segunda-feira, 11 de junho de 2007

Placa colocada no monumento aos mortos no Combate de Quatiguá, situada na Praça Expedicionário Eurides Fernandes do Nascimento, naquela cidade (Foto: Prof. Roberto Bondarik - Julho/2006)

Disponibilizo aqui um texto retirado do livro Memórias de Um Revolucinário, escrito por Aureliano Leite, publicado em 1931 e reeditado em 1950. Ele não é o único a se referir e descrever o Combate de Quatiguá. Existem diversos outros livros, revistas e jornais da época que registraram e descreveram o combate. Mas este foi o primeiro que consegui através da Linda dos Santos Nogueira, que trabalha na Prefeitura de Quatiguá, e que há tempos se preocupava com o assunto.
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MEMÓRIAS DE UM REVOLUCIONÁRIO

LEITE, Aureliano. Memórias de um revolucionário: A Revolução de 1930, Pródromos e conseqüências. lª edição. s/l. 1931.

Sucedem-se combates em toda a linha divisória de São Paulo – Paraná
Nas margens paranaenses, dos rios Paranapanema, Itararé e Ribeira do Iguape, desenrolam-se os primeiros encontros sérios.
Afirma-se que Itararé, fortificada pela própria natureza, robustecida pelas minas da entrada, atrás da qual há oito mil legalistas que dispõem de aviões do bombardeio e manejam peças inúmeras de todos os calibres, sem contar as centenas de metralhadoras, carros de assalto, granadas de mão e até gazes asfixiantes... se afirma ser Itararé intransponível.
Mas as tropas regulares dos revolucionários, que só agora se avizinham, já divisaram outros pontos por onde tentar o ingresso.
E por sua vez dispõem d mais de trinta mil homens com terrível preparo, forrado de todo o seu ardor de pretendidos libertadores da República, presa do perrepismo.
Seu grito de guerra é ainda uma homenagem ao presidente sacrificado: “Viva João Pessoa”.
Uma das estações radiográficas de Buenos-Aires anuncia que se processa na linha divisória de São Paulo até hoje na América do Sul.
Mil e uma bocas aterradas, enquanto o comunicado oficial fala em derrota dos revolucionários em Itararé, trazem, numa corrida para São Paulo, minúcias da luta travada às portas de Ourinhos. Os revolucionários entram em cunha por entre uma coluna legalista, formada da polícia e de legionários paulistas que os foram atacar em Colônia Mineira. Partem-na ao meio e envolvem a metade do lado do Paraná, aniquilando-a.
Mulheres gaúchas pontilhamos grupos dos revolucionários.
No resto da coluna paulista salteia o pânico. Atravessam em debandada a ponte sobre o Paranapanema, trazendo na fuga os retaguardianos que guarneciam Ourinhos.
Mas os revolucionários não querem ocupar Ourinhos. Poderiam entrá-la em desfile, com banda de música, tambores e clarins, à vanguarda. Obedecem, porém, a um plano geral de assalto que não lhes consente avançar demais.
A notícia da derrota voa à concentração dos legalistas em Piraju, Itapetininga e demais. Acodem os legalistas com três a cinco mil homens, das 4 armas. Reguarnecem Ourinhos. Destroem a imensa ponte recém construída. E aguardam do lado de São Paulo os invasores.
Do Norte sente-se a impressão de que as coisas pretejaram tanto que nem mais é objeto dos comunicados oficiais. Apenas incidentemente se vae apercebendo o que lá ocorre de verdade.

21 de Outubro (...) Loja de ferragens da rua de São Bento, havia um grupo, em torno de um magricela fardado. Ouviam-no atentamente, apesar da cautela.
O caixeiro que me servia era um “camarada”. Improvisou uma cena demorada de escolha do objeto, murmurando-me de início:
- Veja e ouça.
E eu vi um tenente governista que trazia ares de derrota estampados na cara comprida e amarela e nos gestos. E ouvi quase toda a sua narrativa. Chegara de Itararé, havia duas horas. Aquilo se tornara um inferno. Os riograndenses estão conquistando a entrada. Bombardeiam horas a fio tremendamente as posições legalistas. Depois crescem, com armas brancas, cortantes como navalhas. Caem muitos sob a metralha da legalidade, mas os remanescentes, aos gritos, transpõem os cadáveres dos companheiros e acabam conquistando, corpo a corpo, os lugares visados. Na legalidade já há desânimo e medo. Os invasores são em dezenas de milheiros. Já refizeram mal e mal a ponte e atravessam o rio. Também em Ourinhos ocorrem duelos pavorosos, sempre com o sucesso dos revolucionários, que restauraram a ponte sobre o Paranapanema e dão combate em território paulista. Ele, tenente, não volta mais para o Cambucí. Revolta o procedimento dos próceres, que põe a frente. Prefere morrer aqui a fome e frio, num xadrez do Cambucí. Revolta o procedimento dos próceres, que põe na frente os ingênuos reservistas e os estúpidos estrangeiros, húngaros e alemães.

(...) Cruzo no caminho com um conhecido que chegara de Itararé. É pessoa absolutamente idônea. Dou pela veracidade do seu depoimento o meus aval.
De agora em diante cedam logar à história nua e crua os boatos com relação ao que se passou no Sul, das portas do estado de São Paulo ao Rio Grande. E dispam-se os heroísmos da ficção para que apareçam os lanços humanos com suas fraquezas, Aliás, dês do cap. X ao XVIII, limitei-me a colecionar boatos.

Concateno e redijo os magníficos apontamentos que se me ofereceram. Falem eles a verdade.
O presidente Getúlio Vargas, investido de chefe supremo das hostes revolucionárias, fixara-se desde 11 de outubro em Ponta Grossa, Paraná, a cem quilômetros de Itararé. Rodeiam-no suas casa civil e militar. Ficara no governo do estado do Rio Grande do Sul Osvaldo Aranha. O exercício pertencia ao vice-presidente, deputado João Neves da Fontoura. Mas este preferira incorporar-se às forças combatentes.
Comanda o estado maior do Exército libertador o coronel Gois Monteiro. Serve-lhe de ajudante o cap. Ricardo Hall.
A frente onde o Paraná acaba e São Paulo começa foi dividida em três pedaços, repartidos pelo cap. Alcides Etchegoyen, major Miguel Costa e tenente João Alberto.
Ao cap. Etchegoyen tocou a região em face do Paranapanema e seu ramal férreo. Alcança de Cambará em frente de Salto grande, à Jaguariaíva, em frente de Itararé. Pela linha da fronteira, compreende Cambará, Jacarezinho, Ribeirão Claro, Jaboticabal, Carlópolis, Colônia Mineira, Boa Vista e Jaguariaíva - localidades paranaenses mais ou menos paralelas às seguintes paulistas? Salto Grande, Ourinhos, Piraju, Fartura, Itaporanga e Itararé. Seus homens, atingem a casa de 2.000. São eles: 1º B.C., tirado de tropas da Carta Geral da Brigada Gaúcha e do 9º B. C., capitaneado pelo major Alcides de Araújo; 2º B.C., composto de contingentes de 1º e 7º R.I., comandado pelo coronel Nestor da Silva Soares; 3º B.C., formado por elementos do 1º e 8º R.I., dirigido pelo tem. Cel. Olímpio dos santos Rosa; e um agrupamento misto, onde havia um batalhão de caçadores, uma bateria de artilharia e três companhias de metralhadoras pesadas.
Segue-se a região ocupada pelo antigo major da cavalaria paulista Miguel Costa, general para os revolucionários. Começa onde acaba a jurisdição de Etchegoyen e abrange toda a zona fronteira ao campo entrincheirado de Itararé. Forma como que o tronco da vanguarda, apoiada sucessivamente em Pirai, Castro e Ponta Grossa, onde se localizou o comando supremo. Conta com efetivo de 8.000 cabeças. O seu estado maior foi entregue ao major Mendonça lima. O maior destacamento desse grupo esteve sob a chefia do coronel Silva Júnior. Era este justamente que atuava na direção de Itararé. O segundo, que se compunha de 1.100 cavalarianos gaúchos, chefiou-o o deputado Flores da Cunha. O terceiro era comandado pelo major Alexino. Trazia, entre outros homens, a cavalaria paranaense. E o quarto estava sob as ordens do deputado Baptista Luzardo que, seguido de toda a irmandade, trocou logo o jaquetão pelo dólmã. Entre as unidades que compunham o setor M. Costa, destacam-se o 15º B. C. de Curitiba, sob ordens do cap. Gualberto, o batalhão Quim Cezar, 1º B. do 8º R., 13º R,I. ou batalhão Oldemar, batalhão Pleysani, todos apoiados por uma bateria de 12 canhões de 75 milímetros.
No extremo da linha de frente, terceiro pedaço, para as bandas do mar, desde Jaguariaíva até a Guaraquessava, jazeram as forças que obedeciam ao tenente João Alberto Lins Barros, promovido pela Revolução ao posto de coronel. Abrangia este setor Jaguariaíva, Serro-Azul, S. Miguel, Campina Grande e Guaraquessava, logares paranaenses correspondentes aos paulistas Itararé, Capela da Ribeira, Iporanga e Cananéa.
Eram 5.100 soldados. Precederam-nos elementos de emergência guiados pelo tenente Braga, em Capela de Ribeira, e cap. Vicente Mário de Castro, na zona litorânea. Aqui, o coronel Nestor Viríssimo, dos libertadores sul-rio-grandenses, operou com algumas centenas de homens. O comando da coluna repartia-se pelo coronel Valdemiro de Lima.
Aí fica, na dezena e meia de milhares de homens da vanguarda revolucionária, a sua localização em frente do inimigo, que desceu de São Paulo para combatê-los.
Havemos de ver, daqui a pouco, o que se desenrolou em toda essa faixa fronteiriça de quase quatrocentos quilômetros que se estendem de Salto grande à Cananéia. E direi, nessa hora, e que foram os combates de Catinguá (Quatiguá), Murungava e Sengés.
(...) Acrescente-se que o cel. Galdino Esteves, o qual nunca largou um minuto o chefe Getúlio, era o seu assistente militar, em Ponta Grossa. (...) E finalmente, que pelos dados do cap. Raul Seidl, ajudante de ordens de João Alberto, os homens em armas, no Sul, contra São Paulo eram 30.400, assim distribuídos: com M. Costa 7.800; com João Alberto, 5.100; com Etchegoyen, 1.800; e em reservas embarcados em 108 trens ao longo da E.F.S.P.R. Grande, 15.700 homens.

(...) Repartidos pelos três setores havia os legionários, catados em todas as classes, inclusive entre os estrangeiros. Pode-se em fim dizer, sem erro grande, que na frente do Sul se esparramavam catorze mil homens da legalidade assim classificados: polícia paulista, 8.000; Exército, 3.500; legionários, 2.500.
Postam-se agora os adversários uns em frente dos outros.
Afora escaramuças, menos dignas de registro no alinhavado destas crônicas, quantas vezes se chocaram e como a briga se desenvolveu? Direi já. Catiguá (Quatiguá), Sengés e Morungava – eis os três únicos combates travados às portas do estado de São Paulo, onde aliás se processou a maior concentração de soldados da história.
Comece-se pelo de Catiguá (Quatiguá). Aqui brigou a gente de cap. A Etchegoyen com a do setor de Salto Grane, que ia até a Colônia Mineira. Bateram-se pelo governo o cor. Sandoval e o major Agnelo de Souza.
O destacamento do cap. Etchegoyen destinava-se centralmente a forçar a entrada de São Paulo, por Ourinhos, assenhoreando-se, antes, do vale do Paranapanema. Foram os primeiros combatentes revolucionários que se aproximaram da fronteira. Por isto, os que primeiro se mediram com os que desceram de São Paulo. Atingindo a estação férrea de Jaguariaíva, onde a estrada se bifurca, deixaram a direção de Itararé para a direita e rumaram para Colônia Mineira, à esquerda. Atingiram-na sem tropeço. E não perderam tempo. Continuaram avançando, sempre pela via-ferrea. Transpuseram a estação de Catiguá e prosseguiram para Afonso Camargo. Afinal, aqui, no dia 12 de outubro, tiveram contato com os primeiros adversários.
Estes, passando por Cambará e Platina, já tinham esmagado os núcleos revolucionários locais, improvisados pelos paulistas Coriolano de Lima, Bráulio Barbosa e outros elementos democráticos.
A vanguarda revolucionária, batida entretanto, retrocedeu para Catiguá (Quatiguá), reunindo-se a seus companheiros do 1º e 2º B.C., acampados nas cercanias da estação.
O cap. Etchegoyen, como grosso de suas tropas postava-se na retaguarda, alturas da estação Wenceslau Braz.
Os paulistas foram atacar o inimigo em Catiguá (Quatiguá), no mesmo dia 12. A arremetida desenrolou-se rija e demorou horas. Interrompeu-a a noite. Na antemanhã de 13 a legalidade renovou a agressão. E teria destroçado o seu adestrado contendor, se este não fosse imediatamente socorrido pela retaguarda da estação Wenceslau Braz, que fechou, em trem, para Catiguá (Quatiguá).
Mas os revolucionários tornaram-se então num conjunto de 2.000 homens. Mesmo com os reforços recebidos, durante a noite de 12, de Carlópolis e Afonso Camargo (atual Joaquim Távora) a legalidade, ficara inferior em homens. Quantitativa e qualitativamente falando, pois a metade de sua ente era novata no ofício. Também em armas distingui-se por notável desvantagem.
Mas, enquanto o cap. Etchegoyen, chefe valoroso, premia de chapa a legalidade, o 7º R. I., que formava ao flanco direito do conjunto revolucionário, se adianta e executa movimento envolvente em torno do inimigo. Emboscado num cafezal e protegido pela artilharia revolucionária (6º R.A.M.), o 7º R.I. viu a sua acção coroada de pleno êxito. Entre o fogo de Etchegoyen, no peito, e o do cap. Achlling, nas costas, o destacamento de São Paulo desarticulou-se, bipartiu-se e retirou-se com fortes perdas. Agnelo, para Piraju, atravessando o rio Itararé. Sandoval, para Ourinhos, transpondo o rio Paranapanema. O Paraná ficou limpo da legalidade. Esta destruiu um pedaço da ponte de Ourinhos. E do lado de cá, agora reforçado, aguardou os invasores que prometiam investir por Chavantes.
Cifrou-se nisso o combate de Catiguá (Quatiguá). No setor de Etchegoyen, nada mais ocorreu até 24 de Outubro.

O segundo combate foi em Sengés.
Eis a acta da convenção de Sengês, que pôs termo à luta no Meio-dia: -

- Quartel General, em Sengés, 25 de Outubro de 1930 – ACTA PROVISÓRIA – Aos vinte e cinco dias do mês de Outubro de mil novecentos e trinta, reunidos em conferência os senhores generais Migue Costa, comandante do Grupo de Destacamento “Miguel Costa”; Flores da Cunha, comandante do Dest. “Flores”; dr. João Neves da Fontoura, vice-presidente do estado do Rio grande do Sul; coronel Baptista Luzardo, comandante da “Brigada Luzardo”; coronel Mendonça Lima, chefe do Estado Maior do Grupo de Destacamentos; coronel Silva Júnior, comandante do Destacamento “Silva Júnior”; maior Juvêncio, chefe do Estado Maior desse destacamento; capitão Ricardo Hall, representante do Grande Quartel General; coronel Pais de Andrade, comandante das forças adversárias, e major Januário Rocco, chefe de serviço topográfico do Destacamento “Pais de Andrade”, no Quartel General do Grupo de Destacamentos, em Sengés, acordam o seguinte:
a – ficam, desde esta data, terminadas as hostilidades;
b – o coronel Pais de Andrade mandará retirar das trincheiras todas as tropas, recolhendo-as aos acantonamentos e bivaques;
c – mandará recolher os legionários a Itararé, onde serão desarmados e o armamento recolhido à estação de Itararé à disposição do representante do general Miguel Costa;
d – convidará em nome do dr. Getúlio Vargas, presidente da República, os seus oficiais e praças para aderirem à revolução, sendo imediatamente incorporados ao Exército Libertador os que aceitarem;
e – satisfeitas as cláusulas anteriores seguirá imediatamente para Ponta Grossa onde conferenciará com o coronel Gois Monteiro;
f – a vanguarda do Grupo de destacamento seguirá para Itararé logo depois da chegada lá do coronel Pais de Andrade;
g – os depósitos de munição de Itararé serão entregues ao comandante dessa vanguarda;
h – o coronel Pais de Andrade não se responsabiliza pelo que tenha sido feito em sua ausência. – (a.a.) General Miguel Costa, general Flores da Cunha, coronel Baptista Luzardo, João de Mendonça Lima, H. R. Hall, major Juvêncio Fraga, Leonardo de Campos, Pais de Andrade e Januário Rocco.

Um comentário:

Alessandro disse...

Post muito interessante!!!
O Sr. teria algum relato sobre fatos ocorridos em Jaguariaíva do tipo bombardeio aéreo ou de artilharia em 1930/32? Pois nesta época meu falecido avô tinha perto de 10 anos de idade e quando eu era criança ele nos contava a respeito de explosões na região de Jaguariaíva, Sengés e Itaré; ele e meu tioavô quando ouviam estas explosões se escondiam nas invernadas.