segunda-feira, 12 de setembro de 2011

CORNÉLIO PROCÓPIO, ITANGUÁ, MONTE CASTELO: TENTATIVAS DE ALTERAÇÃO DO NOME DE UMA CIDADE PARANAENSE


         Esse texto versa sobre o nome com o qual foi batizada a localidade e o Município de Cornélio Procópio e pelo menos duas das tentativas que houve, pelo menos uma bem sucedida inicialmente em seu propósito de alterá-lo.

Túmulo do Coronel Cornélio
Procópio Araujo Carvalho
 no Cemitério da Consolação
 em São Paulo
         A respeito do patrono do nome do Município, CORONEL CORNÉLIO PROCÓPIO DE  ARAÚJO  CARVALHO, cabe-nos dizer que ele foi fazendeiro, comerciante e empresário no Estado de São Paulo. Cornélio Procópio destacou-se durante o Império e o final do século XIX, nasceu em 06 de janeiro de 1857, no Bairro dos Carvalhos, Município de Aiuruoca, Sul de Minas Gerais. Faleceu em 22 de outubro de 1909 e se encontra sepultado no Cemitério da Consolação em São Paulo. Seu túmulo é considerado um exemplo de arte funerária. Seu titulo de coronel era decorrente da Guarda Nacional, indicando que Cornélio Procópio deve também ter sido um importante político na estrutura política do Império e da República Velha no Estado de São Paulo.

         Ao contrario do que muitos acreditam Cornélio Procópio não foi proprietário das terras do município com cujo nome é homenageado. O dono das terras era seu genro FRANCISCO DA CUNHA JUNQUEIRA que adquiriu a chamada Gleba Laranginha em 1924 após a morte de Cornélio Procópio como já vimos.

         Francisco da Cunha Junqueira resolveu então homenagear o sogro dando seu nome a uma das estações da Ferrovia São Paulo – Paraná que estava sendo construída e que cortava suas terras. Esta Estrada de Ferro já estava sob controle acionário da Paraná Plantations que possuía também a Companhia de Terras Norte do Paraná que seria responsável pela infra-estrutura e venda das terras na região entre as atuais Londrina e Maringá. A Paraná Plantations possuía como um de seus acionistas o Príncipe de Gales, herdeiro do trono britânico, que acompanhado de seu irmão o Duque de York e pai da Rainha da Inglaterra Elisabeth II, fez uma visita aos empreendimentos ingleses no Norte do Paraná (Cornélio Procópio e Jataizinho) em 1931.

         As terras de Francisco da Cunha Junqueira devido a sua extensão receberam duas estações que se tornariam centros urbanos, CORNÉLIO PROCÓPIO como já afirmamos e SANTA MARIANA, esta em referencia a esposa de Cunha Junqueira. Estas denominações decorreram de acordos estabelecidos com a direção da Ferrovia que até onde sabemos não se opôs a isso e teria ainda se comprometido a manter os nomes enquanto funcionasse esta via-férrea.

Ferrovia São Paulo - Paraná construção e projeto
(Fonte: Relatório do Interventor
 do Estado do Paraná 1932-39
Arquivo Publico do Estado)
Construção da ponte ferroviária
sobre o Rio Tibagi em Jataizinho
É possível que a compra das terras pelo genro de Cornélio Procópio tenha sido justamente motivada pela oportunidade de negócios que a perspectiva d construção dessa estrada de ferro que se estendia desde Ourinhos, no Estado de São Paulo, atravessava o Paranapanema atingindo Cambará e seguindo pelo Norte do Paraná. A ferrovia atingiria o rio Tibagi na antiga Colônia Militar do Jatahy (Jataizinho). Transposto o Tibagi, a ferrovia cruzaria toda a imensa gleba da Companhia de Terras Norte do Paraná, valorizando-as sem dúvidas até chegar em Campo Mourão. Seguiria depois para Guairá e vencendo o curso do rio Paraná seu projeto final era fazer a ligação com Assunção, capital do Paraguay. Toda uma imensa área do Paraná e do Paraguai seriam inseridos em uma nova realidade de produção econômica patrocinada pela Ferrovia São Paulo – Paraná e posteriormente Paraguai.

Desta forma diversas cidades desenvolveram-se  no entorno das estações que foram sendo instaladas ao longo desta ferrovia, localidades que receberam os nomes destas mesmas estações, algumas sofreram alterações posteriores, mas as que nos interessam no momento são: Cornélio Procópio e Santa Mariana.

O núcleo urbano de Cornélio Procópio, inicialmente chamado de Quilometro 125, foi planejado em um momento anterior ao estabelecimento do traçado da ferrovia, sendo seu loteamento posteriormente ajustado a ela. A cidade surge e cresce no entorno da Praça Brasil, sendo ali o núcleo administrativo e comercial iniciais da localidade. Em 1926 o loteamento inicial já se encontrava traçado.

O impulso migratório e civilizatório proporcionado pela São Paulo – Paraná foi intenso naqueles distantes anos iniciais da década de 1930. O Distrito Judiciário foi criado pela Lei 526 de 11 de Abril de 1935. A povoação cresceu e desenvolveu-se social e economicamente ao ponto de que em 15 de fevereiro de 1938 ser elevada a condição de Município. O município foi criado pela Lei nº 6.212 de 18 de Janeiro de 1938, desmembrando seu território de Bandeirantes. A Lei nº 6.213, também do mesmo dia 18 de Janeiro de 1938 criou a Comarca de Cornélio Procópio, devidamente transferida de Jataizinho, sendo seu primeiro Juiz o Dr. Antônio Baltazar Júnior, primeiro Promotor Público o Dr. Estevão dos Santos e primeiro Delegado Regional o Sr. Luiz dos Santos. O primeiro prefeito do município foi o Sr. Francisco Lacerda Júnior. Interessante que a mesma lei que criou o município de Cornélio Procópio também extinguiu o de Bandeirantes, situação revertida no dia 24 de janeiro do mesmo ano pelo Decreto nº 6.282.

Era o período da ditadura do Estado Novo conduzido por Getúlio Vargas, uma época especialmente conturbada no Brasil e no mundo quando a Segunda Guerra Mundial se arvorava no horizonte.
A Segunda Guerra Mundial fez surgir no governo brasileiro a preocupação de combater núcleos simpatizantes do Nazismo e do Fascismo dentro do país, como um era originário da Alemanha e outro da Itália, colônias e grupos de migrantes começaram a ser vigiados, além de japoneses. Com o estado de guerra declarado a estes paises, Alemanha, Itália e Japão, proibiram-se logo o ensino exclusivo nos seus idiomas e suas manifestações culturais nas diversas colônias existentes no Brasil. Ao mesmo tempo em que se iniciava uma política nacionalista para desenvolver sentimentos genuinamente brasileiros dentro do país.

Procurava-se dar uma identidade verdadeiramente nacional ao Brasil, com costumes, hábitos, práticas e heróis nacionais. Uma das formas encontradas foi a valorização do passado e das referencias indígenas, possibilidade primeira de ligação comum entre toda a nação e todos os brasileiros. A utilização de nomes indígenas passou então a ser estimulada e sugerida continuamente, sendo que foi nesse contexto que se editou o Decreto-Lei nº 5.901, de 21 de Outubro de 1943, que tratava sobre as denominações dos municípios, comarcas e distritos no país a serem daí em diante criados e ainda abria a possibilidade de alteração e revisão do nomes daqueles que já se encontravam estabelecidos e nomeados. O decreto regulamentava o processo de nomenclatura e possibilitava a sua mudança a cada cinco anos (nos anos terminados por 3 e 8) determinando a utilização preferencial de nomes indígenas.

Semanário "A Tribuna" com a
primeira  referência a Itanguá
(Fonte: Arquivo Loja Maçônica "Cavaleiros de Malta")
No ritmo ditado por essa lei surgiu em Cornélio Procópio no final daquele mesmo 1943 a noticia recorrente de que o nome da cidade seria alterado para uma denominação indígena: “ITANGUÁ”. O novo nome proposto, cujo significado era “PEDRA REDONDA”, teve o apoio de uns e oposição dos muitos que aqui já habitavam há algum tempo. Diversos municípios e distritos paranaenses criados naquele ano foram denominados em concordância com essa lei, a exemplo de Abatia, Apucarana, Andirá, Arapoti, Goioxim, Ibaiti, Itambaracá entre outros, todos denominados por leis e decretos de 1943 com base nessa nacionalização do Brasil.

Artigo de "Pauridias"
criticando o nome Itanguá
(Fonte: Arquivo Loja Maçônica
 "Cavaleiros de Malta")
 
O semanário publicado em Cornélio Procópio, “A TRIBUNA” editado por Nicolau Villas Boas, discutiu em diversos momentos por meio de seus articulistas a proposta de mudança do nome do município para Itanguá. O articulista JORBES em 12 de dezembro de 1943 comentou brevemente a respeito dessa idéia de mudança de nome. Em 1º de janeiro de 1944 foi a vez do articulista “PAURIDIAS” que acreditamos não seja outra senão Paulo Ribeiro Dias, simplesmente não aceitava essa mudança, listando uma série de localidades com o nome “ITA”, ou seja, “pedra” em tupi Guarani. Na verdade ele propunha que se fosse para mudar o nome já estabelecido que o fizessem em respeito a história, a cultura e a economia locais, propunha desta forma que se adotasse a denominação de “CAFERANA”. Julgava Paurídias que ele era mais adequado a realidade da região que era a cafeicultura.

Não sabemos por qual motivo, talvez pelo fato do decreto-lei mencionado estabelecer que a mudança dos nomes das unidades administrativas ocorrerem apenas nos anos terminado por 3 e 8, o projeto “ITANGUÁ” foi esquecido e não mais mencionado nos periódicos locais.
Outra tentativa de mudança do nome do Município de Cornélio Procópio ocorreu novamente no ano de 1946 quando a Guerra havia acabado e a Força Expedicionária Brasileira retornado vitoriosa da Itália. Por breve tempo o nome foi alterado para “MONTE CASTELO”. O Dr. JOÃO THEODORO relatou esse acontecimento no livro do Prof. ATILA SILVEIRA BRASIL publicado em 1988 por ocasião do cinqüentenário de emancipação política do município.

“Ainda durante a minha gestão como Prefeito, surgiu um fato importante. Tendo regressado da Itália a Força Expedicionária Brasileira, da qual faziam parte alguns procopenses, dentre eles Laércio Soares e Wilson Albino, por sentimentalismo, eles se lembraram que Cornélio Procópio está num alto, no ponto culminante da Serra do Laranginha. Lembraram-se da vitória brasileira de Monte Casino. Então, insistiram para que se mudasse o nome de Cornélio Procópio para o de Monte Castelo, que foi também um dos montes tomados pela Força Expedicionária Brasileira. Houve um movimento muito grande, algumas pessoas queriam, outras não” (BRASIL, Átila. Das Origens e da Emancipação do Município. Sem dados tipográficos, 1988).
Campanha da FEB na Itália 1944-45

A disputa a favor ou contra a mudança do nome da cidade deve ter se tornado uma disputa política intensa entre situação e oposição na qual os grupos se digladiavam para mostrar qual possuía mais apoio popular, pois chegava o tempo, após muitos anos, de ocorrerem eleições municipais.

O Prefeito e o grupo situacionista convenceram o Governador MOYSES LUPION que produziu o decreto necessário à alteração. A oposição liderada por JULIO MARIUCCI e GASTÃO VIEIRA DE ALENCAR eram contra mudança e a combateram. LUTGARD MARQUES foi o líder do movimento favorável a manutenção do nome Cornélio Procópio. Segundo João Theodoro o grupo fez protestos e teria chegado a contratar propagandistas de fora da cidade.

Quando o Governador Moysés Lupion veio a cidade para efetivar a mudança, foi surpreendido pela força do movimento e com o envolvimento popular que o pressionava a revogar a alteração. Diante dos protestos Lupion voltou atrás e o nome Cornélio Procópio se mantem até a atualidade. Como forma de compensar o Governador em sua intenção de homenagear a Força Expedicionária Brasileira, Júlio Mariucci comprometeu-se em fundar uma cidade em sua lembrança, o que efetivamente foi realizado com a fundação de SANTA CRUZ DE MONTE CASTELO.
Cornelio Procópio atual (2011) e área onde começou a povoação

(Fonte: Blog História e Informação)

Desconhecemos outras tentativas, pelos menos que tenham tido a repercussão destas duas aqui relatadas, de alterar o nome do Município de Cornélio Procópio.

Um comentário:

Rafaela Mendes disse...

Olá Professor, gostaria de parabeniza-lo pelo blog, sou estudando de Geografia e venho sempre aqui, ja me ajudou muito nos meus estudos sobre a linha férrea do municipio.

Rafaela