelo Sol, com fartura de frutas, com caça e pesca em abundância. Imaginavam que esse paraíso terrestre no alto de uma serra ou em um planalto bem elevado, perto do céu, rico em nascentes, com riachos de águas mansas e puras que cortariam essa terra agradável e acolhedora. Campos e bosques completavam o quadro desse lugar maravilhoso.
            Portugueses, espanhóis e brasileiros buscaram exaustivamente os Campos do Paiquerê nos séculos XVII, XVIII e XIX, alguns desses exploradores chegaram a situar esses campos na Serra do Apucarana, esta cadeia de elevações foi outro lugar mitificado e tido por paradisíaco pelos indígenas do Sul do Brasil. Os bandeirantes paulistas acreditavam que a Serra do Apucarana teria em seu topo e encostas imensas jazidas minerais, ouro e pedras preciosas. Esta serra seria bem alta e dominaria com sua imponência toda uma região.
            Diversas expedições procuraram o Paiquerê que acreditava-se afinal deveria existir em algum lugar entre os rios Ivaí, Piquiri e Iguaçu.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

JESUÍTAS, MAPISTAS E EXPLORADORES DO SERTÃO DO TIBAGI: PÁGINAS DA HISTÓRIA DO NORTE DO PARANÁ

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Este texto foi enviado também ao jornal Folha de Londrina, segundo a resposta vaga que me deram ele não interessava para publicação. 
Ainda bem que existem blogs e internet, agora posso amplia-lo e acredito que ele possa ser utilizável ainda a alguem que queira saber mais um pouco sobre a história do Norte do Paraná.
Ele trata de John Henry Elliot, Joaquim Francisco Lopes e sua missão de explorar o Norte do Paraná buscando uma rota até o Mato Grosso em meados do século XIX.
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JESUÍTAS, MAPISTAS E EXPLORADORES DO SERTÃO DO TIBAGI: PÁGINAS DA HISTÓRIA DO NORTE DO PARANÁ 
Prof.Me. Roberto Bondarik
UTFPR - Cornélio Procópio
bondarik@utfpr.edu.br



                A reportagem sobre as Reduções Jesuíticas Espanholas no Paraná (FOLHA DE LONDRINA de 28 de Novembro de 2010), mostrou-nos uma página pouco lembrada da história paranaense, em especial do Norte do Estado, e que acabou nos levando à outras que encontram-se igualmente esquecidas. Recordei-me de um cartógrafo que em meados do séc. XIX explorou os sertões dos rios Tibagi, Ivai, Paranapanema e Itararé, e também buscou encontrar estas antigas missões espanholas. Tratava-se de John Henry Elliot, que sob o contrato e a mando de João da Silva Machado, conhecido como Barão de Antonina, a partir de 1846, conseguiu estabelecer uma rota terrestre e fluvial entre o litoral paranaense e a Província do Mato Grosso. De suas ações resultaram cidades como Tibagi e Jataizinho, reservas indígenas e os primeiros mapas detalhados do Norte do Paraná.
                John Henry Elliot nasceu em Filadélfia nos Estados Unidos, em 1809, aos dezesseis anos chegou ao Brasil a bordo da Fragata Cyane. Alistou-se na Armada Imperial, lutou na guerra de independência do Uruguai tendo ai sido aprisionado por dois anos. De retorno ao nosso país conheceu o Barão de Antonina, fazendeiro e tropeiro, engajado na emancipação do Paraná. Como empresário e político o Barão desejava estabelecer uma rota terrestre que ligasse o Paraná ao Mato Grosso, encurtando o caminho entre aquela província e o Rio de Janeiro, fugindo à passagem por Buenos Aires e Assunção. Elliot tornou-se o cartógrafo e piloto das expedições financiadas pelo Barão que desejava se assenhorear das terras ao longo da rota a ser traçada.
                Em 1846 Elliot e o sertanista Joaquim Francisco Lopes, o “Sertanejo”, parceiro e chefe do agrimensor norte-americano nas viagens , fizeram um reconhecimento do curso do rio Tibagi e exploraram seu sertão. Esta expedição foi bem documentada e relatada pelo norte-americano ao seu contratante, desta forma pode-se saber o que eles encontraram nesta região habitada àquela época por índios nômades e outrora pontilhada por reduções espanholas. Os exploradores buscavam um ponto da Serra do Apucarana para de seu topo observar a região. Esta serra já há muito fazia-se presente no imaginário brasileiro, os nativos a imaginavam como um local paradisíaco e terra de riquezas imaginárias para os bandeirantes paulistas. Hoje ela possui diversos nomes: Esperança, Cadeado, Santa Maria, etc. Encontrado o mirante almejado Elliot e Lopes puderam vislumbrar os sertões do Tibagi, Ivai e Paranapanema, com as suas matas de então, alguns campos e os cursos d`água, puderam escolher quais rotas deveriam seguir. A descrição que o cartógrafo faz da paisagem avistada, ainda hoje, emociona por sua beleza poética. Este momento foi eternizado e pode ser comprovado pela inscrição em uma pedra feita pelos dois exploradores, com as suas iniciais e o ano do feito: “JFL - JHE – 1846. Este marco da exploração pioneira do Norte do Paraná e do Sertão do Tibagi ainda se encontra no seu local original, o topo da elevação hoje conhecida por Pedra Branca, próximo a Ortigueira-Pr, nas nascentes do Ribeirão Apucaraninha. Esta pedra que ainda guarda a sua inscrição foi recentemente mostrada por uma equipe da Rede Paranaense de Comunicação, programa "Meu Paraná", era uma reportagem conduzida pela jornalista Francisca Aldunate da TV Coroados de Londrina. A Pedra Branca com o seu acesso encontra-se bem ao lado da Rodovia do Café onde esta instalada uma repetidora de telefonia.
                Ainda naquele ano de 1846 e em nova missão Elliot explorou a nascente e mapeou o curso do rio Congonhas, batizando-o com esse nome em virtude da grande quantidade de erva-mate que existia em suas margens. Estes mapas de John Henry, depositados hoje na Mapoteca do Itamaraty, podem ser os primeiros sobre o Norte do Paraná e o Sertão do Tibagi, um feito que poderia torná-lo de certa forma o “redescobridor” desta região no séc. XIX, depois dos Jesuítas, bandeirantes e é lógico dos indígenas que ai viveram sendo os  seus primeiros habitantes há milênios. Sua busca era pelo ponto onde o Tibagi tornava-se navegável e ai fundar uma colônia militar que viria a ser Jataizinho. Inicialmente ele pensou em instalar esse núcleo na foz do rio Congonhas, afim de proteger as embarcações e as construções das intensas e repentinas enchentes que faziam subir muito o leito do Tibagi invadindo suas margens. Posteriormente ele planejou o traçado urbano e ajudou a fundar a própria cidade de Tibagi.
                Em outras expedições Elliot esteve nas ruínas de Vila Rica do Espírito Santo, importante centro urbano espanhol que existiu próximo a Fênix, às margens do Ivai. Ele também identificou diversos vestígios dos jesuítas ao longo daquele rio, como os restos de mineração e lavras, ruínas e em especial as muitas árvores frutíferas: laranjeiras, limoeiros e marmeleiros entre outras, todos plantados em linha. Na ocasião em que trouxe índios para trabalharem como canoeiros na "Colônia Militar do Jatahy" (Jataizinho), Elliot encontrou a Redução de Nossa de Loreto e descreveu as suas condições . Exaustivamente buscou encontrar também a redução de Santo Inácio, porém não conseguiu realizar seu intento. Elliot imaginava que os sítios dessas reduções seriam bons pontos para a instalação de das colônias que deveriam dar apoio e segurança a nova rota para o Mato Grosso. Consta, conforme seu relato que ainda nessa expedição ele teria encontrado também sinais de moradores de um Quilombo que, dizia-se à época, existia no Pontal do Paranapanema.
                John Henry Elliot pintou paisagens e seria dele a primeira representação pictórica de Curitiba, escreveu um romance indianista “Aricó e Caocochée”, em 1844, ambientado na conquista dos Campos de Guarapuava, antes mesmo que José de Alencar lançasse “O Guarani”. O Cartógrafo morreu pobre em 1884 e esta sepultado em São Gerônimo da Serra, bem longe de sua terra natal e quase esquecido em uma história que ele ajudou a escrever no Paraná. Uma vida cujas ações merecem ser resgatadas e que aparentemente guardam semelhanças com a de alguns daqueles conterrâneos de Elliot que buscavam as nascentes do Mississipi, as Sete Cidades de Cibola e a passagem para o Oceano Pacífico. João Henrique Elliot, como gostava de ser chamado, foi um homem que vislumbrou a Serra do Mar a partir do Litoral, desejando enxergar além dela, partiu nesta aventura e descobriu o Norte do Paraná.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

John Henry Elliot e Joaquim Francisco Lopes: O Sertão do Tibagi e o Caminho Terrestre para o Mato Grosso no Sec. XIX

Aqui em breve um artigo sobre as explorações empreendidas por John Henry Elliot e Joaquim Francisco Lopes no Norte do Paraná, em busca da cidade espanhola de Vila Rica do Espirito Santo e das Reduções Jesuíticas na Provincia del Guayrá (Paraná Espanhol). A fundação da Colônia Militar do Jatahy (Jataizinho) e o estabelecimento do caminho do Paraná ao Mato Grosso - descobrindo o Norte do Paraná.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Combate de Quatiguá - 80 anos da Revolução de 1930

Há oitenta anos, em 12 de outubro de 1930, ocorria o maior combate da Revolução de 1930. Em Quatiguá se enfrentaram militares revolucionarios vindos diretamente do Rio Grande do Sul e tropas legalistas.
Os gauchos eram tropas regulares do Exercito e da Brigada Militar Gaúcha. Os legalistas eram também do Exército (unidades de São Paulo e do Rio de Janeiro) e da Força Pública de São Paulo (Policia Militar) além de legionários recrutados nas ruas da Capital paulista.
Foi o maior combate da Revolução e teve como repercussões a possibilidade definitiva de vitória militar daquele movimento e a retração da defesa legalista do Presidente Washington Luis.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

IV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS DE DEFESA - BRASILIA

Irei participar do IV ENABED - Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos de Defesa - em Brasilia entre os dias 19 e 21 de julho de 2010.

Irei apresentar um artigo, na mesa de História Militar,  sobre a Revolução de 1930 no Paraná, falando sobre o Combate de Quatiguá e o Destacamento Alcides Etchegoyen. Seu título é:  "O DESTACAMENTO ALCIDES ETCHEGOYEN EM AÇÃO NO COMBATE DE QUATIGUÁ: AS PERSPECTIVAS CONSTRUÍDAS PARA A VITÓRIA MILITAR DA REVOLUÇÃO DE 1930 A PARTIR DO ESTADO DO PARANÁ".

Depois de algumas idas e vindas acho que tudo dará certo. Estou contente em poder participar desse evento importante.