quarta-feira, 14 de outubro de 2015

85 ANOS DO COMBATE DE QUATIGUÁ - REVOLUÇÃO DE 1930 NO NORTE PIONEIRO DO PARANÁ

Prof. Me. Roberto Bondarik
Docente e Pesquisador
 Universidade Tecnológica Federal do Paraná 
Campus Cornélio Procópio

Entre 3 e 24 de outubro de 1930 uma Revolução a partir do Rio Grande do Sul, Paraíba e Minas Gerais encerraria a República Velha no Brasil e colocaria Getúlio Vargas no poder. Surgida da revolta com a manipulação da eleição presidencial que derrotou Vargas, a Revolução foi potencializada pelo assassinato do seu candidato a vice, João Pessoa. O Paraná e o seu Norte Pioneiro foram essenciais para o sucesso do movimento.
A Brigada Militar e voluntários avançaram pela Ferrovia São Paulo-Rio Grande controlando-a até Porto União e União da Vitória em 4 de outubro. No mesmo dia em Ponta Grossa o governo local foi assumido por Alcebíades Miranda, comandante do 13ºRI que se rebelou. Ponta Grossa e sua posição estratégica representou metade da vitória da Revolução que avançou rumo a São Paulo.
Em Jaguariaíva no final do dia 3, rebeldes tentaram tomar a prefeitura e a sede da Policia, conforme o planejado deveriam controlar a ferrovia até a chegada dos gaúchos. Eles haviam tomado Barra Bonita (Ibaiti), Tomazina e Wenceslau Braz seus líderes eram Paulo Chueire da Colônia Mineira (Siqueira Campos) e o Major Infante Vieira. Estavam em preparação desde março de 1930. Gustavo Lessa, médico em Jacarezinho, Barbosa Ferraz em Cambará, os fazendeiros e engenheiros Moreira Lima em Ribeirão Claro e Coriolano de Lima em Santo Antônio da Platina já haviam atuado na campanha da Aliança Liberal de Getúlio Vargas. A eleição em Ribeirão Claro havia sido um show de arbitrariedades, prisão de opositores às véspera da votação controlada pela polícia, ocupação militar da cidade, etc.
Em Curitiba o Exército e a Policia Militar aderiram a Revolução na madrugada de 5 de outubro. O Presidente do Paraná, Afonso Camargo fugiu para São Paulo, deixando dez meses de atraso no pagamento de professores e policiais. O General Tourinho assumiu o Governo do Estado.
Castro no dia 7, sede do 5º Regimento de Cavalaria que fiel ao Governo Federal retirou-se para São Paulo, foi ocupada pelo Capitão Airton Playsant do 13ºRI que tomou Jaguariaíva e seguiu para Sengés. O esquadrão de cavalaria da Brigada Militar do tenente Trajano Marinho com seus duzentos homens rumou para o Norte Pioneiro, controlando Siqueira Campos dia 9 e na Estação Afonso Camargo (Joaquim Távora) no dia 10 enfrentaram e venceram uma companhia da Força Pública.
Recuado para a Estação Quatiguá o Esquadrão Marinho foi atacado dia 11. Em 12 de outubro as seis da manhã foram reforçados pelo chegada do 1ºBC do Destacamento do Coronel Alcides Etchegoyen, composto por tropas regulares do Exército e Brigada Militar, de grande poder ofensivo, com nove canhões trazidos desde Cruz Alta. Transportado por oito composições, tinha inicialmente 2.014 homens.
O Governo Federal concentrou tropas em Itararé e Ourinhos, eram do Exército e da Força Pública. Ocuparam Cambará, Ribeirão Claro, Santo Antônio da Platina e Carlópolis com objetivo de cortar a ferrovia em Jaguariaíva. A censura à imprensa e as informações pelo Governo Federal fizeram os soldados pensarem combater bandoleiros comunistas e não militares rebelados. Para tomar Quatiguá mandaram a Força Pública, o 4ºRI do Exército, sediado na Vila Quitaúna de Osasco-SP e legionários civis do Deputado Ataliba Leonel, eram mais de 1.800 homens. O ataque começou ao final do dia 12, a chuva torrencial e a escuridão da noite permitiram a chegada do Coronel Etchegoyen com reforços. Na alvorada do dia 13, quase dois mil gaúchos, apoiados pela artilharia, avançaram sobre os paulistas fazendo-os recuar em desordem. A falta de cavalos impediu a perseguição aos legalistas que abandonaram o Paraná destruindo barcos, e todas as pontes sobre o Paranapanema. Morreram muitos soldados de ambos os lados. Os rebeldes controlaram a região e quando iriam invadir São Paulo com destino a Bauru, o Sul de Minas e o Rio de Janeiro, Washington Luiz foi deposto e a Revolução declarada vitoriosa.
Em Sengés a partir do dia 14 houve a concentração de tropas rebeldes. Na Fazenda Morungava houveram combates, com duelos de artilharia. Bombardeio aéreo pela Força Pública paulista sobre Jaguariaíva e Sengés. A maior batalha da América do Sul em Itararé-SSP não ocorreu, já era 24 de outubro e a República Velha chegou ao fim.

O Paraná por sua posição geográfica, a ferrovia que o cortava e pela ação pronta de seus cidadãos foi fundamental para a transformação que o Brasil esperava naquele momento. A ação rápida dos paranaenses foi como um lava-jato limpando caminho para a mudança, a esperança e a construção de um Brasil novo.

3 comentários:

Unknown disse...

Ótimo texto, Professor Roberto!!! Fui seu aluno em meados de 1996. Desde então, posso dizer, cultivei especial gosto pela história/estória em geral... após sair de Cornélio Procópio, talvez por saudosismo, passei a buscar fontes/informações sobre o norte pioneiro...Feliz em descobrir esta Fonte!!! Ab, Vinicius Villas Bôas

Antonio Nunes Rocha disse...

Ótima narrativa. Combina com a que meu pai e minha mãe faziam. Ele, na época era Agente da Estação de Sengés. Impediu que os do governo dinamitassem a ponte, com a sugestão de que por certo iriam prosseguir para o Sul e como fariam para receber suprimentos etc ? Não dinamitaram, tempo depois chegou o Capitão Ayrton Plaisant do 13RI de Ponta Grossa.
Minha mãe grávida teve que retirar-se à pé para Castro com outras pessoas. Então ela contava que vinha o aviãozinho paulista e os retirantes corriam para o mato (a linha férrea era o único caminho naquela época). Até que num trecho de campo, veio aviãozinho de novo dando razantes. Ela pediu que o guarda-chaves (que guiava os retirantes), estendesse um pano branco qualquer da toruxa de roupas dela. Na pressa ele pegou uma peça intima. O avião somente balançou as asas e foi-se embora. Ficaram todos aliviados. Depois ela soube que a "pilota" era D.Anésia, uma das poucas ou quem sabe a única do Brasil. Essa retirada grávida lhe valeu varizes nas pernas que permaneceram até seu falecimento em 1982. Meu irmão nasceu no dia 26/10/1930.

Antonio Nunes Rocha disse...

Ótima narrativa. Combina com a que meu pai e minha mãe faziam. Ele, na época era Agente da Estação de Sengés. Impediu que os do governo dinamitassem a ponte, com a sugestão de que por certo iriam prosseguir para o Sul e como fariam para receber suprimentos etc ? Não dinamitaram, tempo depois chegou o Capitão Ayrton Plaisant do 13RI de Ponta Grossa.
Minha mãe grávida teve que retirar-se à pé para Castro com outras pessoas. Então ela contava que vinha o aviãozinho paulista e os retirantes corriam para o mato (a linha férrea era o único caminho naquela época). Até que num trecho de campo, veio aviãozinho de novo dando razantes. Ela pediu que o guarda-chaves (que guiava os retirantes), estendesse um pano branco qualquer da toruxa de roupas dela. Na pressa ele pegou uma peça intima. O avião somente balançou as asas e foi-se embora. Ficaram todos aliviados. Depois ela soube que a "pilota" era D.Anésia, uma das poucas ou quem sabe a única do Brasil. Essa retirada grávida lhe valeu varizes nas pernas que permaneceram até seu falecimento em 1982. Meu irmão nasceu no dia 26/10/1930.