segunda-feira, 28 de março de 2011

O DISCURSO DO REI, CORNÉLIO PROCÓPIO E O NORTE DO PARANÁ: UMA RELAÇÃO DE OITENTA ANOS


O Discurso do Rei, Cornélio Procópio e o Norte do Paraná
==== UMA RELAÇÃO DE OITENTA ANOS ====

Prof.Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio


O Discurso do Rei
                “O Discurso do Rei” foi em 2011 o grande ganhador do Oscar, premiação máxima do cinema norte-americano tendo recebido as premiações de melhor filme, diretor, ator e roteiro original. Foi considerado pelo público como o melhor filme no Festival de Toronto e recebeu ainda o Globo de Ouro de melhor ator de drama. Particularmente considerei esse filme muito agradável de ver. A história gira em torno do momento em que o Príncipe Albert, pai da atual Rainha Britânica se vê contingenciado a assumir o trono como George VI no lugar de seu irmão Eduardo VIII que renunciara para se casar com uma norte-americana divorciada. Desde criança Albert sofria com uma gagueira que o deixara em má situação toda vez que precisava pronunciar-se em público. Bem no filme vemos como um especialista auxilia o monarca a combater seu problema.
                Mas qual seria a relação desta história de superação com o Norte do Paraná? Digamos que ela é um tanto que pitoresca, uma ilustração que se destaca em seu passado, lembrando pois que, se a História não tivesse utilidade alguma pelo menos serviria para nos entreter e divertir. O Norte do Paraná foi objeto de interesse e visitação dos dois futuros monarcas ingleses cuja vida é retratada neste filme.
                Quando eram príncipes ainda, Edward e Albert estiveram no Brasil, corria o ano de 1931, ambos viajam o mundo como o Príncipe de Gales, herdeiro do trono, e o Duque de York, segundo na linha sucessória. Eles chegaram ao Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro em 25 de Março de 1931 e receberam toda a atenção do Governo Provisório de Getúlio Vargas sendo-lhes designado como oficial para atender-lhes a todas as necessidades o General Tasso Fragoso, um dos mais importantes oficiais do Exercito àquele tempo.
Edward
Principe de Gales em 1919 
                A visita oficial à Capital da República durou cerca de três dias e os príncipes hospedaram-se no Palácio Guanabara. Verificaram-se as trocas de visitas protocolares, jantares, recepções bailes no Palácio do Itamaraty e também no local onde os visitantes se hospedavam. Quando se dirigiram depois a outros estados a visita foi considerada de carater semi-particular e houve recepções semelhantes as do Rio de Janeiro.
                Ao final dos três dias os visitantes seguiram até São Paulo e de São Paulo seguiram para o Norte do Paraná, conforme especificado no Relatório do Ministro de Estado das Relações Exteriores do Brasil, no ano de 1931, página 18 e seguintes:
                              
De São Paulo, os Príncipes seguiram para o Norte do Estado do Paraná em visita às terras da Companhia “Paraná Plantations”. Essa parte do programma foi arranjada de accôrdo com o desejo de sua Alteza Real de conhecer as propriedades da referida Companhia ingleza”.

Albert - Coroado como George VI
Pai da Rainha Elisabeth II
Como Duque de York acompanhou
o Principe de Gales ao Brasil
                Um dos funcionários da “Companhia de Terras Norte do Paraná”, subsidiaria da “Paraná Plantations” registrou essa interessante visita que marcou o período inglês na construção da Ferrovia São Paulo – Paraná e da ocupação da região onde hoje se ergue a cidade de Londrina. Segundo Gordon Fox Rule, o Príncipe de Gales, que se tornaria Eduardo VIII, era um grande acionista da “Paraná Plantations”, decorrendo daí seu interesse em conhecer as terras e as histórias que já deviam ser-lhe afamadas.
                A visita dos príncipes concentrou-se em Cornélio Procópio, que era naquele momento apenas uma estação ferroviária entregue havia pouco tempo, em 1º de dezembro de 1930, com uma povoação que dava seus incipientes passos. Havia aqui pátio de manobras, depósitos e os alojamentos dos engenheiros e condutores da construção da ferrovia que se estendia em direção a Jataizinho e as margens do Tibagi. Segundo Atila Silveira Brasil o relato sobre essa visita vale pelo seu aspecto pitoresco, pois os ingleses quase nada deixaram de sua breve passagem e permanência forçada nas terras da cidade que ainda seria erguida. Ficaram a ferrovia e as lembranças que vão se esvaindo.
                O relato mais interessante que temos dessa visita do Príncipe de Gales e do Duque de York a Cornélio Procópio e ao Norte do Paraná é justamente de Atila Silveira Brasil em seu livro “Das Origens da Emancipação do Município” (pagina 54-55), que versa sobre Cornélio Procópio.
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E O PRINCIPE CHEGOU
               Era março de 1931.
               No casario de madeira, construído pelos ingleses no aclive frontal da Estação Cornélio Procópio, havia grande alvoroço, preparando a recepção da real visita.
Arco de boas vindas ao Principe de Gales
e ao Duque de York em Cornélio Procópio em 1931
(Fonte: Blog Ferrovia São Paulo - Paraná)
               Colocaram no portão do condomínio fechado um enorme arco de madeira com a saudação “WELCOME” iluminada por lâmpadas elétricas.
               Na estação, o jovem agente também tomava suas providencias para aquela recepção.
               Lá pelas 11 horas, chegou o trem especial da Sorocabana, com a comitiva visitante. Os trens utilizados pela Estrada de Ferro São Paulo – Paraná eram bem menores, pois a estrutura dos trilhos não suportava excesso de peso. O trem especial entrou apitando, lento, no pátio da estação. O agente comandou a parada do trem, enquanto a comitiva de recepção, formada por ingleses, técnicos e poucos empregados da Companhia, preparava-se para receber o Príncipe de Gales.
Funcionários, familiares e moradores
sob o arco de boas vindas momentos
antes da chegada dos Principes
(Foto: Acervo Átila Silveira Brasil)
               Suspense na chegada. O trem permaneceu fechado durante alguns minutos. Então sua porta se abriu e começaram a descer os visitantes. Primeiro desceu Lord Lovat, depois Arthur Thomas e em seguida o Príncipe de Gales. Jovem claro, olhos e cabelos castanhos, de cerca de um metro e oitenta de altura, trajando um safári cáqui, de calças curtas, e com um chapéu caça-leão, modelo africano. Aparentava ter 30 anos [na verdade tinha 36].
               Feitas as apresentações, com os naturais beija-mão dos estrangeiros, os visitantes se encaminharam para as casas dos ingleses, onde ficava o escritório da Companhia de Colonização Norte do Paraná.
               Houve grande decepção, pois o sistema elétrico do arco com a saudação WELCOME falhou. Entraram e naturalmente foram tratar de negócios, pois o Príncipe era um dos acionistas da Paraná Plantations, financiadora da Companhia de Terras Norte do Paraná. Ele não veio em visita oficial, por isso não houve o natural aparato de segurança que acompanha os visitantes oficiais.
Estação Cornélio Procópio em 1932
(Fonte: http://www.estacoesferroviárias.com.br)
               Depois de duas horas, retornaram à estação. Decidiram ir a pé até à ponta da linha, que estava no Catupiri. Quando lá chegaram, o Príncipe que era grande atleta, decidiu que voltaria correndo até Cornélio Procópio. Não adiantaram as afirmações da longa distancia. O Príncipe correu e chegou normalmente, dando provas de sua grande vitalidade. Carros foram improvisados para trazer os suarentos ingleses do Catupiri, pois eles vinham caminhando com dificuldades entre os dormentes e as pedras do leito da ferrovia.
               Enquanto esperava seus companheiros, o Príncipe sentou-se num banco da plataforma e começou a conversar em português com o agente Antônio Marques Júnior. O agente surpreendeu-se com esse conhecimento real da língua portuguesa. Pediu informações sobre a qualidade das terras, sobre as madeiras das matas, sobre as principais lavouras, principalmente sobre o algodão, e até sobre leis. Segundo declarações do próprio Antônio Marques Júnior, “Como conhecia tudo isso, expliquei para ele”.
Mapa da Ferrovia São Paulo - Paraná
(Fonte: Blog Ferrovia São Paulo - Paraná)
               Depois o Príncipe disse que ia descansar so seu trem especial. Mas não foi. A comitiva foi até Jatay de carro, onde estava o grupo inglês preparando-se para o loteamento de Londrina. Conforme testemunha, o Príncipe foi recebido com usa comitiva em Jataizinho, pelo administrador dos ingleses, Elias Dequêch, permanecendo ali algumas horas, suficiente para participar da festa de batizado de Paulo, filho de Elias.
               Retornou o Príncipe de Gales tarde da noite. Depois de jantar, quase à meia-noite, despediu-se e o trem especial se pôs em marcha.
               Este relato vale mais pelo pitoresco, do que pelo seu valor histórico, pois os ingleses nada deixaram de sua curta permanência forçada em nossa Cornélio Procópio.
               O Príncipe de Gales tornou-se, em 1936, Rei Eduardo VIII da Inglaterra e no mesmo ano renunciou à coroa, para não renunciar ao amor de uma plebéia.
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                É bem plausível que os príncipes britânicos não tenham podido vislumbrar a frondosa Aruacária, pinheiro símbolo do Estado do Paraná, uma vez que adentraram em seu território pelo Norte. Tivessem vindo pelo Sul e com mais tempo, na época certa poderiam até ter conhecido seu fruto e quem sabe mesmo ter provado de suas matizes combinadas com diversas carnes no prato que conhecemos como entrevero.
Peroba-Rosa sendo serrada (desdobrada)
 em serraria do Norte do Paraná
(Fonte: Blog Ferrovia São Paulo - Paraná)
                É certo porém que o então Príncipe de Gales e o Duque de York tenham vislumbrado o porte, a altivez e a agradável coloração da Peroba-Rosa, árvore que por sua vez pode muito bem ser o símbolo do Norte do Paraná. Os visitantes chegaram em um momento em que a exploração dessa madeira encontrava-se se não em seu auge, pelo menos em ritmo bastante acelerado, com cidades florescendo e crescendo às margens da Ferrovia São Paulo – Paraná. A região cheirava a pó-de-serra e este possuía o aroma peculiar da Peroba-Rosa.  A incipiente indústria de beneficiamento da madeira, desdobrava milhares de metros cúbicos ao dia, enviando por via-férrea os caibros, vigas, sarrafos e tábuas que produzia para os mercados consumidores de São Paulo e Rio de Janeiro. Cidades que cresciam também em ritmo acelerado. Nós é permitido então concluir que Edward e Albert tenham também sentido o aramo e o perfume da Peroba –Rosa recém derrubada e desdobrada.

                Podemos fixar a chegada e a permanência dos Príncipes a Cornélio Procópio por volta de 29 ou 30 de Março de 1931, pois chegaram a Fazenda Morrinhos em 02 de Abril, conforme publicado pelo site “Estações Ferroviárias”. Nesta fazenda os ingleses pararam para descansar da viagem, neste lugar passaram todo o dia, participando de caçadas e festas esportivas.
Príncipe de Gales caçando na Fazendo Morrinhos
(Fonte: http://www.estacoesferroviarias.com.br)
Em 2 de abril de 1931, o Príncipe de Gales, o futuro Eduardo VIII, e seu irmão Jorge, o futuro Jorge VI da Inglaterra, estiveram na estação de Paula Souza [próxima a Botucatu – SP]. Os príncipes, de acordo com o correspondente da revistaNossa Estrada, Benvindo Lobo, vieram "fazer uma visita e realizar uma caçada de perdizes na fazenda Morrinhos, de propriedade doSr. Lineu de Paula Machado. Às 8 horas dava entrada nessa estação (Paula Souza) o grande especial de Suas Altezas, que era composto de 9 carros e conduzido pela locomotiva 809, tendo como maquinista João Antonio e chefe de trem Filenno Bucci. O desembarque da comitiva se deu às 13 horas, estando SS. AA. acompanhados pelas seguintes pessoas, (entre outras) (...) Dr. Lineu de Paula Machado, Dr. João Teixeira Soares, (...) Carlos Chagas, (...) e Dr. Gaspar Ricardo Junior, chefe da 4ª divisão, que representava a Sorocabana. Logo após o desembarque, dirigiram-se todos ao "Haras Expedictus" da fazenda Morrinhos, onde visitaram suas principais instalações. O pavilhão de caça, destinado exclusivamente a SS. AA., foi transformado em acomodações, decoradas finamente. (...) A excursão terminou às 23 horas e (...) Às 23:27, partiu desta Estação o Especial de SS. AA., com destino a São Paulo (...)" (Revista Nossa Estrada nro. 27, 1931).

                Os príncipes foram ainda até Belo Horizonte, onde os futuros Eduardo VIII  e George VI visitaram a mina de ouro de Morro Velho, em Nova Lima, mineradora pertencente também a britânicos. Retornando ao Rio de Janeiro passaram mais uma semana hospedados no Copacabana Palace Hotel, dedicando-se a assuntos particulares, visitas a empresas e istituições; Em São Paulo visitaram o Instituto Butantã, no Rio de Janeiro no Instituto Oswaldo Cruz, nos estaleiros da Ilha do Vianna, no Hospital dos Enfermeiros e o Colégio Anglo-Americano. Constou que essa visita incentivou muito o estudo da língua inglesa no Brasil.
                Por fim após receberem diversas condecorações do Governo Brasileiro e retribuir também com outras do Império Britânico, o Príncipe de Gales e o Duque de York partiram do Brasil, a bordo do navio “Arlanza”, em 12 de Abril de 1931. Deixaram a lembrança de sua visita e essa relação que pode ser apontada agora entre o premiado “O Discurso do Rei”, a cidade de Cornélio Procópio e o Norte do Paraná.

FONTES:
BRASIL, Átila. Das Origens da Emancipação do Município. [s.d.t]: Cornélio Procópio, 1988;
ESTAÇÃO PAULA SOUZA. Disponível em < http://www.estacoesferroviarias.com.br/p/paulasouza.htm > Acesso em 15 de Março de 2011;
REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL. Relatório do Ministro de Estado da Relações Exteriores no Ano de 1931. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1934. 


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9 comentários:

Dirceu disse...

Excelente, muito bons os textos. Objetivos, diretos e precisos... Importante notar sobretudo, a boa fluidez do texto do Professor Átila, simples e ao mesmo tempo criterioso. Certamente um exemplo para nós historiadores...

morato disse...

excelente trabalho meu caro irmão,gostei muito,não sabia dessa visita em nossa cidade.Parabens

Edimar Santos disse...

Parabens, pelo relato histórico!

Professor Ronaldo disse...

Olá Roberto.
Muito interessante sua publicação. Parabéns. Divulgar nossa História é fundamental.

AugustoO disse...

Também não sabia da visita de Principie de Gales e Duque de York em Cornélio Procópio, Excelente POST, com direito ate a fotos de 80 anos atrás...

osmar prado disse...

Parabéns em dose dupla.Primeiro, porque nossa família chegou em Cornélio Procópio em 1955. Eu tinha 5(cinco) anos de idade. Meu pai,Benedito Alves do Prado já era ferroviário. Eu vivi a "vida inteira" em torno dos trens, pois morávamos ao lado da estação.Eu era feliz e não sabia. muitas saudades de Cornélio Procópio e de uma infância, pobre, mas muito feliz.Em segundo lugar quero oferecer essa lembrança ao meu querido pai,que,se vivo, faria 80 anos dia 20 de abril vindouro.Parabéns a todos./grato.osmar carlos do prado de Foz do Iguaçu.Pr

Prof.Me.Roberto Bondarik disse...

Este texto teve a mais rápida repercussão desde que criei esse blog. Foram quase dois mil acessos em uma semana, repercutiu tanto que acabou resultando em uma reportagem da RPC/Globo com exibição em rede estadual na Revista RPC do dia 03 de Abril de 2011. O link para o bloco com a reportagem é esse http://relink.ws/kedb é lógico que isso se deu devido ao exotismo do assunto e ao grande sucesso desse filme que vale a pena assistir.

Renato disse...

Prof.Renato Palazzio, a história de nossa Cidade é de suma importância, porém, se não tivesemos exelentes professores como tantos que se preocupão com as origens da cultura norte paranaense, nunca poderiamos ter notado como é, como foi e por que não, como será, é notorio que poucas pessoas tem de fato sabido de tantas informações e de tão relevantes ao passado histórico de Cornélio, mas a você que um dia me ensinou tantas coisas que hoje uso em sala onde ministro minhas aulas é que realmente devemos agradecer pelo belissimo trabalho, valeu meu querido professor.

Giovane disse...

Bom texto professor. Interessante saber, vou procurar assistir o filme.