sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Centenários do Norte: Os Cem anos da Emancipação Politica de Cambará no Norte Pioneiro do Estado do Paraná

 Centenários do Norte: Cem anos da Emancipação Politica de Cambará no Norte Pioneiro do Estado do Paraná

Prof. Dr. Roberto Bondarik

bondarik@utfpr.edu.br

Professor Titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio

 

 

Em 21 de setembro de 1924 foi instalado o Município de Cambará, um centenário que marca as comemorações de tantos outros vindouros nos próximos anos acompanhando o traçado da Ferrovia São Paulo – Paraná até adentrar Londrina. A importancia de Cambará para a história e a integração do Norte do Paraná à Civilização Ocidental é imensa pois foi aí, há cem anos,  que o Paraná foi apresentado a Lord Lovat integrante da Missão Montagu que analisava a situação econômica e fiscal do Brasil para banqueiros britânicos. Lovat era um pesquisador das possibilidades de desenvolvimento do País, um prospector de investidores britânicos que haveriam de criar a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Antonio Barbosa Ferraz Junior, interessado em alavancar seus negócios, foi quem mostrou a Lovat o potencial econômico da terra roxa, do café e abertura desta grande região ao mercado nacional e internacional. Os ingleses se interessaram e se tornaram pró-ativos na transformação de um sertão de matas maciças em um grande centro de produção agropecuária.

Barbosa Ferraz, ao que consta conheceu a região ao Norte e Oeste de Jacarezinho ainda por volta de 1908, participando de uma caçada que era uma atividade tão comum quanto as pescarias que hoje se promovem. Já havia fazendas e fazendeiros na área e descreviam-na como um “maciço de arvores frondosas”, sem clareiras. Aufere-se portanto que Barbosa Ferraz conheceu o solo coberto de mata fechada e as terras já aberta e com a prática da agricultura, talvez já com o café em franca produção. 

A chegada naquele ano de 1908 da Ferrovia Sorocabana à Estação de Ourinhos-SP possibilitou uma facilidade no transporte de cargas em grandes volumes que favorecia a produção agrícola em grande escala. Barbosa Ferraz adquiriu grande extensão de terras atraído por sua fertilidade e pela ausência de uma legislação, como a existente em São Paulo, que limitava a implantação indiscriminada de cafezais bem como o volume do seu transporte pelas ferrovias até o Porto de Santos. A sua Companhia Agrícola Barbosa em pouco mais de uma década assumiria a posição de maior estabelecimento agropastoril e também industrial, considerando todo o Estado do Paraná, tornando-se inclusive foco de disputas politicas com a então sede do seu municipio, Jacarezinho. O projeto de expansão  economica que se vislumbrava no inicio da década de 1920 não era compreendido e muito menos alvo de atenção e investimentos do Governo do Estado do Paraná daquela época, cujos esforços estavam em alavancar e perpetuar as atividades ligadas a extração, beneficiamento e exportação da Herva-Mate. 

Cambará em seus primeiros decênios teve uma agricultura baseada na produção de café, com grandes fazendas que empregavam muitas vezes centenas de famílias de colonos. Registra-se que muitos, senão uma maioria, destes trabalhadores eram de origem estrangeira: italianos, espanhóis, eslavos, japoneses etc. Nestas fazendas adotavam um sistema em que ao colono era permitido cultivar principalmente o milho e o feijão em meio ao arruamento dos cafeeiros, além do arroz em áreas de baixada. A produção ou sua maior parte era de propriedade dos colonos que, atravez da ferrovia podiam levar o que colhiam para ser vendido em Ourinhos, Avaré, Sorocaba até São Paulo. Apesar do trabalho pesado e da quase inexistencia de proteções de leis trabalhistas inexistentes até muito tempo, esses colonos conseguiram, em sua grande parte adquirir terras na fronteira que ia se formando para além do Rio das Cinzas, transpondo o Laranginha, o Congonhas, o grande Rio Tibagi e se espraiando pela grande área da Companhia de Terras Norte do Paraná nos anos 1930. Destaque-se que o sistema de financiamento das companhias loteadoras era quase que auto-financiavel se houvesse a imediata ocupação e inicio do processo de produção das terras: derrubada da mata, extração da madeira mais valiosa, plantio do café, plantio de generos agricolas para sustento e comercio etc.

A possibilidade da extensão de um ramal ferroviário da Sorocabana até Cambará e mesmo adiante, a partir de Ourinhos, ideia que foi muito difundida no inicio dos anos de 1910 e seguintes,  fez aumentar o afluxo de compradores de grandes extensões de terras na região. Compravam-se as propriedades nominais de antigas posses do século XIX, de seus herdeiros e mesmo de terras devolutas do Estado do Paraná. A Primeira Guerra Mundial limitou os mercados consumidores de café e algodão, fez desaparecer do mercado os trilhos de aço, locomotivas, vagões, explosivos para detonação de rochas no leito em construção das ferrovias, de 1914 até pelo menos 1920 houve uma grande pausa na região, no Brasil e no Mundo.

Como a extensão da Sorocabana não foi efetivada, em 1920, impulsionados pelos discursos e artigos publicados pelo Deputado Federal por São Paulo Cincinato Braga que defendia a construção de uma ferrovia ligando Salto Grande à Guaíra, depois a Assunção no Paraguai e sua interligação com os barcos a vapor argentinos dos Rios Paraná e Paraguai, decidiu-se pela construção de uma ferrovia com recursos próprios dos fazendeiros locais. Os Barbosa, Antonio e seus filhos, possuíam investimentos muito diversificados e, ao que demonstraram, eram muito instruídos na potencial capacidade econômica do Norte do Paraná, ainda um projeto de exploração. A Ferrovia Noroeste do Paraná foi formalmente constituída em Agosto de 1920 para, inicialmente, ligar por meio de uma estrada de ferro com um metro de bitola, a localidade de Cambará até Ourinhos, meta atingida completamente até 1925. A concessão de construção contemplava a sua extensão até Jataizinho, na Comarca de Tibagi, tendo seus estudos e projetos sido feitos nos anos seguintes. Essa ferrovia seria adquirida pelos britânicos da Paraná Plantations, tornando-se o embrião fecundo que geraria Cornélio Procópio, Londrina até Maringá.

Sob a égide da Companhia Agricola Barbosa Cambará tornou-se Município com interesses econômicos um tanto que diversos daqueles que conduziam Jacarezinho e o  Estado do Paraná àquele tempo. Uma série de conflitos envolvendo a Companhia, seus proprietários e o Juiz de Jacarezinho levaram a implantação da Comarca de Cambará em 1928. A cidade foi o ponto de passagem para todos os que buscaram “fazer o Norte”, se “firmar na vida”, trabalhando nos sertões do Norte do Paraná tornados acessíveis pela CTNP.

Meu cafezal em flor, quanta flor no meu cafezal! Cem anos de Norte do Paraná, de trabalho, de dedicação e de construção de uma cultura pé vermelha!

domingo, 15 de setembro de 2024

2024: Centenários do Brasil e do Norte do Paraná

Texto produzido para e publicado pelo Jornal "Folha de Londrina" em 27 de Julho de 2024.


2024: Centenários do Brasil e do Norte do Paraná

 Prof.Dr. Roberto Bondarik

bondarik@utfpr.edu.br

Docente e Pesquisador da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio

Coordenador adjunto do Laboratório de História da UTFPR


         A consciência histórica é a consciência da mudança, da transformação que se materializa no progresso e as vezes no retrocesso. A ideia de que tudo muda com o tempo e que portanto possui história desenvolveu-se a partir do Renascimento e consolidou-se com a Revolução Científica do século XVII. Percebemos as transformações por meio da observação dos ambientes, dos documentos e outras fontes. Os ultimos cem anos foram excepcionais no registro sonoro, visual e escrito da história do Brasil e em especial a do Norte do Estado do Paraná.

          Historicamente 2024 é um ano marcante: há exatos cem anos, neste mesmo mês de julho a cidade de São Paulo ardeu sob o fogo da artilharia e sob o bombardeio aéreo do Exercito Brasileiro que enfrentava os "Tenentes Rebeldes" em uma sua primeira ousadia: a Revolução de 1924, um motim estritamente militar ocorrido no Exercito e na Força Pública de São Paulo. Foi a primeira cidade brasileira, talvez do continente a sofres ataques aéreos sistemáticos. Os amotinados paulistas, que entre outras pautas pediam o fim das oligarquias, se deslocaram para o Oeste do Paraná, juntaram-se a outros vindos do Rio Grande do Sul e formaram a "Coluna Prestes - Miguel Costa" que cruzou o Brasil por anos. Mas essa é outra história que em breve trataremos.

             Outra reclamação dos rebeldes era a Missão Inglesa chefiada pelo Lord Montagu, que havia no primeiro semestre daquele ano, analisado as finanças públicas e as condições de investimentos no País. O relatório da Missão publicado em junho de 1924 foi considerado ofensivo a soberania nacional pelos militares que se amotinavam. Dela fez parte Lord Lovat, personagem marcante da presença britânica no Norte Novo do Paraná, que buscava produzir algodão no Brasil os mercados ingleses. Lovat esteve na Fazenda Agua do Bugre de Antonio Barbosa Ferraz Júnior, em Cambará e há cem anos, sobre uma mesa de bilhar ou de carteado no salão de jogos, examinou um mapa com as terras além do Rio Tibagi e a possibilidades da Ferrovia que deveria se estender de Ourinhos a Guaira, no Rio Paraná, atingindo Assunção no Paraguai. Os Britânicos formaram a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), adquiriam a preço simbólico a Ferrovia São Paulo - Paraná em 1928, projetaram um dos maiores projetos imobiliários da história do Brasil, dando origem ao Norte do Paraná como o conhecemos hoje, capitaneado por Londrina e Maringá, agora centenário.

         A ferrovia, meios de navegação a vapor, estradas de rodagem e núcleos urbanos de diversos tamanho eram exigência legal da União e do Estado do Paraná para autorizar a implantação de projetos de colonização àquele tempo. Não só o cultivo do café motivou a busca pelo Norte Novo, havia um mercado crescente de alimentos básicos decorrente do processo de industrialização e urbanização, verificados no Sudeste, já a partir da década de 1920. A construção da ferrovia foi paga pelo Governo do Estado com a concessão das terras a CTNP.

         Investidores brasileiros adquiriam terras nas áreas a frente e adiante das terras da CTNP, como a área de Cornélio Procópio por Francisco da Cunha Junqueira em 1924 e a Fazenda Congonhas por Barbosa Ferraz no mesmo ano. Lugares centenários como serão as situações históricas que a partir desse ano serão relembradas, ditadas pelo avanço da ferrovia em direção ao Rio Tibagi e sertão do Ivai. Cambará teve sua estação férrea entregue em 1925, Cornélio Procópio em dezembro de 1930. Em 1935 a Ponte Ferroviária sobre o Rio Tibagi foi entregue ao tráfego.

         A ocupação imobiliária do Norte do Paraná, as bases para Londrina e Maringá, a Ferrovia São Paulo até Assunção e Oceano Pacífico, (projeto atualmente em discussão). Marcos históricos de um Norte do Paraná agora Centenário.



sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Italianos no Norte do Paraná

 Texto produzido para e publicado pelo Jornal "Folha de Londrina" em 13 de setembro de 2024.


Italianos no Norte do Paraná

Roberto Bondarik
Professor Titular da Universidade Tecnológica Federal do Paraná - Cornélio Procópio

 

 

Uma exposição em Londrina, no SESC-Cadeião celebra os 150 anos da imigração italiana no Brasil, conforme esta Folha noticiou (29/08/2024). Objetos do cotidiano sendo alguns oriundi, outros adaptados de nossa realidade, todos chamam a atenção por serem comuns a todos nós, descendentes ou não mas tão assimilados à cultura italiana que imaginamos a macarronada, a lasanha, o nhoque, o frango refogado de cada domingo como autenticamente brasileiros. Aos 386 italianos de origem trentina e veneta, que desembarcaram, em 21 de fevereiro de 1874, do Paquete “La Sofia” no porto de Vitória-ES e que, em troca da derrubada de jacarandás para exportação, receberam terras para morar e produzir, seguiram-se alguns outros milhares. Estima-se que bem mais de 20 milhões de brasileiros, apenas no Estado de São Paulo sejam descendentes de imigrantes italianos.

O primeiro registro de imigrantes italianos no Norte Pioneiro do Paraná deu-se em Jacarezinho e em Ribeirão Claro, alguns nomes de ruas e atuais moradores atestam isso. Eram artífices, alfaiates, carpinteiros, pedreiros, comerciantes e agricultores familiares. Outros vieram como colonos, empregados nas fazendas de café que se expandiam pelo Norte e pelo Norte Novo seguindo a Ferrovia São Paulo – Paraná, aquela cujo objetivo era ligar Santos até Assunção e depois ao Oceano Pacífico.

Ma non tutto era roseo, non tutti erano brave persone”! Ao contrario da imigração italiana promovida para a região de Curitiba, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro não tinham por objetivo estabelecer núcleos coloniais com pequenas propriedades para pratica da agricultura familiar. Os Estados do Sudeste precisavam de mão-de-obra para suprir as necessidades da cafeicultura em expansão e dentro da lógica do capital exportador, a escravidão dos africanos estava em vias de ser extinta como de fato foi. Aliás a grande causa de todas as mazelas sociais, econômicas e politicas que temos contemporaneamente no Brasil decorrem do longo tempo da escravidão e da demora relutante da monarquia brasileira em extingui-la. A Lei de Terras de 1850 estabeleceu que o acesso a propriedade rural no País se daria por compra direta do Estado ou por transferência entre particulares. A declaração de posse das terras devolutas seria permitido ainda até 1855.

Ninguém abandona sua terra, suas raízes sua cultura, emigrando para além-mar se vivesse no conforto e na fartura. A Itália do século XIX era dividida e politicamente instável, havia guerra civil, fome, pobreza e miséria. Ao imigrante italiano a proposta de melhorar de vida trabalhando nos cafezais brasileiros era um alento diante das mazelas do cotidiano do seu tempo e espaço. O Governo da Província e, depois do Estado de São Paulo, subvencionava sociedades e associações que promoviam a vinda de italianos que trabalhariam com colonos nas fazendas, pagariam sua passagens financiadas junto com seus gastos cotidianos durante alguns anos. Com trabalho pesado e uma economia de gastos rígida muitos desses colonos puderam se tornar proprietários de terras no Norte Pioneiro e, principalmente no Norte Novo de Londrina e Maringá na primeira metade do século XX.

Houveram casos múltiplos de exploração desses colonos, situações que geraram revoltas em muitas fazendas paulista e, pelo menos um no Norte Pioneiro e que foi muito bem documentado. Em 1923, na Companhia Agrícola Barboza, em Cambará, um grupo de 23 famílias italianas se revoltaram contra a administração da fazenda alegando que haviam sido enganados quanto aos contratos que diziam que eles iriam trabalhar em fazendas paulistas desse grupo, não possuíam liberdade de circulação, recebiam metade do combinado, as condições acordadas eram inferiores ou inexistentes e, o pior não podiam confraternizar e tomar vinho cantando suas canções prediletas como a da “Battaglia del Piave”. Eles, todos os homens, eram veteranos no Exército Italiano que batera os austríacos em 1918.. Ao tentar abandonar a fazenda, três colonos tiveram suas famílias detidas pela segurança e administração, os chefes de família fugiram e foram ao consulado da Itália em São Paulo. Os demais italianos tomaram o controle da colônia da fazenda até que o impasse fosse resolvido e todos os italianos libertados pelas autoridades.

Os italianos ajudaram a moldar o perfil atual do brasileiro, na musica, na religiosidade, no compartilhamento familiar. Hoje somos todos boa gente, ou deveríamos nos esforçar mais para sermos!