sexta-feira, 11 de julho de 2008

Geada Negra de 1975 - Erradicação da Cafeicultura Paranaense

Outro texto que publiquei na FOLHA DE LONDRINA em 2005. Ele versa sobre a "Geada Negra de 1975", responsavel pela erradicação total da cafeicultura paranaense naquele ano e com conseqüências profundas nos campos social, politico e econômico do Norte do Paraná ainda hoje.
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A Geada Negra de 1975
(Por Roberto Bondarik)

No domingo (19/06), a Folha de Londrina relembrou um o mais traumatizante evento de nossa história. Em 18 de Julho de 1975, há trinta anos, ocorria a Geada Negra, que erradicou a cafeicultura no Estado do Paraná. Naquela ocasião muitos não tiveram discernimento da amplitude dos problemas causados e das conseqüências que seriam geradas por esta geada, talvez ainda hoje muitos ainda não tenham essa compreensão.


Revistas e jornais daqueles dias mostram o frio europeu que atingiu o sul do Brasil. Em Curitiba ainda se relembra e comemora a neve daquela ocasião. No norte, onde o café era a principal atividade econômica, o frio intenso assumiu ares de tragédia, não sobrou espaço lembranças alegres. Haviam ocorrido geadas fortes em 1963, 1964 e 1966, prenúncios da maior de todas. No dia seguinte, a Folha afirmava que os cafeicultores estavam de luto, mas os órfãos, a história mostra isso, eram a população do Norte, em especial os colonos, os pequenos proprietários, os comerciantes, as cidades, todos aqueles que se relacionavam direta ou indiretamente com a cafeicultura. Foram todos atingidos em seu modo e no seu estilo de vida, tivemos de reaprender a viver.


Com as lavouras destruídas era preciso recuperar os prejuízos. As terras eram caras, precisavam continuar lucrativas, plantou-se soja, trigo e milho, principalmente. A mão-de-obra necessária era a mínima possível para as novas atividades. As colônias das fazendas começaram a se desfazer, os não proprietários passaram a se fixar nas cidades da região, muitos viraram bóias-frias. Londrina era sempre a melhor opção, surgiram bairros imensos, grandes conjuntos habitacionais como o “Cincão”. Outros foram para Curitiba e São Paulo. Próximo a Campinas, existem bairros inteiros habitados por gente que se orgulha e chora de saudade, por ser do Paraná. Para aqueles que já eram proprietários, optaram em vender o que possuíam e comprar novas terras em regiões livres do frio, assim hordas de paranaenses rumaram a Mato Grosso, Rondônia e Acre. Rapidamente Rondônia virou um Estado. Mato Grosso virou dois, no do norte estão muitos dos nossos antigos vizinhos.


Dizem que foi o maior fluxo migratório em tempos de paz, o êxodo rural norte-paranaense retirou do Estado quase 2,5 milhões de pessoas na década de setenta e 1,6 milhão na década de 1980, segundo dados do IBGE. Não é surpresa, cidades da região perderem lugar no ranking das mais populosas da região Sul.


Talvez tenha sido a Geada Negra de 1975, o maior golpe da história na economia e na sociedade do Paraná, um acontecimento que precisa ser estudado, explicadas as suas conseqüências. Buscamos, tateando, ainda hoje uma nova identidade econômica. Pessoalmente acredito que a solução de nossa economia e a construção de nossa riqueza se encontra na terra, em novas culturas e atividades, com a industrialização derivando, também, dessas atividades.



10 comentários:

Rosmari disse...

Prezado Professor. Lembro-me muito bem daquela manhã. Tinha 10 anos e passava as férias de julho numa das fazendas da família em Siqueira Campos, no Norte Pioneiro. Dormimos os quator primos de 7, 8 e 10 anos de idade. Todos juntos numa mesma cama para nos aquecer. A tarde voltei para Fartura (SP), onde morava, no fuscão "Fafá" de meu primo, então estudante de Agronomia na Esalq em Piracicaba. Por onde passamos, só viamos os cafezais negros, como se houvesse atirado fogo. Só sobraram as cinzas: Siqueira Campos, Quatiguá, Joaquim Távora e Carlópolis. Qual não foi a nossa surpresa, ao chegar na Fazenda Passo dos Leite, também de meu pai e tios, e verificarmos que apenas os cafeeiros nas baixadas estavam sapecados. O restante das árvores estavam intactas. Tempo depois, viemos a saber que o nosso cafezal não foi afetado devido a proximidade com a Represa de Xavantes (na época, da CESP), que criou um micro clima, protegendo a lavoura. Grande abraço. Fábio Garcia Ribeiro (fabgarib@hotmail.com)

Rosmari disse...
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Anônimo disse...

Em 1.975 já existia fuscão "FAFA"?
Acho que o modelo com laternas grandes nos paralamas trazeiros, só surgiu em 1.979 em alusão aos fartos seios da cantora que fazia muito sucesso na época.

Fabio Ribeiro disse...

É verdade anônimo.... O fuscão Fafá de Belém foi lançado em 79, e recebeu o apelido devido aos enormes seios da Fafá de Belém. Como faz muito tempo isso, não me lembro qual fuscão o Zé Edson tinha na época. Sei que ele sempre teve Fuscões, e com certeza teve um Fafá. Deve ter sido em 79 mesmo. De qualquer forma, voltamos naquela tarde fria de 75 num fuscão branco,,, Um abraço...

Rocio Rodi disse...

Olá Roberto!

Cheguei aqui por causa deste frio que se noticia e porque me lembrei da "Geada Negra no Norte do Paraná" em 1975. Morava em Paranaguá, meu esposo morava em Paraíso do Norte (PR), depois em Paranavaí.

Gostei do que nos testemunha. Hoje moramos em Belém (PA), desde 1991. Mas desejamos logo retornar às terras paranaenses. Do frio só memória mesmo.

Compartilhei este post em meu facebook.

Um abraço!

Profª Jully Gabriela Retzlaf de Oliveira disse...

Olá, adorei a reportagem, legal!
Gostaria de aporoveitar e divulgar o meu blog: http://ensinodegeografiauenp.blogspot.com.br/
http://www.lugaresdaterra.blogspot.com.br/

Profª Jully Gabriela Retzlaf de Oliveira disse...

Gostei do Blog e da reportagem: gostaria de divulgar o meu blog:
http://www.lugaresdaterra.blogspot.com.br/ e http://www.lugaresdaterra.blogspot.com.br/

Ton Joslin disse...

Em 2008 tive a oportunidade de participar da montagem da peça "Café Quente em noite fria" que falava desse período de nossa historia. Descobri com os estudos necessários para a montagem que essa é uma ferida ainda não cicatrizada em nosso povo. O geada trouxe consequências terríveis para as classes populares, que não podendo pagar suas dividas nos bancos perderam suas pequenas propriedades e migraram sem nada para a cidade. Para alguns, no entanto, veio em boa hora, o ciclo do café já estava em declínio e a geada deu um empurrão importante para a mecanização das lavouras e as demissões em massa do período. Políticos aproveitadores, como Belinati, e homens de "negócios" migraram correndo para criar suas construtoras e ganhar dinheiro e popularidade com os acontecimentos.
Como disse Bob, é um tema que se deve ter muita atenção por parte dos pesquisadores e também professores da região. Um bom tema pra se fazer um documentário, não acha? Vamos ver se armamos algo.

rozely chiquetti disse...

Sou professora PDE 2013, e estou desenvolvendo um projeto sobre "memórias do café no município de Paraiso do Norte", e achei muito interessante a memória de Rocio Rodi, quem tiver mais memórias deste periodo postem pois vou mostrar para meus alunos.

Mulher que precisa falar disse...

Minha mãe é de Ivaiporã e sempre nos fala desse dia. O pai dela tem um pequeno sítio, e conta que na noite da geada, ela e as duas irmãs dormiram juntas na mesma cama, tamanho era o frio. No outro dia pela manhã, minha vó chorava ao ver o cafezal queimado.
Muitas pessoas se desesperaram, algumas perderam tudo que tinha e venderam as propriedades.
Meu avô, parrudo como sempre, teve que iniciar do zero o plantio de café, e felizmente está até hoje vivendo dos cafezais!

Abraço Bob!
Rubia