Artigo publicado no Jornal "FOLHA DE LONDRINA" em 29 de Novembro de 2024.
Lord Lovat: das
Terras Altas da Escócia as Terras Roxas do Norte do Paraná
Londrina completa em
dezembro de 2024 seus noventa anos de emancipação política, frise-se que não se
trata da sua fundação que foi gestada pelo menos há cem anos, no salão de jogos
da casa sede da Fazenda Água do Bugre, em Cambará. Naquele momento foi apresentada,
pelos Barbosa Ferraz e pelo Engenheiro Gastão de Mesquita, a grande área de
terras devolutas pertencentes ao Estado do Paraná ao prospector de
investimentos britânicos Lord Lovat. Londrina foi a porta de entrada e Lovat o
seu idealizador, ao organizar a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP).
Nascido em 25 de novembro
de 1871, o Major General Simon Joseph Fraser, cognominado pelos escoceses de
MacShimidh, possuía os títulos de 14º Lord Lovat e 3º Barão Lovat, era um nobre
das Terras Altas da Escócia. Ingressou no Exército Britânico e seguiu carreira
no oficialato. Em 1899 criou o “Lovat Scouts”, formada com guardas-caça
escoceses, uma unidade com atiradores de elite, as primeiras Forças Especiais
britânicas e que lutaram na Guerra dos Bôeres na África do Sul. Foi deputado do
Parlamento Britânico, comandou tropas na Primeira Guerra Mundial, foi
presidente da Comissão Florestal do Exército e Subsecretário de Estado para
Assuntos do Domínio no Gabinete do Primeiro-Ministro. Também era banqueiro,
financista, investidor e executivo de diversas companhias, em especial o “Hong
Kong and Shangai Bank Corporation” e a “Sudan Cotton Syndicate”,
sendo esta dedicada a produção de algodão no Sudão e Egito. Lovat veio ao
Brasil nos primeiros dias de 1924 como membro da “Missão Montagu”
que, com a aquiescência do Governo Federal, analisou a situação e as
potencialidades do sistema tributário do País, atividades produtivas ou a
realidade econômica brasileira de então.
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Lord Lovat chega a São Paulo (Fonte: REVISTA O MALHO de 06 de Janeiro de 1924) |
Lord Lovat deixou claro
seu interesse, prospectar condições de investimento, de negócios ligados ao
plantio e a exportação de algodão para suprir a indústria têxtil britânica. Queria
conhecer terras que pudessem ser adquiridas por seu grupo de produtores e
fomentar a produção dessa commoditie em substituição à África onde as condições
políticas afetavam a produção algodoeira. Lovat se interessou por três regiões:
o vale do Rio São Francisco em Minas Gerais, Jaraguá do Sul em Santa Catarina e
o Norte do Paraná entre os Rios Tibagi e Ivai. Minas exigia obras vultuosas
para um sistema de irrigação semelhante ao egípcio e não havia ligação da
região com a malha ferroviária existente; Santa Catarina não possuía um clima
perene e constante adequado ao algodão e; o Norte do Paraná possuía terras
férteis, clima temperado e recursos hídricos necessários, além de uma ferrovia
já projetada, e iniciada, até o Rio Paraná e com vistas a atingir Assunção no
Paraguai.
Lovat foi recepcionado
pelos plantadores de algodão como um verdadeiro salvador da lavoura brasileira,
literalmente ele representava a possibilidade de exportação de um novo produto para
o mercado e a indústria britânicos. O algodão era potencialmente capaz de ficar
ao par com o café, com bons preços e retorno financeiro. Por sua vez a
indústria têxtil brasileira enxergava as pretensões do empresário britânico com
a literalidade de uma nuvem de gafanhotos que, do horizonte, pairava
ameaçadoramente sobre o futuro do seu negócio ante os melhores preços que
poderiam ser pagos aos plantadores brasileiros pelos britânicos. O aumento dos
custos poderia inviabilizar a indústria nacional. Lovat disse em entrevista que
a industrialização do Brasil era inviável e que o futuro do País estava na
modernização da agricultura.
A presença britânica no
Paraná se fez então através da CTNP e da Ferrovia São Paulo – Paraná, sendo
esta uma necessidade logística e uma exigência legal do Brasil para que se
aprovassem projetos de colonização daquela magnitude. Os ingleses, como chamados,
representaram um modernização capitalista que já fora, de certo modo, sentida em
Curitiba quando as introdução da mecanização, do sistema de fábrica, um
processo de industrialização no beneficiamento e envaze do mate.
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Inauguração da Ponte Ferroviária sobre o Rio Tibagi (Fonte: O Estado de São Paulo, 28 de julho de 1935) |
Após um século das suas
viagens e tomada de decisões, Lord Lovat é lembrado como o idealizador do Norte
do Paraná, novo, modernizado e diverso do Brasil de até então. Ele empresta
hoje, com a utilização do seu nome, um certo ar de elegância histórica e
glamour que remetem a Belle époque, do início do século XX. Fazem referência a
ele logradouros, edifícios comerciais e residência, concessionárias de veículos
e uma estação férrea que deu origem a cidade de Mandaguari.
Lord Lovat, falecido em
18 de fevereiro de 1933, antes de Londrina tornar-se oficialmente uma cidade, representou
a colonização e exploração do Norte do Paraná segundo moldes capitalistas e
administrativos modernos àquele tempo.
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