quarta-feira, 14 de julho de 2010

IV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ESTUDOS DE DEFESA - BRASILIA

Irei participar do IV ENABED - Encontro Nacional da Associação Brasileira de Estudos de Defesa - em Brasilia entre os dias 19 e 21 de julho de 2010.

Irei apresentar um artigo, na mesa de História Militar,  sobre a Revolução de 1930 no Paraná, falando sobre o Combate de Quatiguá e o Destacamento Alcides Etchegoyen. Seu título é:  "O DESTACAMENTO ALCIDES ETCHEGOYEN EM AÇÃO NO COMBATE DE QUATIGUÁ: AS PERSPECTIVAS CONSTRUÍDAS PARA A VITÓRIA MILITAR DA REVOLUÇÃO DE 1930 A PARTIR DO ESTADO DO PARANÁ".

Depois de algumas idas e vindas acho que tudo dará certo. Estou contente em poder participar desse evento importante.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO - DA INGLATERRA AO BRASIL E AO PARANÁ

Prof.Me. Roberto Bondarik

 

            Conhecer as origens da indústria no Paraná é uma tarefa que passa necessariamente pela aquisição de melhores e mais pontuais informações sobre o inicio deste processo, que é chamado de industrialização. Deve-se procurar conhecer também as origens e começo desta atividade transformadora em solo brasileiro. Levando tudo isto em consideração, sendo assim registramos algumas informações norteadoras.

            Iniciado na Grã-Bretanha, no século XVIII, o processo de industrialização caracteriza-se basicamente pela utilização de máquinas na atividade de produção de bens e serviços. Ocorre uma intensa substituição sistemática da força e da habilidade humana por máquinas ou engenhos mecânicos e também a divisão da produção. O processo de mecanização da produção deu inicio a um processo que foi denominado de Revolução Industrial e acabou possuindo, conforme destacado por Iannone (1995), diversas fases sucessivas de desenvolvimento e progresso que puderam ser identificadas e que sofrem variações conforme o enfoque que é empregado pelos diveros autores: a primeira destas fases ficou restrita a Grã-Bretanha, entre os anos de 1760 até 1850, fez-se uso intenso da energia a vapor, do ferro como princioal material e concentrou principlamente na indústria têxtil de algodão; a segunda fase por sua vez, estabelece-se entre os anos de 1850 e estende-se até o inicio do século XX, foi caracterizada pela difusão do processo de industrialização pela Europa, América do Norte e Ásia, caracteriza-se pela produção e utilização de aço em substituição ao ferro, produção  e uso da eletricidade e do petróleo e seus derivados; a terceira fase, chamada de Terceira Revolução Industrial, ocorre em meados do século XX, apresenta-se pela intensificação e desenvolvimento da automação industrial, da informática, da robótica, da microeletrônica, da engenharia genética, e diversas outras inovações tecnologicas e métodos produtivos.

            A indústria tornou-se o objeto de desejo e o paradigma ideal de desenvolvimento econômico de diversas populações, empresários e governantes. Isto pode ser evidenciado no Brasil contemporâneo, em que industrialização passou a ser sinônimo de emprego.

            Em referência a industrialização brasileira, este processo teve inicio de forma sistematica, com as ações de Irineu Evangelista de Sousa, Barão e depois Visconde de Mauá, conforme exposto por Caldeira (1995). Mauá instalou o “Estaleiro de Ponta da Areia”, adquirido por ele em 11 de Agosto de 1846 e transformado na primeira industria moderna brasileira, construiu também a primeira ferrovia brasileira ligando o Rio de Janeiro até Petrópolis, estendeu o primeiro cabo submarino ligando o Brasil à Europa, entre tantas outras realizações. Ponta da Areia foi um marco na industrialização do Brasil, não somente construindo navios, mas colaborando coma mecanização da produção brasileira em diversos setores:

“(...) Não demorou muito para que dali começasse a sair algumas inovações que seu dono julgava adequadas ao mercado brasileiro: engenhos de açúcar completos movidos a vapor, bem mais produtivos que os toscos mecanismos tocados por bois e rodas d’água em uso no país; pontes de ferro que podiam ser montadas em pouco tempo mesmo nos rios mais largos; canhões de bronze para os navios de guerra; navios a vapor completos; fornos siderúrgicos e bombas de sucção (...) a Ponta da Areia provava o valor da iniciativa individual como caminho para o desenvolvimento.” (CALDEIRA, 1995, p.191-192)

------------------------------------------------------------------

-----------------------------------------------------------------------------------

 

CALDEIRA, Jorge. Mauá, Empresário do Império, São Paulo, Companhia das Letras, 1ª edição, 1995;

COSTA, Samuel Guimarães da. A Erva-Mate. Curitiba: Farol do Saber, 1995;

IANNONE, Roberto Antonio. Revolução Industrial, São Paulo: Editora Moderna, 7ª ediçào, 1995;

 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

ORIGENS DO CONSUMO E DA PRODUÇÃO DE ERVA-MATE

Prof.Me. Roberto Bondarik

bondarik@utfpr.edu.br

            De acordo com Costa (1995) o perfume que pode ser considerado como característico do Paraná Tradicional é o aroma exalado pela erva-mate. Seria muito difícil considera como exagero a afirmação de que o ciclo representado pela erva-mate na História do Paraná, revestiu-se de uma importância bastante elevada. Esse ciclo conviveu com outro também importante que foi o do gado e do tropeirismo, vivenciado nos Campos Gerais.
            A erva-mate é uma arvore nativa das florestas paranaenses, chamada em outros tempos de Congonha, a erva-mate (Ilex paraguariensis) é consumida pelos indígenas paranaenses e do Sul, em forma de “chimarrão” desde um período bem anterior à chegada dos brancos europeus. Conforme Gomes (1953) os índios a chamavam de “caa”, e os espanhóis já a conheciam quando fundaram as cidades guairenses de Ciudad Real Del Guairá e Vila Rica do Espírito Santo, ambas em território atualmente paranaense.
O uso do mate é conhecido desde as chegadas dos colonizadores no Brasil e no Paraguai. As primeiras notícias concretas datam de 1541. os documentos falam de uma bebida usada pelos nativos na região do Guairá, como verdadeiro vício. (...) o hábito se generalizou desde o peru ao Rio da Prata.” (COSTA, 1995, p. 35)

            A difusão do consumo da erva-mate, em forma de chimarrão pela região platina, ainda segundo Costa, deve-se a uma série de fatores, sendo que alguns podem ser apontados:
a)     Necessidade de melhorar o sabor da água salobra (salgada) misturando-a com folhas da erva;
b)     Ausência de outras culturas alimentares para atender o vaqueiro ou boiadeiro em longas caminhadas;
c)      Pouca disponibilidade de alimentos, o consumo da erva-mate elimina a sensação de fome, devido aos seus nutrientes.

            Os padres jesuítas das reduções espanholas do Guairá chamavam-na de “erva do diabo”, conforme Wachowicz (1988), devido ao fato de que os índios atribuíam-lhe influências consideráveis sobre as suas emoções inclusive sobre aspectos sexuais (erotismo e virilidade). É certo que os jesuítas espanhóis acabaram por proibir seu consumo por um considerável tempo. Porém a interdição religiosa não foi suficiente para diminuir o consumo e arrefecer os hábitos já seculares da população. O consumo da erva-mate, a exemplo do tabaco, foi um habito indígena que passou a fazer parte da rotina dos brancos, portugueses e espanhóis, conquistadores. Não havia casas de espanhóis nem ranchos de índios onde não fosse bebida. Os bandeirantes levaram seu consumo aos portugueses, o chimarrão tornou-se por tempos também, um hábito paulista. Há que se lembrar que o Paraná fez parte da Província de São Paulo até 1853. Paranaenses dos três planaltos aprenderam a fazer uso do chimarrão. Seu consumo hoje é considerável em diversos paises na região do Rio da Prata, Argentina, Paraguai, Uruguai, Brasil (consumo de diversas formas) e também Chile e Bolívia.
            De acordo com Costa (1985) os ervais se estendem pelo Estado até o Rio Paraná, penetrando no Mato Grosso do Sul. Adentra por santa Catarina, sempre longe do litoral, atinge a região de serras no Rio Grande do Sul. Estende-se ainda pela Argentina e Paraguai.
A região do alto Paraná foi a primeira a produzir e negociar com a erva-mate, em especial devido à facilidade do transporte pelos rios Paraná, Paraguai e Prata. Devido à instabilidade política nessa região produtora, os consumidores começaram a se voltar para o atual Estado do Paraná e Santa Catarina. Os ervais nativos dessas regiões passaram a suprir as necessidades de consumo que existiam na Argentina, Uruguai e Chile, sendo que a extração ocorria já no Paraná desde o século XVIII, quando o governo português demonstrou seu interesse por essa atividade econômica.
            A extração das folhas de erva-mate, não era muito complexa, porem exigia trabalho sistemático e pontual dentro da mata:
O corte ou poda das erveiras é feito manualmente com facão ou foice. Existem arvores com mais de doze metros de altura. Geralmente o corte é realizado por homens, sendo que mulheres e crianças ficam reunindo os galhos cortados em feixes que serão levados para a operação do sapeco. O corte mutila, mas não prejudica a árvore que levará de até cinco anos para se regenerar e sofrer novo processo de corte. O sapeco é feito sobre fogo, a ação rápida das labaredas faz com que as folhas percam parte de sua umidade, evitando que ela escureça e adquira um sabor desagradável. Após isso a erva é submetida a uma secagem que dura de dez a doze horas, em instalações de calor intenso, como um forno e sem contato com a fumaça. Terminada a secagem, a erva é triturada e fragmentada, depois peneirada. A atividade do produtor local termina com o peneiramento da erva-mate, que assim se constitui na matéria-prima para os engenhos de beneficiamento”. (COSTA, 1995, p. 26-27).

            O inicio das atividades industriais no Paraná será justamente com o beneficiamento desta erva-mate extraída e preparada nos ervais, nos engenhos que começaram a funcionar no século XIX.
--------------------------------------------------------------------------
CALDEIRA, Jorge. Mauá, Empresário do Império, São Paulo, Companhia das Letras, 1ª edição, 1995;
COSTA, Samuel Guimarães da. A Erva-Mate. Curitiba: Farol do Saber, 1995;

domingo, 27 de junho de 2010

O TUMULO DE CREUZINHA

Túmulo de Creuzinha no Cemitério de Cornélio Procópio.

Com 4 ou 5 anos de idade Creuzinha foi violentada e morta há mais ou menos 45 anos por um andarilho.
A prisão do criminoso e uma entrevista concedida por ele a uma rádio local revoltou a população de Cornélio Procópio que ao final de uma tarde reuniu-se diante do prédio da Delegacia de Policia e exigia que os policiais entregassem o criminoso para ser justiçado e linchado pelo povo.
O delegado que já havia transferido o andarilho para Jacarezinho ou Cambará reagiu ao cerco e a pressão da população mobilizando a força policial que dispunha.
O desentendimento entre as pessoas na escadaria da Delegacia e os policiais fez com esses atirassem atingindo e matando diversos populares.
Foi um massacre que marcou a história da cidade. 
Houve repercussão inclusive em Brasilia, o Governador do Estado do Paraná àquela época, Ney Aminthas de Barros Braga, foi chamado à Capital Federal para explicar-se. Formou-se um movimento de opositores que queriam a sua destituição. 
Honrosamente o Deputado Federal por Cornélio Procópio, Dr. Paulo Pimenta Montans que era do partido de oposição a Ney Braga no Paraná, foi a tribuna da Câmara dos Deputados e explicou, com base nas informações de seus familiares que estavam em Cornélio e testemunharam o incidente, que o Governador nada poderia ter com o caso. 
Diante da situação os dois politicos opositores tornaram-se amigos e pelo menos nos aniversários de cada um trocavam efusivos telefonemas de congratulações.


Placas com mensagens de agradecimento

Com o tempo histórias sobre milagres atribuídos a menina assassinada, conhecida hoje apenas por Creuzinha começaram a ganhar corpo entre as pessoas. Graças lhe foram atribuídas e ex-votos começaram a ser deixados em seu pequeno túmulo localizado na parte baixa do Cemitério da Saudade em Cornélio Procópio.
Crianças que vão mal nos estudos lhe fazem promessas de ir rezar em sua sepultura e lá deixam material de escola como agradecimento e lembrança pelo sucesso alcançado e que atribuem a santinha procopense. Algum fiel reformou recentemente o tumulo, revestindo-o de granito, placas de bronze com agradecimentos foram nele afixadas, brinquedos e roupinhas de crianças também ali foram deixadas.
Estou juntando histórias sobre essa santinha procopense, sua vida, sua morte, o tumulto da Delegacia e em breve publico mais.

Que descanse em paz Creuzinha depois de tanto sofrer, rogai por todos nós degredados filhos de Eva!



JESUITAS E ÍNDIOS: MISSÕES IMPOSSIVEIS

Retirei este texto do site da Revista Aventuras na História, publicada pela Editora Abril. Ele trata das Missões dos Jesuítas no Paraná e no Rio Grande do Sul e a ação dos Bandeirantes Paulistas em conquistar essas reduções, capturando seus habitantes indígenas para vende-los como escravos. O original encontra-se neste endereço: http://historia.abril.com.br/religiao/jesuitas-indios-missoes-impossiveis-452275.shtml não deixem de conferir no site e também ler a edição de banca, impressa e bem feita.

 

JESUÍTAS E ÍNDIOS: MISSÕES IMPOSSÍVEIS

 

Durante 140 anos, no sul do Brasil, índios guaranis e padres jesuítas viveram uma experiência utópica que terminou com o massacre de 100 mil índios       em pleno século 17

 
por Luís Augusto Fischer

 

Você olha para o mundo de hoje e vê: montes de desempregados sem perspectiva de trabalho; crianças sem escola nem lugar para dormir, descartadas do mundo. Milhões sem acesso à mínima educação, menos ainda à arte e à cultura. Fome de um lado, superabundância do outro. Guerras em nome de interesses privadíssimos.

Dispondo de indignação moral, mesmo que de pouca, qualquer um tem vontade de fazer alguma coisa, nem que seja apenas sonhar com um mundo menos injusto. Por exemplo: uma sociedade de pleno emprego, em que não haja as vergonhosas filas nas madrugadas à procura de uma empreguinho humilhante. Escola e saúde para todo mundo, crianças bem tratadas, com sala de aula, roupa, atenção. Ninguém com fome e ninguém com riqueza acumulada para ostentação. Progresso tecnológico, desenvolvimento artístico, alfabetização para todos.

Todos nós brasileiros já ouvimos falar no colégio que essa utopia igualitária já existiu. Floresceu por décadas, antes de ser destruída em uma guerra pra lá de violenta, bárbara. Foi a realização dessa utopia, conhecida genericamente como Missões, que levou o historiador Décio Freitas a um de seus mais conhecidos livros, publicado pela primeira vez em 1982, quando a miséria brasileira nem era tão explícita quanto agora, quando mal saíamos da ditadura militar e buscávamos alternativas de futuro, quando fazia o maior sentido retomar experiências luminosas do passado para confrontar a obscuridade do presente.

Com o nome de O Socialismo Missioneiro, o livro fazia uma descrição engajada (nunca neutra) do passado das Missões. Eram os anos finais do regime militar instalado em 1964, dois antes da campanha por eleições diretas para presidente, eleição que só se realizaria muito depois, em 1989, e sete anos antes da queda do muro de Berlim, o fim simbólico da experiência comunista, que na época se chamava de “socialismo real”, em oposição ao socialismo teórico. Por mais estranho que isso possa parecer hoje, em 1982 a discussão sobre o socialismo estava viva. E, mais ainda, no Brasil ela era patrocinada em grande medida por grupos políticos nascidos dentro da Igreja Católica.

O livro de Décio entrava nessa disputa conceitual, mas a partir de uma experiência remotíssima – a ainda hoje impressionante – de organização social, econômica, política e cultural protagonizada por índios guaranis e por padres jesuítas, entre os anos 1610 e 1750, no sul do Brasil. Uma parceria que dera certo, segundo Décio, porque os índios encontraram nas Missões uma estrutura viável para sua sobrevivência, ao passo que os religiosos realizaram nelas uma das aspirações primitivas de todo o cristianismo – a restauração de certo modo solidário de viver e ser, em que todos trabalham e repartem as riquezas.

Longe de ser um consenso, essa visão causa arrepios a muitos historiadores e antropólogos dispostos a atacar os efeitos do trabalho dos padres, que aculturaram os guaranis, impondo-lhes modos de vida e pensamento estranhos à sua história. As Missões, também chamadas “reduções”, sujeitaram o índio, que passou a viver em vilas organizadas, a praticar a monogamia, a trabalhar em horários certos, a prover o futuro de médio prazo, a ser católico.

O outro lado lembra, porém, coisas positivas: se a questão era preservar a cultura dos índios, ele diz que os jesuítas fizeram isso: aprenderam seu idioma, descreveram sua gramática e, com ela, ensinaram futuras gerações. E mais: se as Missões sujeitavam os índios antes livres, caçadores, poligâmicos, que plantavam somente o que comeriam nos tempos imediatos, sem preocupação com o futuro, elas também significaram uma alternativa concreta de vida. Fora delas, o que aconteceu realmente com os guaranis e outros tantos povos indígenas? Foram exterminados, regra geral, ou se aculturaram na marra, passando a viver a vida dos brancos sem a menor chance de preservar o que quer que fosse.

Décio Freitas, comprador das boas brigas, sabia de tudo isso quando escreveu seu livro. Levando em conta toda essa polêmica, descreveu o processo histórico com cautela e estratégia. Assim, nos primeiros capítulos fez um detalhado cenário dos séculos 17 e 18, período em que as Coroas portuguesa e espanhola não tinham a menor idéia de quais eram realmente os limites de seus territórios no miolo da América do Sul. Depois descreve os personagens envolvidos na trama: a Coroa espanhola, os guaranis e os jesuítas.

À Coroa interessava expandir os limites das terras sob seu comando e, quem sabe, forjar uma saída para o Atlântico, passando sobre o que hoje são Santa Catarina e Paraná. Os guaranis, menos um povo e mais um “mosaico étnico”, eram coletores e caçadores, tendo pouca prática na agricultura permanente. Constituíam uma sociedade sem classes, vivendo num comunismo primitivo e ameaçados pela chegada dos espanhóis, de quem só podiam esperar a escravidão. Os jesuítas, de sua parte, queriam evangelizar os índios. Para isso, era preciso conservá-los livres. Nunca se confirmaram as suspeitas de que tivessem interesse econômico específico, como acumular riquezas em proveito próprio – embora a Companhia de Jesus tenha sido acusada, mais de uma vez, de acalentar o projeto de um Estado teocrático.

Com a instalação das Missões, a Coroa ganharia o território e os impostos, os jesuítas teriam sua prática catequética realizada e, mais ainda, os guaranis teriam três ganhos – viriam a experimentar um salto tecnológico extraordinário, nas práticas agrícolas e no aprendizado de técnicas artesanais e industriais, manteriam uma condição de liberdade superior à que teriam se fossem submetidos à escravidão e não precisariam mudar algumas marcas essencias de seu modo de vida, preservando sua língua, por exemplo. Com essa análise, Décio defende uma tese inquietante: feitas as contas, os guaranis não teriam sido um elemento passivo na concepção e na construção das Missões, pelo contrário. Sua vontade coincidiu com a dos padres e da Coroa espanhola, naquele momento.

Para entender melhor essa longa convivência, de quase um século e meio, é preciso voltar ao início, por volta de 1610, quando as primeiras reduções foram estabelecidas, no atual limite entre o Paraguai e o estado brasileiro do Paraná. Os índios das Missões, cujos humores guerreiros haviam sido abrandados pelo cristianismo, viraram presas fáceis dos bandeirantes oriundos de São Paulo que corriam o sul em busca de riquezas e de mão-de-obra escrava.

Para garantir segurança, era preciso ir mais longe. Os jesuítas arregimentaram os índios que sobraram e empreenderam uma longa jornada rumo ao sul, correndo ao longo do rio Paraguai. Chegando ao atual norte da Argentina e noroeste do estado do Rio Grande do Sul, guaranis e jesuítas fundaram e fizeram prosperar nada menos que 30 povoamentos, que alcançaram uma população espantosa para a época – em 1736, seriam mais de 102 mil indivíduos. Para comparar: em 1740, a maior cidade brasileira, Ouro Preto, tinha uma população de 50 mil pessoas e a maior cidade da América, o México, tinha 70 mil.

As terras ocupadas pelos 30 povos pertenciam à Espanha (apenas sete deles ficavam à esquerda do rio Uruguai, em território que viria a ser brasileiro), mas a perseguição dos bandeirantes não conhecia fronteiras. Em 1641, numa batalha perto do rio Mbororé, os guaranis resistiram com canhões feitos de grandes taquaras amarradas com couro e expulsaram os aventureiros.

A Coroa portuguesa mal sabia o que fazer, e na prática a única ação de gente lusa ali era a dos bandeirantes. Mas a civilização jesuítico-guarani começou a ser desmanchada não pelos bandeirantes, mas pelas Coroas, em 1750. Naquele ano, foi assinado o Tratado de Madri, pelo qual Portugal abria mão da Colônia de Sacramento, pequeno mas importante porto fundado em 1680 na beira do rio da Prata, exatamente em frente a Buenos Aires, e a Espanha cedia a região à margem esquerda do rio Uruguai – exatamente a localização dos sete famosos e malditos Povos que ficam em território hoje gaúcho. Era a primeira reconfiguração legal do já antigo Tratado de Tordesilhas, que ainda no século 15 tinha destinado a Portugal apenas o litoral atlântico.

Para Décio, a atitude da Espanha era criminosa em mais de um aspecto, mas especialmente porque as Missões não eram agrupamentos irregulares e, pelo contrário, recolhiam impostos adequadamente, prestavam subordinação ao rei, forneciam homens para tarefas as mais variadas (guerras, mas também construção de igrejas em outras partes do território hoje argentino etc.). Quer dizer: os guaranis, com os jesuítas, eram súditos leais à Coroa espanhola. Isso sem contar o fato trivial de que eram nativos da América, e portanto viviam aqui desde tempos remotíssimos.

Passados para domínio português, os padres e índios tiveram de deixar as Missões. Os índios resistiram ainda depois de os jesuítas terem aceitado a transferência imposta por Madri. Mas foram chacinados, em guerra sistemática e moderna, comandada por Gomes Freire de Andrade, figura que ganhou um enorme elogio literário em O Uraguai, poema épico de Basílio da Gama que perpetuou uma interpretação ufanista, pró-lusitana e antijesuítica. Décio diz que os padres “imaginaram erroneamente que a própria Companhia de Jesus, um dos baluartes do colonialismo, permitiria que ultrapassassem os limites dos interesses do colonialismo”. Em compensação, “as alternativas do colonialismo não deram melhor resultado: produziram, simplesmente, a genocida extinção dos guaranis”, escreveu.

A terceira edição do livro mudou de nome. Passou a chamar-se Missões – Crônica de um Genocídio. Já estávamos em 1997, e o autor sabia que não valia a pena reiterar nos mesmos termos o debate sobre a natureza eventualmente socialista utópica do episódio missioneiro. (Mas talvez pudesse ter acrescentado calor à conversa, lembrando que o último local nominalmente socialista, Cuba, é dirigido por um sujeito que aprendeu muito com os padres jesuítas.) Preferindo a denúncia do massacre desde o título, como a mostrar o crime histórico cometido ali contra uma população civil como noutros tempos ocorreria em Canudos, no Contestado ou em Palmares, Décio Freitas usa em seu ensaio da melhor verve de promotor público, mobilizando sua mais vibrante retórica para lembrar que a história não pode ser negligenciada.

 

JOHN HENRY ELLIOT

Estou pesquisando sobre esse norte-americano que trabalhou como mapista, piloto de expedições e explorador do “Sertão do Tibagi” para o Barão de Antonina bem na metade do século XIX.
Encontrei muita informações sobre ele. Um personagem da história paranaense que bem mereceria um livro ou algo mais.


 BBB11 - cenas censuradas talula 

sábado, 26 de junho de 2010

BLOG HISTÓRIA E INFORMAÇÃO ------ DE CARA E FORMATO NOVOS !!!!!!!!!!

Mudei o desenho, as letras, o projeto, as cores do Blog, acho que agora ele ficou mais moderno, espero que gostem!

Opiniões e questionamentos a respeito das postagens e do conteúdo podem ser direcionadas ao e-mail: bondarik@utfpr.edu.br

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A EFETIVAÇÃO DA REVOLUÇÃO DE 1930

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
            

           Iniciada em 03 de outubro de 1930 com a tomada do Quartel General do Exercito em Porto Alegre, a Revolução tomou conta da totalidade ds unidades do Exercito no Rio Grande do Sul. Segundo McCann (2007) o Exercito teve a sua cadeia de comando desestruturada e solapada. Cerca de oitenta e dois por cento dos oficiais aderiram ao movimento no estado. Um fator importante que deve ser levado em conta é que nos quartéis do Rio Grande a maioria dos soldados e sargentos que lá serviam era da própria região. Estes homens rejeitaram a idéia de lutar entre si e a idéia de vingar o ultraje a honra gaucha ofendida com a eleição presidencial, um desejo latente. Vitoriosos no rio Grande do Sul, resistindo em Minas Gerais e avançando pelo Nordeste a partir da Paraíba, os revolucionários passaram a visar a capital da República, a cidade do Rio de Janeiro. Do Rio Grande do Sul os revolucionários partiram em direção a São Paulo. Para Bueno (2003) a Revolução de 1930 não foi uma parada militar como havia sido a Proclamação da República.
            Pela Ferrovia São Paulo – Rio Grande do Sul os revolucionários gaúchos seguiram até Porto União. As unidades militares federais do Estado do Paraná se rebelaram e derrubaram o Governo Estadual. De Ponta Grossa os revolucionários, engrossados pelas unidades paranaenses do Exercito, Policia e voluntários seguiram para as divisas de São Paulo, região onde um impasse marcado por combates se manteve até 24 de outubro de 1930.
As tropas gauchas, partindo de trem e a cavalo de Porto Alegre, não conseguiram conquistar Florianópolis (que só se renderia em 24 de outubro), mas tomaram Joinville e, a seguir, Góis Monteiro instalou o quartel-general dos rebeldes em Ponta Grossa (BUENO, 2003, p.325).

            Em Minas Gerais, devido em parte às características especiais das tropas ali estacionadas, cujos soldados em sua maioria eram de fora do Estado, os revolucionários não obtiveram  o mesmo sucesso do Rio Grande do Sul. A condição mineira preocupava as lideranças revolucionárias envolvidas na região.
O veterano tenente Osvaldo Cordeiro de Farias coordenava a atividade rebelde naquele estado, mas como era apenas primeiro-tenente, o comando era exercido pelo irmão do falecido João Pessoa, tenente-coronel Aristarcho Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Não conseguiram trazer para o seu lado nenhuma das guarnições federais (MCCANN, 2007, p.376).

            Basicamente as forças revolucionárias em Minas Gerais eram formadas pela Força Pública do Estado (Policia Militar) e principalmente por civis que haviam sido recrutados e armados por chefes políticos locais. Mesmo assim os rebeldes obtiveram muitos sucessos e conseguiram manter a Revolução pelo tempo necessário para que obtivessem a vitória do movimento. Algumas unidades do Exercito resistiram por diversos dias até que as suas forças se esvaíssem.
            No Nordeste ocorreu sucesso semelhante e segundo McCann (2007) as resistências foram vencidas em três dias. Nesta região elem do Exercito, unidades dos Tiros de Guerra, como o do Recife, aderiram à Revolução rapidamente.
            Com posições consolidadas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e na maior parte do Nordeste, Getúlio Vargas sentiu-se seguro para seguir ao teatro de operações deflagrado no Paraná. Partiu de Porto Alegre em 12 de outubro e chegou a Ponta Grossa no dia 17, acontecimentos celebrados apoteoticamente pela população. Segundo Bueno (2003) neste momento a Revolução ainda não estava ganha, a barreira representada por Itararé em São Paulo e pelo Vale do Paranapanema mais ao norte na divisa deste com o Paraná precisavam ser vencidas.
            O interesse do comandante do Estado Maior Revolucionário, Góis Monteiro, dos oficiais do exercito regular que aderiram ao movimento e dos Tenentes, não era, segundo McCann (2007) destruir materialmente o Exercito brasileiro. Suas intenções eram conquistar o completo controle sobre a força terrestre nacional. Desta forma Itararé revelou-se um impasse a ser subjugado e vencido.
Itararé (SP), na fronteira com o Paraná, mais de 6 mil soldados legalistas, comandados por Pais de Andrade e com o apoio de aviões e quatro canhões, aguardavam a hora do choque contra os 8 mil rebeldes, que tinham 18 canhões. Andrade, aquartelado num penhasco à beira de um rio, recebera as ordens de “defender a cidade a todo o transe”. Previa-se um terrível combate. No dia 24, porém, ao serem informados de que Washington Luís fora deposto, no Rio, os legalistas se renderam (BUENO, 2003, p.325).

            Se a batalha tivesse ocorrido, com grandes probabilidades a Revolução seria ainda assim, vitoriosa. Porém, o custo material, humano e político seria muito mais elevados, ao ponto de, segundo Bueno (2003) de mudar os rumos da história do Brasil de forma bastante diversa do que ocorreu.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

EM TEMPOS DE COPA DO MUNDO - O FUTEBOL EM UMA POESIA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE ...

A poesia completa está no livro “Quando É Dia de Futebol” (Ed. Record).

“Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.

A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.

São vôos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
- afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.”

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 1 de junho de 2010

Colégio Estadual "Cristo Rei" Ensino Normal - Cornélio Procópio - Estado do Paraná

Por muitos anos atuei como professor na rede estadual de educação do Paraná. Comecei em um já longínquo mês de Março de 1991, dando aula para uma turma de magistério, era um segundo ano a minha primeira turma de alunos. Agora em 31 de Maio de 2010 encerro minha participação nesta mesma rede, por coincidência também em um curso de magistério, um dos últimos a funcionar ainda no Estado do Paraná.
O Colégio Estadual "Cristo Rei" Ensino Normal, instalado em Cornélio Procópio é de longe a melhor instituição de ensino médio estadual nesta cidade, os exames do ENEM o provam de forma inconteste. Me orgulha muito ter participado da história desse Colégio que muito honra a educação pública, e a honra incutindo-lhe qualidade em prol de seu corpo discente, alunas em sua imensa maioria.

domingo, 30 de maio de 2010

Patria Redimida - Filme - Reportagem - Documentário da Revolução de 1930 no Paraná

No último sábado o programa de TV "Meu Paraná" da Rede Paranaense de Comunicação / Rede Globo, foi sobre o cinema paranaense. Nele foi mostrado um filme, "PÁTRIA REDIMIDA"  ou  "POR UMA PÁTRIA REDIMIDA", conforme encontrei na internet, o importante é que ele foi rodado pelo cineasta curitibano JOÃO BAPTISTA GROFF que procurou mostrar todos os aspectos da Revolução de 1930, aliás aspectos que ele próprio vivenciava como espectador e cidadão envolvido na realidade que o cercava.
Procurei no Youtube e encontrei o filme dividido em partes, copiei os links e os postei logo abaixo.
Trata-se de um documento histórico sem comparações, pois mostra os personagens históricos interagindo, as tropas se movimentando, algumas até fazendo simulações para o cineasta.
Sem duvidas Groff preparou um monumento para a história neste seu "cine jornal" de uma realidade sem par.

Pátria Redimida – Parte 01
Pátria Redimida – Parte 02
Pátria Redimida – Parte 03
Pátria Redimida – Parte 04
Pátria Redimida – Parte 05
http://www.youtube.com/watch?v=2DJp7pIBzgE
Pátria Redimida – Parte 06 - Final

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Expedicionário Eurides Fernandes do Nascimento

A principal Praça em Quatiguá, chamada durante muito tempo simplesmente de “Jardim”, foi batizada com o nome do Expedicionário Eurides Fernandes do Nascimento. Quatiguaense que fez parte da Força Expedicionária Brasileira (FEB), daí o termo “expedicionário”, que lutou durante a Segunda Guerra Mundial na Itália.
Monumento diante do Museu do Expedicionário em Curitiba-Paraná,
listando o nome de todos os militares paranaenses que morreram
em ação pela FEB na Itália nos anos de 1944-45
(Foto: Prof.Me. Roberto Bondarik) 

A FEB combateu os alemães nazistas nos anos de 1944 e 1945, após ser preparada para isso por um bom tempo.

Eurides Fernandes do Nascimento era filho Manoel Fernandes do Nascimento e Eugenia M. de Jesus. Como soldado do Exercito, classe de 1921, foi incorporado ao 6º Regimento de Infantaria de Caçapava, Estado de São Paulo, também chamado de Regimento Ipiranga. Diga-se de passagem foi a unidade que enfrentou as piores situações, o maior número de missões e teve dentro da FEB as maior es baixas.
O Regimento de Eurides embarcou para a Itália com o Primeiro Escalão da FEB em 30 de junho de 1944. O 6º RI lutou no Vale do Rio Serchio em setembro e outubro daquele ano. Em novembro atingiram o Vale do Rio Reno (Itália). Em 09 de Novembro o General Mascarenhas de Moraes assumiu o comando de toda a FEB, em Marano. Apesar da crônica militar ter registrado que aquele foi um dia calmo, foi nele que faleceu o expedicionário quatiguaense.
Eurides Fernandes do Nascimento identidade militar IG-289976, morreu em ação próximo a Marano, era o dia 09 de Novembro de 1944. Recebeu postumamente as Medalhas de “Campanha da Itália”, como todo expedicionário que participou da luta, “Sangue do Brasil” entregue àqueles que receberam ferimentos e por fim a “Cruz de Combate de 2ª Classe”.

É esta ultima medalha que nos faz imaginar como teria sido a ação que resultou em sua morte. O decreto que a concedeu registra que esta condecoração foi lhe dada “Por uma ação de feito excepcional na Campanha da Itália”. A Cruz de Combate de 1ª Classe era atribuída a feitos individuais e a de 2ª Classe a feitos coletivos. Morreu combatendo junto com sua tropa. Ainda não possuo maiores informações sobre como isso se deu, pretendo levantar esses dados nos arquivos pertinentes.
Museu do Expedicionário em Curitiba, ao lado dos mastros
das bandeiras o monumento com a lápide dos nomes
dos paranaenses mortos em combate na Itália
(Foto: Roberto Bondarik - Janeiro de 2010)


O corpo de Eurides foi sepultado no Cemitério da FEB em Pistóia, local de onde seriam transladados anos depois para o monumento construído no Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro.
A Praça em Quatiguá não possui então os restos mortais desse expedicionário, sendo apenas o seu nome uma homenagem a ele. No monumento no centro do Jardim estão sepultadas as ossadas de combatentes paulistas e gaúchos que lutaram em morreram em Quatiguá nos dias 12 e 13 de Outubro de 1930.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

História no Fundo do Rio e no Fundo do Baú

Em 16 de Agosto a FOLHA DE LONDRINA publicou reportagem sobre o resgate de alguns barcos naufragados no Rio Paraná durante a ação tenentista no Oeste do Estado durante os anos de 1924 e 1925. Foi uma reportagem muito salutar e que me fez reler alguns documentos e livros sobre esse conjunto de acontecimentos tão poucos conhecidos e discutidos dentro da história da historiografia paranaense e também brasileira. Uma breve pesquisa que me obriga agora a tecer algumas considerações.
A denominação “Tenentes” era genérica, e por ela ficaram conhecidos os oficiais de baixa patente do Exercito e da Força Pública de São Paulo que se rebelaram contra o presidente da República Arthur Bernardes. Durante quase dez anos o Brasil foi agitado por revoltas e lutas em que os tenentes se envolveram, desde o episódio dos 18 do Forte de Copacabana em 1922, até a Revolução de 1930 e a Revolução Paulista de 1932.
A relação dos Tenentes com o Oeste do Paraná teve inicio após a sua retirada já como revolucionários e que se encontravam em luta contra as forças da Governo Federal em São Paulo durante o mês de Julho de 1924. Neste mês a capital paulista foi cenário de uma violenta guerra urbana, cargas de infantaria, duelos de artilharia, bombardeios aéreos que mataram civis e militares, como não poderia deixar de ser, um imenso numero de refugiados civis viram-se obrigados a fugir para Sorocaba e Campinas principalmente.
A Revolução de 1924 em São Paulo representa toda uma conjuntura de lutas que depõe contra a tradição de que nossa evolução histórica, em especial no século XX foi pacifica e cordata. Diante da oposição governista que estava levando à destruição eminente da cidade, o General Isidoro Dias Lopes, líder desta Revolução, resolveu movimentar as suas forças para o interior de São Paulo.
Os revolucionários se retiraram pelas ferrovias em direção ao Oeste Paulista e a Mato Grosso, mas fracassam na invasão daquele Estado e resolvem então descer o Rio Paraná até Guaira e Foz do Iguaçu, onde pretender instalar o seu “Estado Livre do Sul” e aguardar reforços de revolucionários gaúchos que seriam liderados por Luis Carlos Prestes. Assim foi feito e a Coluna Paulista da Revolução se estabeleceu na região.
Para garantir o avanço dos gaúchos que se viram obrigados à atravessar o Oeste Catarinense praticamente sem estradas e a pé pelo meio da mata fechada, os revolucionários da Coluna Paulista empreenderam vários combates. Posso afirmar que, ao contrario do relatado na reportagem, Joaquim Távora não participou dos combates de Catanduvas, na Serra de Medeiros, onde lutaram principalmente rebeldes da Força Pública de São Paulo contra as tropas do General Candido Rondon.
Na luta verificada em Catanduvas, destacou-se o tenente revolucionário, oficial da Força Pública de São Paulo, João Cabanas e neste local um memorial comemorativo esta para ser edificado. Joaquim Távora morreu em 19 de julho de 1924 e foi sepultado no Cemitério de Santana em São Paulo após ser ferido em combate de rua. Quem combateu no Oeste paranaense foi Juarez Távora, seu irmão, que conseguiu grande reputação como líder tenentista. É o próprio Juarez quem relata isso em suas memórias (“Juarez Távora: Uma Vida e Muitas Lutas” – Editora José Olympio). Joaquim Távora teve seu nome ligado definitivamente ao Paraná, quando atribuído a então localidade de Affonso Camargo, nome do então Presidente do Estado do Paraná em 1930 e que possuia nesta localidade uma serraria. Outro tenente revolucionário morto em 1930 teve seu nome ligado a mesma região, Siqueira Campos, líder dos “Dezoito do Forte de Copacabana” em 1922, batizando a antiga Colônia Mineira, hoje ambos são município vizinhos no Norte Pioneiro.
O combate em Catanduvas durou quase seis meses e precisou de todo o esforço do governo para derrotar os rebeldes, quando isso ocorreu dizia-se que a principal praça forte da Revolução havia caído. Domingos Meirelles relata isso em “As Noites das Grandes Fogueiras”. Prestes demorou três meses para chegar ao Paraná, a luta na região estava perdida já, porém os revolucionários não se consideravam derrotados. Retiram-se para o Paraguai e retornaram a Mato Grosso iniciando a Coluna Prestes-Miguel Costa que percorreu o Brasil lutando e divulgando a idéia da Revolução.
Curiosamente há a menção também sobre um Major Dilermando que não é outro senão Dilermando de Assis, quando cadete do Exercito ele teve um caso com a esposa de Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”. Quando o escritor foi tirar satisfações foi morto por Dilermando em um tiroteio, história fatídica contada em livro e na minissérie “Desejo”, da Rede Globo. A curiosidade sobre tal fato reside no centenário da morte de Euclides da Cunha, lembrado naquele final de semana em que a FOLHA apontou a atuação de Dilermando no Oeste do Paraná. Conforme Juarez Távora, este oficial foi obrigado a retirar-se de Guairá quando foi atacado por elementos da Coluna Revolucionária.
O Paraná sempre possuiu papel importante na história do Brasil, curiosamente um papel violento e pouco conhecido por sua população. Aos episódios de 1924-25 no Oeste do Paraná e em Catanduvas, soma-se ainda o Cerco da Lapa em 1894, a ocupação de Curitiba e Ponta Grossa pelos Federalistas, o assassínio covarde do Barão do Cerro Azul, primeiro paranaense agraciado com o título de herói nacional. Aliás foi o Barão o iniciador da moderna indústria paranaense.
Tivemos ainda a Guerra do Contestado, nosso Canudos particular. As ações da Revolução de 1930 merecem especial destaque pois se o Paraná não aderisse a mesma, a história do Brasil poderia ser outra diferente e mais sangrenta ainda. Em 1930 tivemos outros combates violentos em Quatiguá, Sengés e Vale da Ribeira.
Há muitas histórias ainda no fundo dos rios e dentro dos baús da memória para serem estudadas e contadas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

DOS APRENDIZES E ARTIFICES À UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA DO PARANÁ - CEM ANOS DE EDUCAÇÃO

Escrevi este texto para lembrar os Cem Anos da Criação da Escola de Aprendizes e Artifices do Paraná, ocorrida em 1909. Esta escola evoluiu e deixou de lado seu foco inicial, a educação de meninos pobres e abandonados, transformando-se na UTFPR em 2005. Esta é minha contribuição a esta lembrança.

(Prof.Msc. Roberto Bondarik)

-----------------------------------------------------------------------

A UTFPR talvez seja no Brasil o exemplo único de uma Universidade que possui em sua história a atuação em todos os graus e níveis de ensino, do fundamental ao doutorado. Sua trajetória essencialmente ligada ao ensino profissionalizante foi uma constante evolução na qualidade de seus préstimos, centrados no ensino público e com qualidade ela chega, como instituição, ao seu primeiro centenário, comemorado em conjunto com o Sistema Federal de Educação Profissional. Sua trajetória inicia-se em 23 de setembro de 1909, quando da criação da Escola de Aprendizes e Artífices em Curitiba. Escolas homônimas e congêneres foram instaladas em cada uma das outras 19 capitais estaduais pelo Brasil.

O objetivo desta escola em Curitiba era ensinar ofícios profissionais a crianças e jovens pobres, órfãos e até abandonados que viviam pelas ruas em situação que hoje chamaríamos de risco, mendigando e submetidos às necessidades da delinqüência. Os ofícios ensinados eram tipicamente urbanos, adequados às necessidades de mercado daquele tempo, voltados ao setor de prestação de serviços e também da incipiente indústria paranaense, ligada a erva-mate, madeira e suas atividades acessórias. Ministravam-se cursos de Alfaiataria, Serralheria, Marcenaria, Selaria, Pintura Ornamental e Sapataria, ofícios ensinados por mestres que eram práticos em suas atividades, detentores de uma formação muito simples, porém empírica. As oficinas procuravam replicar aquelas que existiam no mercado, era um aprendizado na pratica e a produção daí resultante quando vendida, reforçava o caixa e as finanças da Escola. Haviam ainda disciplinas de Instrução Elementar e Desenho Básico. O Governo do Estado auxiliava a incipiente Escola com professoras que em conjunto com o primeiro diretor, Paulo Ildefonso d` Assunção, trabalhavam com a alfabetização dos alunos. A Escola foi se consolidando mesmo com problemas crônicos como a falta de instalações adequadas e permanentes, a falta de preparação formal dos mestres e professores e a desistência de muitos alunos aos quais se oferecia alimentação para incentivar a permanência. Chegou a ser temporariamente fechada por epidemias que atingiam Curitiba, a exemplo da recente gripe H1N1 (Gripe Suína), como em 1917 quando uma epidemia de tifo provocou a morte de muitos alunos e mesmo de professores. Com o tempo a qualidade de seu trabalho foi se assentando em terreno fértil e capaz, como demonstram os seis prêmios recebidos por seus trabalhos apresentados na Exposição Internacional de Turim na Itália no ano de 1911.

Em 1937 passou a denominar-se Liceu Industrial de Curitiba, materializando a preocupação governamental do Estado Novo em proceder à mudança do perfil econômico do Brasil. Em 1942 o nome é novamente alterado, desta feita para Escola Técnica de Curitiba que passou no ano seguinte a ofertar cursos de Construção de Máquinas e Motores, Edificações, Desenho Técnico e Decoração de Interiores. O nome foi alterado para Escola Técnica Federal do Paraná em 1959. Aos poucos ocorre o estabelecimento do ensino de nível médio. Em 1978 o Governo Federal transforma a Escola Técnica em Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, com a sigla CEFET-PR que o tornaria nacionalmente conhecido. Passam a ser oferecidos cursos superiores, sendo os de Engenharia Industrial Elétrica e Tecnologia da Construção Civil, os pioneiros. Abriu-se caminho para a pós-graduação em nível de especialização, mestrado e doutorado.

As décadas de 1970 e 1980 foram marcantes social e economicamente para o Paraná, foi nesse período que a cafeicultura foi totalmente erradicada pela Geada Negra de 1975, provocando um êxodo ímpar em tempos de paz no Ocidente. Contingentes populacionais imensos deixaram a zona rural do Norte do Estado e passaram a buscar novos horizontes em outras regiões ou em grandes cidades. Curitiba passou a crescer de maneira intensa e a sua Cidade Industrial foi implantada gerando novas demandas urbanas, sociais e econômicas. Foi nesse contexto que de crise e transformações profundas que o CEFET-PR se consolidou.

Em 1986 a primeira expansão do CEFET-PR que passa a constituir uma rede pelo Estado. Os primeiros projetos de novas unidades em Cornélio Procópio e Medianeira são aprovados ainda naquele ano. Seguiram-se outras em Pato Branco, Ponta Grossa e Campo Mourão. Há que se destacar nesse processo o engajamento dessas localidades e o compromisso de suas prefeituras, vereadores e comunidade organizada em procurar prover as necessidades iniciais dessas unidades, acreditando na possibilidade de transformação de suas realidades por meio da educação e da qualificação profissional. Estas unidades entraram em funcionamento a partir do início da década de 1990. A transformação em Universidade Tecnológica Federal do Paraná, a primeira desse gênero a funcionar no Brasil, ocorreu em 07 de Outubro de 2005. Novos Campi foram instalados em Apucarana, Dois Vizinhos, Francisco Beltrão, Londrina, e Toledo, perfazendo onze localidades que ofertam cursos voltados ao atendimento de seus diversos arranjos produtivos.

Em seu centenário a UTFPR apresenta os seguintes números: Pós-Graduação, 2 doutorados, 9 mestrados e 60 especializações; Graduação, 28 cursos de Tecnologia, 22 cursos de Engenharia, 7 bacharelados, 4 licenciaturas e 2 bacharelados/licenciaturas; Nível Médio: 17 cursos Técnicos Integrados (três na modalidade de Educação de Jovens e Adultos - Proeja) e 1 curso Técnico Subseqüente. Sua comunidade interna evolve 1.393 professores (602 mestres e 340 doutores), 647 técnicos-administrativos e 16.019 alunos matriculados.

Sabemos que o desenvolvimento econômico depende de inúmeros fatores quer sejam políticos, sociais e culturais. A UTFPR insere-se no contexto do desenvolvimento paranaense como um elemento estrutural que procura por meio do ensino, da pesquisa e da extensão contribuir com a melhoria da qualidade do trabalho, da produção e consequentemente das condições de vida da população. Cabe a Universidade Tecnológica, a exemplo das demais existentes no Estado, auxiliar e potencializar as oportunidades percebidas nesta terra quer seja no presente, quer seja ao longo do caminho de mais um século de trabalho que se arvora em sua história. Uma missão a ser cumprida com o compromisso de evolução e progresso que pode ser identificado nesse seu primeiro centenário de dedicação e trabalho. Parabéns UTFPR e seus servidores e alunos atuais, passados e futuros, parabéns Paraná.


domingo, 13 de setembro de 2009

História Trazida a Tona ...

A FOLHA DE LONDRINA publicou esta reportagem no dia 16 de Agosto de 2009. Achei-a muito importante pois de certa forma remete ao tema que tenho pesquisado em meu trabalho. TRata de barcos retirados do fundo do Rio Paraná e que teria sido afundados durante as lutas ali ocorridas em 1924-1925 entre os revolucionarios que fariam a "Grande Marcha" liderados por Miguel Costa e tropas que defendiam a Legalidade da Republica Velha. Estou preparando um texto para enviar ao jornal quando for possível.

sábado, 12 de setembro de 2009

O COMBATE DE QUATIGUÁ

Apresentei este artigo no IV Congresso Internacional de História no dia 10 de Setembro de 2009.
Este Congresso foi promovido pela Universidade Estadual de Maringá.
Foi a primeira vez que se apresentou um artigo completo sobre o Combate de Quatiguá em um evento cientifico.
O artigo pode ser visualizado e impresso diretamente dos Anais do congresso pelo endereço < http://www.pph.uem.br/cih/anais/trabalhos/630.pdf >

Segue abaixo, na integra, o artigo como foi exposto:-------------------------------------------------
CONFRONTOS ARMADOS DA REVOLUÇÃO DE 1930 NO PARANÁ: O COMBATE DE QUATIGUÁ
Professor Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br


Docente da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR)
Docente do Quadro Próprio do Magistério da Secretaria de Estado da Educação (SEED)
(Colégio Estadual “Cristo Rei” Ensino Normal – Cornélio Procópio - Paraná)
Resumo: O presente artigo objetiva apresentar aspectos conjunturais da Revolução de 1930 no Estado do Paraná e em seu Norte Pioneiro, especificamente dos combates ocorridos em 12 e 13 de outubro daquele ano em Quatiguá e ao longo do Ramal Ferroviário do Paranapanema. Através da análise historiográfica, documental e memorialista, identificou-se que em 1930 o Paraná, economicamente em crise, ressentia-se da influência paulista em sua região norte. A adesão paranaense à revolução liderada por Getúlio Vargas a partir do Rio Grande do Sul foi rápida e decisiva. Em poucos dias os revolucionários ocuparam todo o Estado levando o conflito até as divisas com São Paulo. Com a reação legalista da União e governo paulista que enviou tropas ao território paranaense os confrontos armados ocorreram e o Combate de Quatiguá foi dos mais decisivos para a Revolução, nele lutaram tropas revolucionárias gauchas do Exercito e Brigada Militar contra tropas legalistas do Exercito e Força Pública de São Paulo. Constatou-se que não foi apenas um recontro, constituindo-se em uma luta violenta, organizada, evolvendo centenas de soldados de cada um dos lados e contando com artilharia. As tropas gauchas, vencedoras do embate, eram experientes, oriundas de um ciclo de revoltas regionais da década de 1920, alguns dos seus comandantes haviam participado da Coluna Prestes e do Movimento Tenentista e da Guerra do Contestado. Os gaúchos capturaram armas, caminhões, automóveis e material de campanha demonstrando a determinação em impedir a posse de Julio Prestes, eleito Presidente da República com o apoio oligárquico. A partir desta luta os defensores da legalidade colocaram-se em posição defensiva abrindo espaço para que se negociasse o fim da República Velha no Brasil e a ascensão Getúlio Vagas ao poder.
Palavras Chaves: Revolução de 1930; Combate de Quatiguá; História do Paraná.
1 – INTRODUÇÃO
O Estado do Paraná foi o cenário onde se decidiu o destino da Revolução de Outubro de 1930 com a concentração em seu território das principais forças rebeldes que pressionaram o Estado de São Paulo e o Governo Federal do Presidente Washington Luís. O chefe da Revolução, Getulio Vargas deslocou-se do Rio Grande do Sul e agua7rdou no Paraná, próximo das tropas, o desfecho do movimento que afinal sagrou-se vitorioso.
Considerado um território estratégico para o sucesso ou a contenção de uma rebelião iniciada no Rio Grande do Sul, o Estado do Paraná foi palco de diversos combates durante a Revolução de 1930. Iniciado este movimento tropas gaúchas avançaram rapidamente pela Ferrovia São Paulo – Rio Grande e dominaram em Santa Catarina todo o território do antigo Contestado parando em Porto União. As tropas do Exercito e da Policia do Paraná aderiram à Revolução e se aproximaram das divisas com São Paulo, que permaneceu fiel ao Governo Federal até o fim. Revolucionários gaúchos e paranaenses ocuparam posições em diversos pontos do Estado e desta movimentação resultaram alguns combates que se destacaram: Capela da Ribeira, Fazenda Morungava (Sengés-Pr / Itararé-Sp) e Quatiguá, no Norte Pioneiro.
Expor e analisar a conjuntura factual do Combate de Quatiguá, ocorrido nos dias 12 e 13 de Outubro de 1930 é o objetivo principal deste artigo. Opuseram-se nesta luta os “Paulistas”, formados pela Força Pública de São Paulo e destacamentos do Exercito que ainda eram fiéis a legalidade e os “Gaúchos”, revoltosos formados elementos da Brigada Militar do Rio Grande do Sul e tropas regulares do Exercito que haviam se rebelado naquele Estado. A ênfase dada aos aspectos factuais neste trabalho justifica-se pela forma como a memória sobre este evento foi recuperada. As informações que permitiram a sua reconstituição foram coletadas em diversas fontes que incluíram livros, relatórios militares, jornais de época, revistas, relatos biográficos e memorialistas entre outras tantas. O resultado aqui obtido perpassa uma visão conjuntural que permite imaginar este e outros acontecimentos vivenciados no Brasil naquele momento conturbado, vinculados ao movimento revolucionário-militar de 1930 sendo possível destacar o preparo e a motivação dos revoltosos.
2 – A REVOLUÇÃO DE 1930
O movimento revolucionário de outubro de 1930 consolidou-se a partir do rompimento político entre as oligarquias paulista e mineira, cujo acordo fundamentava-se no poderio econômico de São Paulo e grandiosidade do colégio eleitoral mineiro. Desde fins do século XIX, com a consolidação da República, um acordo tácito entre os governantes destes dois estados garantia a alternância de ambos na Presidência da Republica, uma pratica denominada “Política do Café-Com-Leite”, efetivada pelo “Pacto de Ouro Fino” acordado em 1913. A crise econômica de 1929, atingindo a economia cafeeira, espalhou seus efeitos no Brasil.
A crise atinge o Brasil em um momento político delicado, quando se realizavam os procedimentos para a escolha do sucessor do Presidente da República, Washington Luiz. Conforme os princípios da política do café-com-leite, o grupo a quem caberia indicar o próximo presidente seria a oligarquia mineira, seu candidato era o presidente de Minas Gerais, Antonio Carlos de Andrada. Alegando a necessidade de continuar com sua política econômica e visando a recuperação financeira do país, Washington Luiz indicou como candidato oficial a sucessão o presidente do Estado de São Paulo, Júlio Prestes. Contra ele colocou-se pela oposição a Aliança Liberal através da candidatura de Getúlio Vargas para Presidente da República e de João Pessoa para vice. Os liberais colocavam-se contra o “coronelismo” e o “voto de cabresto”, defendiam a implantação do voto secreto, a modernização da sociedade e a dinamização da economia brasileira.
A Aliança Liberal acabou sendo derrotada nas eleições de 1930, à exceção dos estados que a apoiavam: Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul.
Na Republica Velha, as opções para os candidatos derrotados eram amargas: reconhecer a vitória do adversário, contentando-se com uma fatia menor no bolo do poder, ou continuar na oposição, arrostando uma perseguição implacável. Em 1930, porém, os derrotados controlavam três governos estaduais. Era menos que o suficiente para eleger um presidente, porém mais que mera influência civil (CALDEIRA, 1997, p.259).
A partir de maio de 1930 organiza-se um movimento conspiratório com o objetivo de impedir a posse de Júlio Prestes. Os tenentes que haviam participado das rebeliões militares da década de 1920 foram contatados e muitos aceitaram aderir e auxiliar na condução do movimento. A Revolução teve seu inicio em 03 de outubro de 1930, uma sexta feira, com movimentos sincronizados que foram levados a efeito no Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Paraíba. As 17h30m deste dia revolucionários comandados por Oswaldo Aranha e Góes Monteiro, tomam o Quartel General do Exercito em Porto Alegre, prendendo o comandante da Região Militar, General Gil de Almeida. Os rebeldes e tomam, com poucas exceções, os quartéis e guarnições do Exercito em todo o Estado. Iniciava-se de maneira prática o movimento que alçaria Getúlio Dorneles Vargas à Presidência da República no Brasil por quinze anos.
3 - O PARANÁ NO CAMINHO DA REVOLUÇÃO
Com o Rio Grande do Sul sob controle, os revolucionários precisavam atravessar quatro estados (Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro) até a capital da República. Não dispondo do apoio da Marinha de Guerra, o único caminho era pela Ferrovia São Paulo – Rio Grande. Por esta via, ainda no dia 03 de outubro, horas antes dos eventos em Porto Alegre, forças rebeldes seguiram pelo interior de Santa Catarina, com o objetivo de chegar rapidamente até Porto União, na divisa com o Paraná. O domínio desta ferrovia garantiu aos revolucionários o controle sobre a antiga área do Contestado, preservando a segurança e o deslocamento das suas tropas com seus suprimentos que deveriam fluir por esta única via.
Quando as forças revolucionárias chegam a Porto União, o Batalhão de Caçadores vindo de Joinville e ai estacionado já havia se rebelado e aderido à Revolução. Neste mesmo dia, 04 de outubro, o 13º Regimento de Infantaria também se rebelou e assumiu o controle sobre a cidade de Ponta Grossa. Em Curitiba o Major Plínio Tourinho, em acordo com os gaúchos, conduziu um conjunto de ações que levou a adesão da guarnição federal, da Policia Militar e do Corpo de Bombeiros. O Presidente do Estado, Affonso Camargo, sem apoio militar, retirou-se para Paranaguá e daí para São Paulo. Desta forma em 05 de Outubro Curitiba encontrava-se sob um governo revolucionário, seu chefe era o General da Reserva Mário Tourinho (irmão do Major Plínio):
A adesão do Paraná foi quase a vitória da Revolução. Pela sua situação geográfica e pela unidade de vistas do povo e da guarnição militar do Exercito, o seu concurso à causa foi dos mais inestimáveis. Após a vitória da manhã de 05 de outubro [de 1930] às 13 horas desse dia, entrei em franca ligação pelo telégrafo com o chefe da revolução, dr. Getúlio Vargas, dando-lhe conta das ocorrências mais importantes e das medidas tomadas para garantia do movimento revolucionário. Dele recebi o primeiro telegrama, que dizia: “Porto Alegre, 5 – Major Tourinho. Curitiba. Paraná. Bravo! Bravo! Marcho com o Rio Grande ao vosso encontro. Vamos todos. Exercito e povo. Abraços. Getúlio Vargas” (TOURINHO, 1983, p.83).
Com a adesão paranaense, as tropas gaúchas avançam pelo estado e chegam a Ponta Grossa. O 5º Regimento de Cavalaria Divisionária, sediado em Castro permaneceu fiel a Legalidade quando realizou seu recuo em direção a São Paulo destruiu trechos da ferrovia e danificou pontes. Em Itararé-SP, junto a divisa com o Paraná, foram organizadas forças para impedir o avanço revolucionário e as primeiras forças rebeldes que seguem naquela direção eram formadas pelo 13º Regimento de Infantaria e pela Policia Militar do Paraná. Os rebeldes paranaenses foram seguidos pelos gaúchos que em Jaguariaíva adentraram pelo Ramal Ferroviário do Paranapanema, atingindo sem dificuldades o Norte Pioneiro do Paraná.
A 07 [de outubro] chegava a Ponta Grossa a ponta da vanguarda de Miguel Costa, que seguiu immediatamente para Castro, depois que seu commandante conferenciou comigo. Era esse comandante o Capitão [Trajano] Marinho. A gauchada estava sequiosa para combater e não admittia que tivesse seguido na frente um batalhão do 13º R.I. Eram trezentos homens bem fardados e bem armados (MIRANDA, 1933, p.95-96).
Outras forças seguiram de Curitiba para o Vale da Ribeira onde ocorreram também combates.
[...] houve um impasse militar na fronteira com São Paulo [e Paraná], perto da cidade de Itararé. A batalha ai travada teve características aparentemente modernas, com trincheiras em toda a frente de combate, arame farpado, ninhos de metralhadoras e artilharia (YONG, 1979, p.26).
Tomavam forma rapidamente as três frentes de luta entre os rebeldes revolucionários e as forças defensoras da legalidade formadas por unidades do Exercito sediadas em São Paulo e Rio de Janeiro e pela Força Pública Paulista. As frentes de combate eram Vale da Ribeira, Sengés-Itararé e Norte Pioneiro e Norte Pioneiro.
4 - O NORTE PIONEIRO E O COMBATE DE QUATIGUÁ
Conhecido à época apenas como “Ramal Ferroviário do Paranapanema”, o Norte Pioneiro Paranaense possuía uma grande importância dentro do contexto do avanço da Revolução sobre o Estado de São Paulo. Coube a tropas vindas diretamente do Rio Grande do Sul assegurar o seu controle. No dia 08 de outubro, contando com apoio local, um comboio ferroviário transportando um esquadrão da Brigada Militar chega até Colônia Mineira, atual Siqueira Campos e daí seguindo até Affonso Camargo, atual Joaquim Távora, nos dias seguintes. Eram conforme relatado por Miranda (1933) cerca de trezentos homens fardados e bem armados.
[...] seguindo para Porto União, de onde marchamos na segunda composição para a Colônia Mineira, onde junto com o Cap. Marinho empossamos as autoridades ficando nossa composição em Colônia Mineira e seguindo a primeira para Affonso Camargo sob o comando do Cap. Marinho (PRADO, 1931, p. 258).
O Esquadrão Marinho foi a primeira força gaúcha que se aproximou da divisa de São Paulo. Pelo Norte Pioneiro poderiam chegar por via férrea até diante de Ourinhos-SP, poderiam atravessar o Rio Paranapanema pela Ponte Pênsil “Manuel Alves de Lima”, em Ribeirão Claro ou transpor o Rio Itararé em Porto Maria Ferreira ou em Carlópolis, adentrando assim ao Estado de São Paulo.
Foram os primeiros combatentes revolucionários que se aproximaram da fronteira. Por isto, os que primeiro se mediram com os que desceram de São Paulo. Atingindo a estação férrea de Jaguariaíva, onde a estrada se bifurca, deixaram a direção de Itararé para a direita e rumaram para Colônia Mineira [Siqueira Campos-PR], à esquerda. Atingiram-na sem tropeço. E não perderam tempo (LEITE, 1931, p.151).
Os revolucionários possuíam como um dos seus objetivos, partindo do Norte do Paraná, a cidade de Bauru cujo controle efetivo dividiria o Estado de São Paulo em duas partes. De Bauru poderiam fazer a junção com as tropas mineiras e através de Minas Gerais e atingirem a cidade do Rio de Janeiro. O Estado de São Paulo, sua capital e o Vale do Paraíba ficariam assim isolados e obrigados a aceitar a vitória da Revolução. Paulo Nogueira Filho (1958) faz menção a esse plano que seria efetivado em caso de maior resistência paulista em Itararé.
Fui ao vagão do Estado-Maior, onde encontrei de plantão o seu subchefe, Newton Estilac Leal, também meu bom amigo. Sobre a mesa havia um mapa de São Paulo, indicando uma flecha encarnada o caminho de Bauru. Estratégia à vista: cortar o Estado de São Paulo em dois. Tudo estudado em suas minúcias (NOGUEIRA FILHO, 1958, p.527).
Os rebeldes não se contiveram em Siqueira Campos, seguiram daí, pela ferrovia rumo ao norte:
Continuaram avançando, sempre pela via férrea. Transpuseram a estação Catiguá [Quatiguá-PR] e prosseguiram para Affonso Camargo [atual Joaquim Távora-PR]. Afinal aqui [...] tiveram contato com os primeiros adversários (LEITE, 1931, p.151).
A força legalista que os gaúchos enfrentaram em Joaquim Távora e posteriormente em Quatiguá, era composta por elementos do Exercito vindos de Quitaúna, da Força Pública Paulista reforçados pelos alunos da Academia dessa força. Haviam ainda diversos voluntários civis recrutados por Ataliba Leonel, deputado federal e chefe político do interior de São Paulo. Diante da oposição encontrada o Esquadrão Marinho recuou para Quatiguá onde esperou reforços, era o dia 11 de outubro. Este combate inicial foi noticiado em São Paulo, no dia seguinte como uma grande vitória da forças da Legalidade:
O Esquadrão Marinho aguardou a chegada “Destacamento Etchegoyen”, comandado pelo Coronel Alcides Gonçalves Etchegoyen, no amanhecer de 12 de outubro. Esse oficial rebelde havia participado do planejamento da Revolução em Mato Grosso, de onde retornou para atuar no grupo de comando a mesma em Porto Alegre.
Naquele grupo, entre outros, figuravam Osvaldo Aranha, Pedro Aurélio de Góes Monteiro, Miguel Costa, Virgilio de Melo Franco, João Alberto Lins de Barros, Newton Stilac Leal, [os irmãos] Alcides e Nelson Etchegoyen, Amaral Peixoto, Hercolino Cascardo, Pinheiro de Andrade, Cícero Góis Monteiro, Ricardo Holl, Mauricio Cardoso, Adalberto Corrêa e Luís Aranha. Entre os demais núcleos da “Coluna-Mestra da Revolução” destacavam-se os de Assis Brasil, João Neves, Raul Pila, Lindolfo Collor, Flôres da Cunha e Batista Luzardo. Em plano mais distante, vários líderes militares e civis, também de prestigio. Dominando soberanamente esses conjuntos de chefes, líderes, grupos e núcleos, investido oficialmente das funções de “Chefe Supremo da revolução”, o Dr. Getúlio Dornelles Vargas imperava (NOGUEIRA FILHO, 1958, p.511).
O Destacamento Etchegoyen era predominantemente gaúcho, como o restante das forças do General Miguel Costa. As forças de Etchegoyen eram formadas por grupos de diversas unidades sediadas no Rio Grande do Sul.
Duas colunas paulistas avançaram pelo Norte Pioneiro do Paraná, a primeira era liderada pelo coronel Sandoval, comandante da Academia da Força Pública de São Paulo e havia partido de Ourinhos, a segunda era conduzida pelo Major Agnello de Souza, oficial do Exercito e avançando desde Piraju-SP, passou por Fartura e Carlópolis. O objetivo destas forças era chegar até Colônia Mineira, controlando o Ramal do Paranapanema e fechar caminho aos revoltosos. A partir daí poderiam auxiliar no contra-ataque legalista na frente de combate Sengés-Itararé. Conforme Aureliano Leite (1931) a coluna Sandoval, antes do choque com as forças gauchas, eliminou diversos núcleos revolucionários organizados por politicos ligados ao Partido Democrático Paulista, aliados de Getúlio: em Cambará e Santo Antonio da Platina.
Estes, passando por Cambará e Platina, já tinham esmagado os núcleos revolucionários locais, improvisados pelos paulistas Coriolano de Lima, Bráulio Barbosa e outros elementos democráticos. (LEITE, 1931,p.)
Devido a chegada das tropas e a possibilidade do combate, a população local se retirou buscando abrigo na área rural em locais melhor protegidos. O depoimento de Jorge Luna, antigo morador de Quatiguá, em 1984, faz referência a essa fuga:
A Revolução de 30 começou no dia 3 de outubro, calculando Jorge Luna que as tropas permaneceram cinco dias em Quatiguá e que os choques se verificaram entre os dias 11 e 13. Porém, a população começou a se retirar do patrimônio ao perceber a chegada dos gaúchos, dos quatro ou cinco comerciantes, apenas dois permaneceram, José Simeão Rodrigues [...] e Silvio Zanini, “os demais se retiraram para os sítios e fazendas”. Porém, aqueles que permaneceram em suas casas não foram molestados por qualquer das tropas, conquanto as “requisições” nas casas comerciais, principalmente as abandonadas, fossem feitas a grosso. Naquele tempo. Quatiguá [...] era apenas um patrimônio dividido em duas zonas, uma conhecida por Barra Grande e outra por Chapada. (FOLHA DE LONDRINA, 1984, p.24)
Para colher informações sobre o efetivo adversário e o sentido de seu avanço, se vinham para a Estação Quatiguá ou se via Pinhal seguiam diretamente para a Colônia Mineira, foi formada uma patrulha de cavalaria. O piquete comandado pelo Tenente Waldomiro Remião foi averiguar as cercanias de Affonso Camargo e observar o deslocamento das tropas paulistas na estrada de Pinhal procurando a força que havia empenhado combate com o Esquadrão Marinho. Os revolucionários não esperavam combates no dia 12 em Quatiguá por não conhecerem ainda o real efetivo da força paulista e por não saberem também que eles estavam tomando posições nos arredores da localidade. Sua intenção era atacar e tomar a Estação Quatiguá, garantindo assim a retaguarda para avançar sobre a Colônia Mineira. Os gaúchos foram pegos de surpresa como comprova o relato de Vanderley Véras:
De súbito, pelas 16h.30m. mais ou menos, ouvimos alguns estampidos nos arredores. Era a patrulha de reconhecimento que tiroteava com avançadas do inimigo. Em seguida entra a galope villa a dentro, o piquete do tenente Remião, declarando que o inimigo se approximava. O major Alcides de Araújo, momentos antes mandara que três pelotões da Carta Geral tomassem posição nos arredores do povoado, afim de evitar surpresas. O resto do pessoal descançava, emquanto outros churrasqueavam na maior camaradagem. [...] O capitão Frederico Guilherme Klumb, commandante da companhia de metralhadoras pesadas, dava instruções ao pessoal e experimentava também uma burrada chucra que devia conduzir as metralhadoras. A situação era, pois apparentemente de calma. Não esperávamos combate. (VERAS, 1933, p.237)
O combate transcorreu por parte da noite do dia 12 ainda. Ambos os contendores receberam reforços e foi se desenhando aquele que seria um dos mais violentos combates da Revolução de 1930, superior mesmo aos da frente de Sengés.
O tiroteio cerrou nas suas linhas. Era formidável a sua potencia de fogo! As suas metralhadoras pesadas em rajadas successivas metralhavam o pequeno lugarejo, completamente aberto, constituído de poucas casas, distanciadas umas das outras. Os nossos pelotões que estavam na frente respondem ao fogo dos sitiantes com um desassombro admirável, embora conscientes da superioridade numérica do inimigo, o qual se atira com ímpeto contra os referidos pelotões. Os pseudo-legalistas soffrem baixas nas suas investidas emquanto que os três pelotões que eram commandados pelos valorosos companheiros 2º tenentes Cecílio Cora Morossoli, João Tavares Barbosa e pelo malogrado Ivo Sampaio Ribeiro, honrando as tradições bellicosas do Rio Grande, assaltados pelo enthusiasmo da nossa causa e pelo ardor da lucta que se esboçava, resistem galhardamente, heroicamente, ao choque do adversário, dando assim tempo que o resto da nossa força tomasse posições (VERAS, 1933, p. 238)
O posicionamento das forças dava a Estação Férrea de Quatiguá uma situação dominante, os paulistas posicionavam em forma de meia lua com a Estação e os gaúchos ao centro. Nesta edificação foi instalado o Posto de Comando do Destacamento, que contava agora com a participação de seu comandante na condução da luta e em seu telhado foi colocada uma seção de metralhadoras pesadas
Felizmente corre célere pelas nossas linhas a noticia de que o bravo coronel Alcides Etchegoyen, commandante da Columna, chegava de Colônia Mineira, trazendo reforços: o 1º batalhão do 7º R.I. sob o comando do valoroso tenente-coronel Nestor José da Silva Soares. Realmente o coronel Alcides Etchegoyen, acompanhado pelo chefe de seu Estado-Maior, major Stoll Nogueira e dos officiaes 2º tenentes Lauro Villeroy França, Dyonisio Ferreira Marques e Caio Rodrigues Leopoldo, que vieram de trem, avançando cautelosamente, luzes apagadas, com observadores na machina e elle próprio sobre os carros, desembarcou um kilometro antes da estação Quatiguá, avançando com a 2ª companhia do 1º batalha do 7º R.I. atravez da linha férrea, afim de entrar em ligação com a nossa tropa, o que aliaz conseguiu, chegando á estação férrea, onde fora instalado o P.C. do 1º B.C. Passou a noite toda tomando providencias, desenvolvendo uma actividade digna de nota, localisando as diversas sub-unidades e escolhendo as posições para a companhia de metralhadoras pesadas (VÉRAS, 1933, p. 240)
O relatório de Nelson Etchegoyen que era o comandante da artilharia rebelde completa as informações sobre o combate que transcorreu até as nove horas da manhã de 13 de outubro.
Às 2 horas tivemos ordem de seguirmos imediatamente para Quatiguá a fim de reforçarmos o restante do [1º] Destacamento, que seria atacado por forças paulistas, que durante toda a noite recebiam reforços, procurando envolver a estação, onde se achava tropa amiga; seguimos e apenas desembarcamos a nossa última peça de artilharia foi desencadeado violento ataque com tropas regulares da Força Pública Paulista. Nesse combate nossas tropas, fiéis às tradições de bravura dos seus antepassados, se portou com extraordinário heroísmo e sangue frio, derrotando de modo absoluto e formal, o inimigo [...] (ETCHEGOYEN, 1931).
A tropa legalista retirou-se, após ser derrotada, em direção à divisa de São Paulo. O relatório do Coronel Alcides Etchegoyen, levando-se em conta a sua visão particular dos acontecimentos, resume as condições da retirada dos legalistas.
O seu dispositivo esfrangalhou-se, o pânico se manifestou em suas fileiras, veiu a desordem e a confusão. A ninguém mais seria dado conter aquella tropa cheia de terror, cujo pensamento único era fugir e cuja fuga era cortada pelo fogo das nossas metralhadoras pesadas que a fusilava em massa. As populações das cidades e villas, ao longo da via férrea Quatiguá - Jacaresinho, são testemunhas do estado de desmantello e desmoralisação das tropas adversárias em fuga, as quaes tomadas de pavor e viajando em caminhões incendiavam, com auxilio de gazolina, as pontes e pontilhões ao longo da estrada, afim de evitar a perseguição de nossa tropa e destruindo a dinamite de uma maneira bárbara as pontes lançadas sobre o Paranapanema e incendiando todas as balsas, botes e canoas existentes nos diversos passos daquele rio, abandonando em definitivo naquella região, o Estado do Paraná (VÉRAS, 1933, p. 243).
Os legalistas destruíram as pontes sobre o Rio Paranapanema, a ponte ferroviária da Viação São Paulo-Paraná que ligava a Ferrovia Sorocabana também ao Ramal do Paranapanema, a ponte pênsil rodoviária (Ponte Pênsil Manoel Alves de Lima) em Ribeirão Claro foi também destruída com dinamite. O intento legalista era impedir o avanço gaúcho sobre São Paulo.
A importância desse combate travado em Quatiguá foi registrada pelo Cônsul Geral dos Estados Unidos da América em São Paulo, que em telegrama datado do dia 18 de outubro alertou o Secretario de Estado daquele país sobre os resultados desse combate e o desenrolar da Revolução.
Coluna governista avançando de Ourinhos seriamente derrotada há poucos dias atrás. Governo agora na defensiva. Estrada de ferro São Paulo-Paraná transportando bens requisitados e todas as pontes destruídas pelo governo. Toda a estrada de ferro São Paulo-Rio Grande do Sul cooperando com revolucionários (YOUNG, 1979, p.27).
Encerrado a situação em Quatiguá os rebeldes ocuparam a região dando combate aos remanescentes legalistas. Em 15 de outubro exploram Carlópolis, cidade que ocupam em definitivo no dia seguinte. Em 19 de outubro chegam Ribeirão Claro e Jacarezinho onde dão posse a novas autoridades municipais.
Em Carlópolis os militares gaúchos exploraram as margens do Rio Itararé até o Porto Maria Ferreira. Construiram barcas para a travessia do rio. Porém era o dia 24 de outubro, e no Rio de Janeiro os Generais e Almirantes em um Golpe de Estado depõem e prendem o presidente Washington Luiz alegando evitar maior derramamento de sangue. Após negociações estava vencida a Revolução de 1930.
5 - CONCLUSÃO
A derrota diante das tropas revolucionarias em São Paulo fez ver aos Generais que se rebelaram em 24 de outubro no Rio de Janeiro, e também ao Governo Federal que estavam diante de uma Revolução diferentes das outras que se haviam iniciado no Rio Grande do Sul. Ao contrário da Guerra dos Farrapos que ficou restrita à aquele Estado e à Santa Catarina e a Revolução Federalista que não teve forças para transpor o Paraná, os revolucionários de 1930 estavam apenas aguardando o momento propicio para marchar sobre São Paulo e atingir o Rio de Janeiro. O Combate de Quatiguá demonstrou a capacidade de logística de transporte e operacional de combate dos rebeldes, monstrou sua organização e a disciplina de suas tropas, além de sua determinação em vencer pelas armas os seus opositores.
No Combate de Quatiguá forjou-se a perspectiva de vitória pelas armas da Revolução chefiada por Getulio Vargas, a partir de então as estruturas da Republica Velha no Brasil estavam condenadas. As forças da legalidade apesar da resistência prometida em Itararé colocavam-se na defensiva. Em termos políticos e culturais o 13 de Outubro de 1930 em Quatiguá marcou o alvorecer de um novo Brasil, que se não mais justo, foi mais moderno, urbano e industrial. A Revolução faria sentir seus efeitos nos anos seguintes

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E FONTES

AINDA O COMBATE DE QUATIGUÁ. Gazeta do Povo. 23 de Outubro de 1930 – Nº 4.178 – Ano XI – p.01;
CALDEIRA, Jorge. Viagem Pela História do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997;
DONATO, Hernâni. Dicionário das Batalhas Brasileiras. São Paulo: Ibrasa, 1987;
ETCHEGOYEN, Nelson. Relatório de Combate do 6º R.A.M no Norte do Paraná. Cruz Alta: Boletins do 6º Regimento de Artilharia Montada , 1931.
LEITE, Aureliano. Memórias de um revolucionário: A Revolução de 1930, Pródromos e conseqüências. lª edição. s/l. 1931.
MIRANDA, Alcebíades. Justitia Vanum Verbum: Episódios da Revolução de 1930. São Paulo: (S.D.T.) 1933;
NOGUEIRA FILHO, Paulo. Ideais e Lutas de um Burguês Progressista: o Partido Democrático de São Paulo e a Revolução de 1930. São Paulo: Anhambi, 1958;
PAULISTAS E GAÚCHOS LUTARAM EM QUATIGUÁ. Jornal Folha de Londrina, Caderno 2 – Sexta-feira, 06 de Abril de 1984, p.24
PRADO, Hermínio. “Acção da Legião Garibaldi do Commando do General Elisiário Paim Filho”. In: Revolução de 1930: Imagens e Documentos, Revista do Globo – Edição Especial, Fevereiro de 1931, Porto Alegre: Barcellos, Bertaso & CIA, p. 257-261;
TOURINHO, Plínio. Depoimento. In: Cinqüentenário da Revolução de Trinta no Paraná. 2ª Ed. Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, 1980, p.78-83;
VERÁS, Wanderley. O Combate de Quatiguá. In: MIRANDA, Alcebíades. Justitia Vanum Verbum: Episódios da Revolução de 1930. São Paulo: (S.D.T.) 1933, p.236-244;
YOUNG, Jordan. “Aspectos Militares da Revolução de 1930. In: FIGUEIREDO, Eurico (Org). Os Militares e a Revolução de 30. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p.15-35;