sábado, 12 de setembro de 2009

O COMBATE DE QUATIGUÁ

Apresentei este artigo no IV Congresso Internacional de História no dia 10 de Setembro de 2009.
Este Congresso foi promovido pela Universidade Estadual de Maringá.
Foi a primeira vez que se apresentou um artigo completo sobre o Combate de Quatiguá em um evento cientifico.
O artigo pode ser visualizado e impresso diretamente dos Anais do congresso pelo endereço < http://www.pph.uem.br/cih/anais/trabalhos/630.pdf >

Segue abaixo, na integra, o artigo como foi exposto:-------------------------------------------------
CONFRONTOS ARMADOS DA REVOLUÇÃO DE 1930 NO PARANÁ: O COMBATE DE QUATIGUÁ
Professor Me. Roberto Bondarik
bondarik@utfpr.edu.br


Docente da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (UTFPR)
Docente do Quadro Próprio do Magistério da Secretaria de Estado da Educação (SEED)
(Colégio Estadual “Cristo Rei” Ensino Normal – Cornélio Procópio - Paraná)
Resumo: O presente artigo objetiva apresentar aspectos conjunturais da Revolução de 1930 no Estado do Paraná e em seu Norte Pioneiro, especificamente dos combates ocorridos em 12 e 13 de outubro daquele ano em Quatiguá e ao longo do Ramal Ferroviário do Paranapanema. Através da análise historiográfica, documental e memorialista, identificou-se que em 1930 o Paraná, economicamente em crise, ressentia-se da influência paulista em sua região norte. A adesão paranaense à revolução liderada por Getúlio Vargas a partir do Rio Grande do Sul foi rápida e decisiva. Em poucos dias os revolucionários ocuparam todo o Estado levando o conflito até as divisas com São Paulo. Com a reação legalista da União e governo paulista que enviou tropas ao território paranaense os confrontos armados ocorreram e o Combate de Quatiguá foi dos mais decisivos para a Revolução, nele lutaram tropas revolucionárias gauchas do Exercito e Brigada Militar contra tropas legalistas do Exercito e Força Pública de São Paulo. Constatou-se que não foi apenas um recontro, constituindo-se em uma luta violenta, organizada, evolvendo centenas de soldados de cada um dos lados e contando com artilharia. As tropas gauchas, vencedoras do embate, eram experientes, oriundas de um ciclo de revoltas regionais da década de 1920, alguns dos seus comandantes haviam participado da Coluna Prestes e do Movimento Tenentista e da Guerra do Contestado. Os gaúchos capturaram armas, caminhões, automóveis e material de campanha demonstrando a determinação em impedir a posse de Julio Prestes, eleito Presidente da República com o apoio oligárquico. A partir desta luta os defensores da legalidade colocaram-se em posição defensiva abrindo espaço para que se negociasse o fim da República Velha no Brasil e a ascensão Getúlio Vagas ao poder.
Palavras Chaves: Revolução de 1930; Combate de Quatiguá; História do Paraná.
1 – INTRODUÇÃO
O Estado do Paraná foi o cenário onde se decidiu o destino da Revolução de Outubro de 1930 com a concentração em seu território das principais forças rebeldes que pressionaram o Estado de São Paulo e o Governo Federal do Presidente Washington Luís. O chefe da Revolução, Getulio Vargas deslocou-se do Rio Grande do Sul e agua7rdou no Paraná, próximo das tropas, o desfecho do movimento que afinal sagrou-se vitorioso.
Considerado um território estratégico para o sucesso ou a contenção de uma rebelião iniciada no Rio Grande do Sul, o Estado do Paraná foi palco de diversos combates durante a Revolução de 1930. Iniciado este movimento tropas gaúchas avançaram rapidamente pela Ferrovia São Paulo – Rio Grande e dominaram em Santa Catarina todo o território do antigo Contestado parando em Porto União. As tropas do Exercito e da Policia do Paraná aderiram à Revolução e se aproximaram das divisas com São Paulo, que permaneceu fiel ao Governo Federal até o fim. Revolucionários gaúchos e paranaenses ocuparam posições em diversos pontos do Estado e desta movimentação resultaram alguns combates que se destacaram: Capela da Ribeira, Fazenda Morungava (Sengés-Pr / Itararé-Sp) e Quatiguá, no Norte Pioneiro.
Expor e analisar a conjuntura factual do Combate de Quatiguá, ocorrido nos dias 12 e 13 de Outubro de 1930 é o objetivo principal deste artigo. Opuseram-se nesta luta os “Paulistas”, formados pela Força Pública de São Paulo e destacamentos do Exercito que ainda eram fiéis a legalidade e os “Gaúchos”, revoltosos formados elementos da Brigada Militar do Rio Grande do Sul e tropas regulares do Exercito que haviam se rebelado naquele Estado. A ênfase dada aos aspectos factuais neste trabalho justifica-se pela forma como a memória sobre este evento foi recuperada. As informações que permitiram a sua reconstituição foram coletadas em diversas fontes que incluíram livros, relatórios militares, jornais de época, revistas, relatos biográficos e memorialistas entre outras tantas. O resultado aqui obtido perpassa uma visão conjuntural que permite imaginar este e outros acontecimentos vivenciados no Brasil naquele momento conturbado, vinculados ao movimento revolucionário-militar de 1930 sendo possível destacar o preparo e a motivação dos revoltosos.
2 – A REVOLUÇÃO DE 1930
O movimento revolucionário de outubro de 1930 consolidou-se a partir do rompimento político entre as oligarquias paulista e mineira, cujo acordo fundamentava-se no poderio econômico de São Paulo e grandiosidade do colégio eleitoral mineiro. Desde fins do século XIX, com a consolidação da República, um acordo tácito entre os governantes destes dois estados garantia a alternância de ambos na Presidência da Republica, uma pratica denominada “Política do Café-Com-Leite”, efetivada pelo “Pacto de Ouro Fino” acordado em 1913. A crise econômica de 1929, atingindo a economia cafeeira, espalhou seus efeitos no Brasil.
A crise atinge o Brasil em um momento político delicado, quando se realizavam os procedimentos para a escolha do sucessor do Presidente da República, Washington Luiz. Conforme os princípios da política do café-com-leite, o grupo a quem caberia indicar o próximo presidente seria a oligarquia mineira, seu candidato era o presidente de Minas Gerais, Antonio Carlos de Andrada. Alegando a necessidade de continuar com sua política econômica e visando a recuperação financeira do país, Washington Luiz indicou como candidato oficial a sucessão o presidente do Estado de São Paulo, Júlio Prestes. Contra ele colocou-se pela oposição a Aliança Liberal através da candidatura de Getúlio Vargas para Presidente da República e de João Pessoa para vice. Os liberais colocavam-se contra o “coronelismo” e o “voto de cabresto”, defendiam a implantação do voto secreto, a modernização da sociedade e a dinamização da economia brasileira.
A Aliança Liberal acabou sendo derrotada nas eleições de 1930, à exceção dos estados que a apoiavam: Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul.
Na Republica Velha, as opções para os candidatos derrotados eram amargas: reconhecer a vitória do adversário, contentando-se com uma fatia menor no bolo do poder, ou continuar na oposição, arrostando uma perseguição implacável. Em 1930, porém, os derrotados controlavam três governos estaduais. Era menos que o suficiente para eleger um presidente, porém mais que mera influência civil (CALDEIRA, 1997, p.259).
A partir de maio de 1930 organiza-se um movimento conspiratório com o objetivo de impedir a posse de Júlio Prestes. Os tenentes que haviam participado das rebeliões militares da década de 1920 foram contatados e muitos aceitaram aderir e auxiliar na condução do movimento. A Revolução teve seu inicio em 03 de outubro de 1930, uma sexta feira, com movimentos sincronizados que foram levados a efeito no Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Paraíba. As 17h30m deste dia revolucionários comandados por Oswaldo Aranha e Góes Monteiro, tomam o Quartel General do Exercito em Porto Alegre, prendendo o comandante da Região Militar, General Gil de Almeida. Os rebeldes e tomam, com poucas exceções, os quartéis e guarnições do Exercito em todo o Estado. Iniciava-se de maneira prática o movimento que alçaria Getúlio Dorneles Vargas à Presidência da República no Brasil por quinze anos.
3 - O PARANÁ NO CAMINHO DA REVOLUÇÃO
Com o Rio Grande do Sul sob controle, os revolucionários precisavam atravessar quatro estados (Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro) até a capital da República. Não dispondo do apoio da Marinha de Guerra, o único caminho era pela Ferrovia São Paulo – Rio Grande. Por esta via, ainda no dia 03 de outubro, horas antes dos eventos em Porto Alegre, forças rebeldes seguiram pelo interior de Santa Catarina, com o objetivo de chegar rapidamente até Porto União, na divisa com o Paraná. O domínio desta ferrovia garantiu aos revolucionários o controle sobre a antiga área do Contestado, preservando a segurança e o deslocamento das suas tropas com seus suprimentos que deveriam fluir por esta única via.
Quando as forças revolucionárias chegam a Porto União, o Batalhão de Caçadores vindo de Joinville e ai estacionado já havia se rebelado e aderido à Revolução. Neste mesmo dia, 04 de outubro, o 13º Regimento de Infantaria também se rebelou e assumiu o controle sobre a cidade de Ponta Grossa. Em Curitiba o Major Plínio Tourinho, em acordo com os gaúchos, conduziu um conjunto de ações que levou a adesão da guarnição federal, da Policia Militar e do Corpo de Bombeiros. O Presidente do Estado, Affonso Camargo, sem apoio militar, retirou-se para Paranaguá e daí para São Paulo. Desta forma em 05 de Outubro Curitiba encontrava-se sob um governo revolucionário, seu chefe era o General da Reserva Mário Tourinho (irmão do Major Plínio):
A adesão do Paraná foi quase a vitória da Revolução. Pela sua situação geográfica e pela unidade de vistas do povo e da guarnição militar do Exercito, o seu concurso à causa foi dos mais inestimáveis. Após a vitória da manhã de 05 de outubro [de 1930] às 13 horas desse dia, entrei em franca ligação pelo telégrafo com o chefe da revolução, dr. Getúlio Vargas, dando-lhe conta das ocorrências mais importantes e das medidas tomadas para garantia do movimento revolucionário. Dele recebi o primeiro telegrama, que dizia: “Porto Alegre, 5 – Major Tourinho. Curitiba. Paraná. Bravo! Bravo! Marcho com o Rio Grande ao vosso encontro. Vamos todos. Exercito e povo. Abraços. Getúlio Vargas” (TOURINHO, 1983, p.83).
Com a adesão paranaense, as tropas gaúchas avançam pelo estado e chegam a Ponta Grossa. O 5º Regimento de Cavalaria Divisionária, sediado em Castro permaneceu fiel a Legalidade quando realizou seu recuo em direção a São Paulo destruiu trechos da ferrovia e danificou pontes. Em Itararé-SP, junto a divisa com o Paraná, foram organizadas forças para impedir o avanço revolucionário e as primeiras forças rebeldes que seguem naquela direção eram formadas pelo 13º Regimento de Infantaria e pela Policia Militar do Paraná. Os rebeldes paranaenses foram seguidos pelos gaúchos que em Jaguariaíva adentraram pelo Ramal Ferroviário do Paranapanema, atingindo sem dificuldades o Norte Pioneiro do Paraná.
A 07 [de outubro] chegava a Ponta Grossa a ponta da vanguarda de Miguel Costa, que seguiu immediatamente para Castro, depois que seu commandante conferenciou comigo. Era esse comandante o Capitão [Trajano] Marinho. A gauchada estava sequiosa para combater e não admittia que tivesse seguido na frente um batalhão do 13º R.I. Eram trezentos homens bem fardados e bem armados (MIRANDA, 1933, p.95-96).
Outras forças seguiram de Curitiba para o Vale da Ribeira onde ocorreram também combates.
[...] houve um impasse militar na fronteira com São Paulo [e Paraná], perto da cidade de Itararé. A batalha ai travada teve características aparentemente modernas, com trincheiras em toda a frente de combate, arame farpado, ninhos de metralhadoras e artilharia (YONG, 1979, p.26).
Tomavam forma rapidamente as três frentes de luta entre os rebeldes revolucionários e as forças defensoras da legalidade formadas por unidades do Exercito sediadas em São Paulo e Rio de Janeiro e pela Força Pública Paulista. As frentes de combate eram Vale da Ribeira, Sengés-Itararé e Norte Pioneiro e Norte Pioneiro.
4 - O NORTE PIONEIRO E O COMBATE DE QUATIGUÁ
Conhecido à época apenas como “Ramal Ferroviário do Paranapanema”, o Norte Pioneiro Paranaense possuía uma grande importância dentro do contexto do avanço da Revolução sobre o Estado de São Paulo. Coube a tropas vindas diretamente do Rio Grande do Sul assegurar o seu controle. No dia 08 de outubro, contando com apoio local, um comboio ferroviário transportando um esquadrão da Brigada Militar chega até Colônia Mineira, atual Siqueira Campos e daí seguindo até Affonso Camargo, atual Joaquim Távora, nos dias seguintes. Eram conforme relatado por Miranda (1933) cerca de trezentos homens fardados e bem armados.
[...] seguindo para Porto União, de onde marchamos na segunda composição para a Colônia Mineira, onde junto com o Cap. Marinho empossamos as autoridades ficando nossa composição em Colônia Mineira e seguindo a primeira para Affonso Camargo sob o comando do Cap. Marinho (PRADO, 1931, p. 258).
O Esquadrão Marinho foi a primeira força gaúcha que se aproximou da divisa de São Paulo. Pelo Norte Pioneiro poderiam chegar por via férrea até diante de Ourinhos-SP, poderiam atravessar o Rio Paranapanema pela Ponte Pênsil “Manuel Alves de Lima”, em Ribeirão Claro ou transpor o Rio Itararé em Porto Maria Ferreira ou em Carlópolis, adentrando assim ao Estado de São Paulo.
Foram os primeiros combatentes revolucionários que se aproximaram da fronteira. Por isto, os que primeiro se mediram com os que desceram de São Paulo. Atingindo a estação férrea de Jaguariaíva, onde a estrada se bifurca, deixaram a direção de Itararé para a direita e rumaram para Colônia Mineira [Siqueira Campos-PR], à esquerda. Atingiram-na sem tropeço. E não perderam tempo (LEITE, 1931, p.151).
Os revolucionários possuíam como um dos seus objetivos, partindo do Norte do Paraná, a cidade de Bauru cujo controle efetivo dividiria o Estado de São Paulo em duas partes. De Bauru poderiam fazer a junção com as tropas mineiras e através de Minas Gerais e atingirem a cidade do Rio de Janeiro. O Estado de São Paulo, sua capital e o Vale do Paraíba ficariam assim isolados e obrigados a aceitar a vitória da Revolução. Paulo Nogueira Filho (1958) faz menção a esse plano que seria efetivado em caso de maior resistência paulista em Itararé.
Fui ao vagão do Estado-Maior, onde encontrei de plantão o seu subchefe, Newton Estilac Leal, também meu bom amigo. Sobre a mesa havia um mapa de São Paulo, indicando uma flecha encarnada o caminho de Bauru. Estratégia à vista: cortar o Estado de São Paulo em dois. Tudo estudado em suas minúcias (NOGUEIRA FILHO, 1958, p.527).
Os rebeldes não se contiveram em Siqueira Campos, seguiram daí, pela ferrovia rumo ao norte:
Continuaram avançando, sempre pela via férrea. Transpuseram a estação Catiguá [Quatiguá-PR] e prosseguiram para Affonso Camargo [atual Joaquim Távora-PR]. Afinal aqui [...] tiveram contato com os primeiros adversários (LEITE, 1931, p.151).
A força legalista que os gaúchos enfrentaram em Joaquim Távora e posteriormente em Quatiguá, era composta por elementos do Exercito vindos de Quitaúna, da Força Pública Paulista reforçados pelos alunos da Academia dessa força. Haviam ainda diversos voluntários civis recrutados por Ataliba Leonel, deputado federal e chefe político do interior de São Paulo. Diante da oposição encontrada o Esquadrão Marinho recuou para Quatiguá onde esperou reforços, era o dia 11 de outubro. Este combate inicial foi noticiado em São Paulo, no dia seguinte como uma grande vitória da forças da Legalidade:
O Esquadrão Marinho aguardou a chegada “Destacamento Etchegoyen”, comandado pelo Coronel Alcides Gonçalves Etchegoyen, no amanhecer de 12 de outubro. Esse oficial rebelde havia participado do planejamento da Revolução em Mato Grosso, de onde retornou para atuar no grupo de comando a mesma em Porto Alegre.
Naquele grupo, entre outros, figuravam Osvaldo Aranha, Pedro Aurélio de Góes Monteiro, Miguel Costa, Virgilio de Melo Franco, João Alberto Lins de Barros, Newton Stilac Leal, [os irmãos] Alcides e Nelson Etchegoyen, Amaral Peixoto, Hercolino Cascardo, Pinheiro de Andrade, Cícero Góis Monteiro, Ricardo Holl, Mauricio Cardoso, Adalberto Corrêa e Luís Aranha. Entre os demais núcleos da “Coluna-Mestra da Revolução” destacavam-se os de Assis Brasil, João Neves, Raul Pila, Lindolfo Collor, Flôres da Cunha e Batista Luzardo. Em plano mais distante, vários líderes militares e civis, também de prestigio. Dominando soberanamente esses conjuntos de chefes, líderes, grupos e núcleos, investido oficialmente das funções de “Chefe Supremo da revolução”, o Dr. Getúlio Dornelles Vargas imperava (NOGUEIRA FILHO, 1958, p.511).
O Destacamento Etchegoyen era predominantemente gaúcho, como o restante das forças do General Miguel Costa. As forças de Etchegoyen eram formadas por grupos de diversas unidades sediadas no Rio Grande do Sul.
Duas colunas paulistas avançaram pelo Norte Pioneiro do Paraná, a primeira era liderada pelo coronel Sandoval, comandante da Academia da Força Pública de São Paulo e havia partido de Ourinhos, a segunda era conduzida pelo Major Agnello de Souza, oficial do Exercito e avançando desde Piraju-SP, passou por Fartura e Carlópolis. O objetivo destas forças era chegar até Colônia Mineira, controlando o Ramal do Paranapanema e fechar caminho aos revoltosos. A partir daí poderiam auxiliar no contra-ataque legalista na frente de combate Sengés-Itararé. Conforme Aureliano Leite (1931) a coluna Sandoval, antes do choque com as forças gauchas, eliminou diversos núcleos revolucionários organizados por politicos ligados ao Partido Democrático Paulista, aliados de Getúlio: em Cambará e Santo Antonio da Platina.
Estes, passando por Cambará e Platina, já tinham esmagado os núcleos revolucionários locais, improvisados pelos paulistas Coriolano de Lima, Bráulio Barbosa e outros elementos democráticos. (LEITE, 1931,p.)
Devido a chegada das tropas e a possibilidade do combate, a população local se retirou buscando abrigo na área rural em locais melhor protegidos. O depoimento de Jorge Luna, antigo morador de Quatiguá, em 1984, faz referência a essa fuga:
A Revolução de 30 começou no dia 3 de outubro, calculando Jorge Luna que as tropas permaneceram cinco dias em Quatiguá e que os choques se verificaram entre os dias 11 e 13. Porém, a população começou a se retirar do patrimônio ao perceber a chegada dos gaúchos, dos quatro ou cinco comerciantes, apenas dois permaneceram, José Simeão Rodrigues [...] e Silvio Zanini, “os demais se retiraram para os sítios e fazendas”. Porém, aqueles que permaneceram em suas casas não foram molestados por qualquer das tropas, conquanto as “requisições” nas casas comerciais, principalmente as abandonadas, fossem feitas a grosso. Naquele tempo. Quatiguá [...] era apenas um patrimônio dividido em duas zonas, uma conhecida por Barra Grande e outra por Chapada. (FOLHA DE LONDRINA, 1984, p.24)
Para colher informações sobre o efetivo adversário e o sentido de seu avanço, se vinham para a Estação Quatiguá ou se via Pinhal seguiam diretamente para a Colônia Mineira, foi formada uma patrulha de cavalaria. O piquete comandado pelo Tenente Waldomiro Remião foi averiguar as cercanias de Affonso Camargo e observar o deslocamento das tropas paulistas na estrada de Pinhal procurando a força que havia empenhado combate com o Esquadrão Marinho. Os revolucionários não esperavam combates no dia 12 em Quatiguá por não conhecerem ainda o real efetivo da força paulista e por não saberem também que eles estavam tomando posições nos arredores da localidade. Sua intenção era atacar e tomar a Estação Quatiguá, garantindo assim a retaguarda para avançar sobre a Colônia Mineira. Os gaúchos foram pegos de surpresa como comprova o relato de Vanderley Véras:
De súbito, pelas 16h.30m. mais ou menos, ouvimos alguns estampidos nos arredores. Era a patrulha de reconhecimento que tiroteava com avançadas do inimigo. Em seguida entra a galope villa a dentro, o piquete do tenente Remião, declarando que o inimigo se approximava. O major Alcides de Araújo, momentos antes mandara que três pelotões da Carta Geral tomassem posição nos arredores do povoado, afim de evitar surpresas. O resto do pessoal descançava, emquanto outros churrasqueavam na maior camaradagem. [...] O capitão Frederico Guilherme Klumb, commandante da companhia de metralhadoras pesadas, dava instruções ao pessoal e experimentava também uma burrada chucra que devia conduzir as metralhadoras. A situação era, pois apparentemente de calma. Não esperávamos combate. (VERAS, 1933, p.237)
O combate transcorreu por parte da noite do dia 12 ainda. Ambos os contendores receberam reforços e foi se desenhando aquele que seria um dos mais violentos combates da Revolução de 1930, superior mesmo aos da frente de Sengés.
O tiroteio cerrou nas suas linhas. Era formidável a sua potencia de fogo! As suas metralhadoras pesadas em rajadas successivas metralhavam o pequeno lugarejo, completamente aberto, constituído de poucas casas, distanciadas umas das outras. Os nossos pelotões que estavam na frente respondem ao fogo dos sitiantes com um desassombro admirável, embora conscientes da superioridade numérica do inimigo, o qual se atira com ímpeto contra os referidos pelotões. Os pseudo-legalistas soffrem baixas nas suas investidas emquanto que os três pelotões que eram commandados pelos valorosos companheiros 2º tenentes Cecílio Cora Morossoli, João Tavares Barbosa e pelo malogrado Ivo Sampaio Ribeiro, honrando as tradições bellicosas do Rio Grande, assaltados pelo enthusiasmo da nossa causa e pelo ardor da lucta que se esboçava, resistem galhardamente, heroicamente, ao choque do adversário, dando assim tempo que o resto da nossa força tomasse posições (VERAS, 1933, p. 238)
O posicionamento das forças dava a Estação Férrea de Quatiguá uma situação dominante, os paulistas posicionavam em forma de meia lua com a Estação e os gaúchos ao centro. Nesta edificação foi instalado o Posto de Comando do Destacamento, que contava agora com a participação de seu comandante na condução da luta e em seu telhado foi colocada uma seção de metralhadoras pesadas
Felizmente corre célere pelas nossas linhas a noticia de que o bravo coronel Alcides Etchegoyen, commandante da Columna, chegava de Colônia Mineira, trazendo reforços: o 1º batalhão do 7º R.I. sob o comando do valoroso tenente-coronel Nestor José da Silva Soares. Realmente o coronel Alcides Etchegoyen, acompanhado pelo chefe de seu Estado-Maior, major Stoll Nogueira e dos officiaes 2º tenentes Lauro Villeroy França, Dyonisio Ferreira Marques e Caio Rodrigues Leopoldo, que vieram de trem, avançando cautelosamente, luzes apagadas, com observadores na machina e elle próprio sobre os carros, desembarcou um kilometro antes da estação Quatiguá, avançando com a 2ª companhia do 1º batalha do 7º R.I. atravez da linha férrea, afim de entrar em ligação com a nossa tropa, o que aliaz conseguiu, chegando á estação férrea, onde fora instalado o P.C. do 1º B.C. Passou a noite toda tomando providencias, desenvolvendo uma actividade digna de nota, localisando as diversas sub-unidades e escolhendo as posições para a companhia de metralhadoras pesadas (VÉRAS, 1933, p. 240)
O relatório de Nelson Etchegoyen que era o comandante da artilharia rebelde completa as informações sobre o combate que transcorreu até as nove horas da manhã de 13 de outubro.
Às 2 horas tivemos ordem de seguirmos imediatamente para Quatiguá a fim de reforçarmos o restante do [1º] Destacamento, que seria atacado por forças paulistas, que durante toda a noite recebiam reforços, procurando envolver a estação, onde se achava tropa amiga; seguimos e apenas desembarcamos a nossa última peça de artilharia foi desencadeado violento ataque com tropas regulares da Força Pública Paulista. Nesse combate nossas tropas, fiéis às tradições de bravura dos seus antepassados, se portou com extraordinário heroísmo e sangue frio, derrotando de modo absoluto e formal, o inimigo [...] (ETCHEGOYEN, 1931).
A tropa legalista retirou-se, após ser derrotada, em direção à divisa de São Paulo. O relatório do Coronel Alcides Etchegoyen, levando-se em conta a sua visão particular dos acontecimentos, resume as condições da retirada dos legalistas.
O seu dispositivo esfrangalhou-se, o pânico se manifestou em suas fileiras, veiu a desordem e a confusão. A ninguém mais seria dado conter aquella tropa cheia de terror, cujo pensamento único era fugir e cuja fuga era cortada pelo fogo das nossas metralhadoras pesadas que a fusilava em massa. As populações das cidades e villas, ao longo da via férrea Quatiguá - Jacaresinho, são testemunhas do estado de desmantello e desmoralisação das tropas adversárias em fuga, as quaes tomadas de pavor e viajando em caminhões incendiavam, com auxilio de gazolina, as pontes e pontilhões ao longo da estrada, afim de evitar a perseguição de nossa tropa e destruindo a dinamite de uma maneira bárbara as pontes lançadas sobre o Paranapanema e incendiando todas as balsas, botes e canoas existentes nos diversos passos daquele rio, abandonando em definitivo naquella região, o Estado do Paraná (VÉRAS, 1933, p. 243).
Os legalistas destruíram as pontes sobre o Rio Paranapanema, a ponte ferroviária da Viação São Paulo-Paraná que ligava a Ferrovia Sorocabana também ao Ramal do Paranapanema, a ponte pênsil rodoviária (Ponte Pênsil Manoel Alves de Lima) em Ribeirão Claro foi também destruída com dinamite. O intento legalista era impedir o avanço gaúcho sobre São Paulo.
A importância desse combate travado em Quatiguá foi registrada pelo Cônsul Geral dos Estados Unidos da América em São Paulo, que em telegrama datado do dia 18 de outubro alertou o Secretario de Estado daquele país sobre os resultados desse combate e o desenrolar da Revolução.
Coluna governista avançando de Ourinhos seriamente derrotada há poucos dias atrás. Governo agora na defensiva. Estrada de ferro São Paulo-Paraná transportando bens requisitados e todas as pontes destruídas pelo governo. Toda a estrada de ferro São Paulo-Rio Grande do Sul cooperando com revolucionários (YOUNG, 1979, p.27).
Encerrado a situação em Quatiguá os rebeldes ocuparam a região dando combate aos remanescentes legalistas. Em 15 de outubro exploram Carlópolis, cidade que ocupam em definitivo no dia seguinte. Em 19 de outubro chegam Ribeirão Claro e Jacarezinho onde dão posse a novas autoridades municipais.
Em Carlópolis os militares gaúchos exploraram as margens do Rio Itararé até o Porto Maria Ferreira. Construiram barcas para a travessia do rio. Porém era o dia 24 de outubro, e no Rio de Janeiro os Generais e Almirantes em um Golpe de Estado depõem e prendem o presidente Washington Luiz alegando evitar maior derramamento de sangue. Após negociações estava vencida a Revolução de 1930.
5 - CONCLUSÃO
A derrota diante das tropas revolucionarias em São Paulo fez ver aos Generais que se rebelaram em 24 de outubro no Rio de Janeiro, e também ao Governo Federal que estavam diante de uma Revolução diferentes das outras que se haviam iniciado no Rio Grande do Sul. Ao contrário da Guerra dos Farrapos que ficou restrita à aquele Estado e à Santa Catarina e a Revolução Federalista que não teve forças para transpor o Paraná, os revolucionários de 1930 estavam apenas aguardando o momento propicio para marchar sobre São Paulo e atingir o Rio de Janeiro. O Combate de Quatiguá demonstrou a capacidade de logística de transporte e operacional de combate dos rebeldes, monstrou sua organização e a disciplina de suas tropas, além de sua determinação em vencer pelas armas os seus opositores.
No Combate de Quatiguá forjou-se a perspectiva de vitória pelas armas da Revolução chefiada por Getulio Vargas, a partir de então as estruturas da Republica Velha no Brasil estavam condenadas. As forças da legalidade apesar da resistência prometida em Itararé colocavam-se na defensiva. Em termos políticos e culturais o 13 de Outubro de 1930 em Quatiguá marcou o alvorecer de um novo Brasil, que se não mais justo, foi mais moderno, urbano e industrial. A Revolução faria sentir seus efeitos nos anos seguintes

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E FONTES

AINDA O COMBATE DE QUATIGUÁ. Gazeta do Povo. 23 de Outubro de 1930 – Nº 4.178 – Ano XI – p.01;
CALDEIRA, Jorge. Viagem Pela História do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997;
DONATO, Hernâni. Dicionário das Batalhas Brasileiras. São Paulo: Ibrasa, 1987;
ETCHEGOYEN, Nelson. Relatório de Combate do 6º R.A.M no Norte do Paraná. Cruz Alta: Boletins do 6º Regimento de Artilharia Montada , 1931.
LEITE, Aureliano. Memórias de um revolucionário: A Revolução de 1930, Pródromos e conseqüências. lª edição. s/l. 1931.
MIRANDA, Alcebíades. Justitia Vanum Verbum: Episódios da Revolução de 1930. São Paulo: (S.D.T.) 1933;
NOGUEIRA FILHO, Paulo. Ideais e Lutas de um Burguês Progressista: o Partido Democrático de São Paulo e a Revolução de 1930. São Paulo: Anhambi, 1958;
PAULISTAS E GAÚCHOS LUTARAM EM QUATIGUÁ. Jornal Folha de Londrina, Caderno 2 – Sexta-feira, 06 de Abril de 1984, p.24
PRADO, Hermínio. “Acção da Legião Garibaldi do Commando do General Elisiário Paim Filho”. In: Revolução de 1930: Imagens e Documentos, Revista do Globo – Edição Especial, Fevereiro de 1931, Porto Alegre: Barcellos, Bertaso & CIA, p. 257-261;
TOURINHO, Plínio. Depoimento. In: Cinqüentenário da Revolução de Trinta no Paraná. 2ª Ed. Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, 1980, p.78-83;
VERÁS, Wanderley. O Combate de Quatiguá. In: MIRANDA, Alcebíades. Justitia Vanum Verbum: Episódios da Revolução de 1930. São Paulo: (S.D.T.) 1933, p.236-244;
YOUNG, Jordan. “Aspectos Militares da Revolução de 1930. In: FIGUEIREDO, Eurico (Org). Os Militares e a Revolução de 30. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p.15-35;

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