domingo, 4 de novembro de 2007

Parei um pouco com a pesquisa ...

Pois bem! Devido a muitas tarefas, o PDE e a conclusão do curso de mestrado, não posso postar informações novas. Na verdade parei com a pesquisa desde setembro. Prtendo terminar a dissertação até semana que vem ... defendo em dezembro e ano que vem vou fuçar em arquivos no Rio Grande do Sul e quando der em São Paulo.

2008 será importante, é minha intenção publicar nem que seja um livreto sobre o Combate em Quatiguá. A data para isso é 26 de outubro de 2008.

Bem tem um lugar, segundo Dante, bem quentinho que esta cheio de gente ou ex-gente com boas intenções.

Até depois do mestrado.

sábado, 15 de setembro de 2007

ATENÇÃO - OPINIÕES SOBRE O BLOG!!!!!!!

Se vc esta lendo o blog HISTÓRIA E INFORMAÇÃO (...), e gostou ou não gostou do que leu, deixe sua opinião no final de cada post. Se puder mais ainda, envie um comentário ou depoimento sobre a Revolução de 1930 em Quatiguá ou no Norte Pioneiro para o e-mail: bondarik@utfpr.edu.br , sua opinião será de grande valia e auxilio para que possamos melhorar mais este espaço. Visite também e participe da comunidade "REVOLUÇÃO DE 1930 EM QUATIGUÁ", postando comentários, informações e dúvidas, no seguinte endereço no Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=18171968 espero que seja útil.

Atenciosamente:

Professor Roberto Bondarik

Cornélio Procópio, aos Quinze Dias do Mês de Setembro de Dois Mil e Sete

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

TERRA DOCE DE QUATIGUÁ

Este texto foi publicado no jornal "O Estado do Paraná", um jornal curitibano portanto, no dia 09 de setembro de 2007. Escrito por Dante Mendonça, diz o autor que não é nascido em Quatiguá, nem por ai viveu, mas que sua historia lhe foi contada por um amigo quatiguaense. Achei interessante reproduzi-la aqui. Quem desejar ler no original pode entrar no endereço http://www.parana-online.com.br/noticias/index.php?op=ver&ano=temp&id=303704&caderno=3 porém deverá se cadastrar para poder ver.
Bem ai vai uma doce história de Quatiguá:
Terra doce de Quatiguá
Dante Mendonça [09/09/2007]

Quatiguá, pequena cidade de 8 mil habitantes do Norte Pioneiro do Paraná, é uma terra doce. Assim esperam os degustadores do bom café ao redor do mundo. Em busca de raras rubiáceas, importadores de finos grãos constataram que a região produz um tipo especial de café, com característica única: o sabor - digamos para o leigo - adocicado.
Sonhar com a recuperação econômica do Norte Pioneiro é preciso, mesmo sendo de gosto acre a estagnação que há tantos anos vem abatendo as esperanças das novas gerações. Sonhar é preciso, recordar também é preciso. Especialmente se as recordações trazem bons humores ao espírito, com histórias como a protagonizada pelo médico Delcino Tavares, ex-secretário da Saúde do governo Alvaro Dias e ainda hoje residente em Quatiguá.
Nunca foram diagnosticadas as causas da implicância do farmacêutico Miguelão com o homem que cuidava da saúde de todos os paranaenses. Com chuva ou sol, Dr. Delcino saía do consultório e fazia o caminho de casa, passando em frente à farmácia do Miguelão. Era um trajeto pontual, que o farmacêutico usava como relógio. Passava Delcino, cinco minutos depois Miguelão cerrava a porta de aço do estabelecimento.
Até que certa feita Miguelão esqueceu de juntar uma caixa vazia de Sadol na calçada em frente. Mais pontual que representante farmacêutico, Dr. Delcino passou na calçada e -pimba! - chutou a caixa de papelão, que foi cair no meio da rua.
No dia seguinte, no mesmo horário e mesmo local, Miguelão ajeitou outra bola para o Delcino chutar. Desta vez era uma caixa de óleo de fígado de bacalhau. Dr. Delcino, mais pontual que horário de missa -pimba! - a caixa de Emulsão Scott voou longe.
E assim passaram-se os dias em Quatiguá: num dia, Dr. Delcino chutava uma caixa vazia de Melhoral, outro dia de Sonrisal, se não fosse uma caixa de Sal de Fruta Eno ou Pomada Minâncora. Os chutes certeiros de Dr. Delcino estavam famosos na praça - os sorrateiros marcavam encontro pra assistir ao goleador -quando o farmacêutico Miguelão resolveu encerrar o cotejo, com três tijolos dentro de uma caixa de Vic Vaporub.
“No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” - Carlos Drummond de Andrade é o poeta mais lembrado de Quatiguá.
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Quando o prefeito Epifânio Mocelin lançou o nome de Lourival Gouveia para a sucessão, tinha certa dúvida quanto à performance do candidato. Lourival bem que gostava da política, mas tremia feito vara verde quando precisava subir no palanque para discursar. Palanque era modo de dizer, no Norte Pioneiro não se fazia comício sem carroceria de caminhão.
No comício final, não houve jeito e maneira de fazer Lourival Gouveia subir na carroceria de um Scania-Vabis, mesmo com o Epifânio empurrando.
- Sobe, Gouveia! Sobe e fala do ‘pogresso’ de Quatiguá!
Tropicando, subiu enfim Lourival Gouveia no Scania-Vabis, não sem antes concordar com o argumento final de Epifânio: uma garrafa de Tatuzinho.
- Povo umirde e bão de Quatiguá! Antes do Epifânio, nessa cidade não passava nem carroça! Hoje passa até avião! -encerrou Gouveia, apontando pro céu!
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Epifânio, por sua vez, foi eleito prefeito graças aos discursos inflamados do ex-deputado Santinho Furtado, falecido líder político do Norte Velho.
Na carroceria do Scania-Vabis, Santinho era um poeta:
- Quatiguá, é PMDB com três pês! P de Povo! P de PMDB! P de Pifânio!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

FOLHA DE LONDRINA - REPORTAGEM DE 1984 SOBRE O COMBATE DE OUTUBRO DE 1930 EM QUATIGUÁ

Este texto que torno disponível agora, foi publicado em 1984 pelo Jornal Folha de Londrina, nos mesmos dias em que a TV Coroados divulgou uma reportagem feita aqui sobre o mesmo tema. Se não me falha a memória, a Folha publicou na sexta-feira e a Tv Coroados em um Jornal Estadual Especial de Sábado, ou seja no dia seguinte. Ambos os documentos são tratados como verdadeiras relíquias por quem os possui e foram por muito tempo os únicos testemunhos materializados, a única produção além da tradição oral sobre os Combates de 1930 em Quatiguá. Consegui as cópias que possuo dos jornais, há também outra reportagem de 1991, com o Panga (Adailton Ribas Lopes) que é também um interessado e preocupado com a preservação da memória não somente da Revolução de 1930 em Quatiguá, mas do restante da memória e história da cidade. Um dia deveriamos pegar todas as fitas de vídeo que ele possui, são muitas e de diversas épocas e eventos do município, e passar para DVD, prestariamos um grande serviço a nossa história. Aproveitem o texto:


REPORTAGEM FOLHA DE LONDRINA

Caderno 2 – Sexta-feira, 06/04/84 pág. 24

PAULISTAS E GAÚCHOS LUTARAM EM QUATIGUÁ

“A política do café com leite”, que impunha o revezamento de paulistas e gaúchos na presidência da República, foi definitivamente rompida pela Revolução de 30, que abriu espaço para o Rio Grande do Sul, diminuindo a influência da oligarquia cafeeira, que, incólume, desfrutava do poder. Neste contexto, uma revolução de fato passou pelo pequena Quatiguá, no Norte Pioneiro, tendo ali ocorrido luta armada entre gaúchos e paulistas, cujos mortos, indistintamente, a comunidade glorifica num monumento em praça publica.

O choque armado, sequer é mencionado no resumido histórico do município (população de 5.315 dos quais 3.990 eleitores) antigos moradores contam que “a coisa foi feia” e a população fugiu para as matas próximas ao patrimônio, deixando as casas comerciais à mercê dos revoltosos (gaúchos), que “requisitaram” até uma boiada de Pedro Gonçalves Lopes, a quem obrigaram a usar um lenço vermelho e dar vivas a Getúlio Vargas. Para deter as tropas gaúchas, em superioridade, o prefeito de Joaquim Távora e um líder dos paulistas mandaram arrancar trilhos nos diversos pontos do ramal ferroviário entre Quatiguá e a divisa com São Paulo.

“A REVOLUÇÃO FOI SÓ MEDO”
Aos 8l anos de idade e muito conhecido por Jorge Luna, uma das testemunhas oculares da refrega é Jorge Barbosa Lima, que chegou à “praça”(ele não diz “cidade”) em 13 de junho de 1928 e dela não se retirou quando chegaram as tropas gaúchas em 1930. Mesmo tendo consciência de mortos e feridos. (...) Os paulistas, “defendendo o Sr. Washington Luiz”, eram os “liberais” ou “legalistas” , as tropas gaúchas. Marchando com Getúlio Vargas, eram a dos “revoltosos”, que apontaram no morro sudeste de Quatiguá, procedentes da região de Ponta Grassa, “Era um batalhão do coronel Cavalcanti, mais ou menos uns quatrocentos homens, uma força mista de voluntários” – vai recordando Jorge Luna. Inferiorizados em número, “uma força de uns duzentos e poucos homens, bate-paus do doutor Ataliba Leonel e uma rapaziada que fazia o serviço militar em Iquitaúna, perto da capital”, os paulistas apareceram no lado oposto da cidade, a noroeste, procedentes de Piraju e Fartura.
Depoimentos de vários moradores antigos estabelecem o consenso de que os Gaúchos começaram a disparar o canhão de 75 ou 100 mm) do alto do morro, enquanto os paulistas assestavam metralhadoras sobre a cobertura da estação ferroviária. Os gaúchos avançaram gradativamente, até obrigarem os paulistas a baterem em retirada. Os gaúchos se deslocaram a cavalo, os paulistas em caminhões e – segundo alguns depoimentos – trem.
Segundo Jorge Luna, “os paulistas chegaram à estação, derrubaram postes e arrancaram o telegrafo. O telegrafista era o Raul Bittencourt, imparcial sem ser favorável a ninguém” mas para assustá-lo os paulistas dispararam contra duas locomotivas chamadas “Maria-fumaça”. (...) Houve muitos mortos e feridos de ambos os lados, que chegaram a entrar em choque num ponto hoje dentro do perímetro urbano. “Foi na Serraria do José Volpato e do João Lucas, duas casas inacabadas foram transformadas em hospitais de sangue” – recorda Jorge Luna.

O POVO CORREU PARA O MATO
A Revolução de 30 começou no dia 3 de outubro, calculando Jorge Luna que as tropas permaneceram cinco dias em Quatiguá e que os choques se verificaram entre os dias 11 e 13. Porém, a população começou a se retirar do patrimônio ao perceber a chegada dos gaúchos/ dos quatro ou cinco comerciantes, apenas dois permaneceram, José Simeão Rodrigues (avô do atual Secretário da Indústria e Comércio do Paraná, Francisco Simeão) e Silvio Zanini, “os demais se retiraram para os sítios e fazendas”.
Porém, aqueles que permaneceram em suas casas não foram molestados por qualquer das tropas, conquanto as “requisições” nas casas comerciais, principalmente as abandonadas, fossem feitas a grosso. Naquele tempo. Quatiguá (o nome do município é corruptela do “cuatingua”, um vegetal outrora abundante na região e que apenas um patrimônio dividido em duas zonas, uma conhecida por Barra Grande e outra por Chapada. O atual município de Joaquim Távora (a sede fica a oito quilômetros de Quatiguá) tinha o nome de Afonso Camargo (um dos presidentes do Paraná, relata Isidoro Mocelim, hoje com 72 anos de idade.
Contemporânea, Dna. Conceição Eliziaria Teixeira Godoy, de 77 anos, recorda o patrimônio, umas trintas casas, só quatro comerciais. Morava no sítio a quatro quilômetros, vizinho a Mocelin, “a linha férrea ficava entremeio às nossas propriedades”. Se recordam, ambos, de ter aparecido lá um oficial paulista avisando: “É preciso se retirar de vossas casas, vai haver combate por aqui.” Mocelim conta que “aí, tocamos um pouco de mudança sobre o caminhão e seguimos para a “bica”. Logo começou uma tempestade de tiros e nossa casa foi baleada”.
Também Conceição e a família batiam em retirada, rumando para um abrigo natural, debaixo de uma grande parede de pedra. Difícil era descer a encosta e Conceição ainda estava grávida de sete meses. Buscou apoio num arbusto, mas antes que levasse a mão, foi advertida pelo marido: “Não, Conceição, isso é “mamilo de porca”. Referia-se a um espinheiro cortante, que poderia dilacerar as mãos da esposa. Depois de vários dias, quando terminou a luta, , ela saiu do abrigo e olhou para o alto. E não pode imaginar coo havia descido. Afinal, temera até pela gravidez, “pensei que fosse perder, mas não perdi!”
Uma das filhas dela, Mary Elen Godoy, é hoje professora de Estudos sociais na Escola de primeiro grau Pedro Gonçalves Lopes. Uma das tarefas de seus alunos tem sido registrar a Revolução em Quatiguá, para o que entrevistam testemunhas.
SAQUES E “REQUISIÇÕES”
Nome da Escola, Pedro Gonçalves Lopes foi humilhado pelos revoltosos gaúchos, que “chegaram a fazer sepultura para enterrá-lo”, recorda o genro dele, José Horácio Bueno.
Pedro residia fora do patrimônio, no Alecrim, e teve 26 reses e vacas de leite “requisitadas” pelos gaúchos, que depois o prenderam sob acusação de ser legalista. Ele tivera a coragem de interpelar um certo capitão Busch: “Você é o velhaco que roubou meu gado?” Segundo José Horácio, ao que parece o capitão Busch era do Paraná e anteriormente e anteriormente se desentendera com Pedro Gonçalves. Integrando-se às tropas gaúchas, aproveitava para se desforrar, porém Pedro acabou sendo poupado pelo comandante, que não admitia “questões de vingança”.
Isidoro Mocelim diz ter tomado conhecimento que Pedro Gonçalves foi obrigado “a usar lenço vermelho da vivas a Getúlio”. Finalmente liberado, quando os gaúchos se dirigiram a Itararé, regressou a Quatiguá andando e s[o conseguiu um cavalo emprestado na casa de Mocelim.
Chegando ao patrimônio, ficou mais revoltado, ao constatar que “gente do lugar estava comendo o gado dele, que os gaúchos haviam deixado para trás...”
Aos 70 anos de idade, o ex-prefeito Antônio Rodrigues Filho recorda-se e ter ouvido disparos de canhões e de outras armas, a 2,5 quilômetros, que a família residia, numa área próxima ao Ribeirão Bonito, tinha 14 anos de idade e o terror de seu pai era de que os revolucionários pudessem incorporar os filhos, a família achou por bem se retirar para mais longe e na ausência houve saques não sabe ao certo se foram as tropas gaúchas ou oportunistas da situação. Quando findou a Revolução, apareceram enviados do novo Governo, pedindo a moradores que informassem sobre os bens perdidos durante a passagem das tropas. Tudo foi relacionado como “requisitados” para efeito de indenização que ficou apenas na promessa.

MONUMENTO AOS MORTOS

As testemunhas não sabem precisar o número de mortos e feridos no choque armado em Quatiguá. “Foram muitos, a maior parte levada embora pelas tropas”- afirmam.
Isidoro Mocelin diz ter presenciado o enterro em valas comuns e mortos em estado de decomposição, cinco cadáveres de cada vez. E de uma coisa ele tem certeza: sob o monumento na praça Eurides Nascimento encontram-se 6, dos quais cinco paulistas. O próprio Mocelin participou da trasladação, anos depois do choque, e foi um dos que tiveram a idéia da homenagem. O marco está no centro de uma área de 40 por 40 metros quadrados “doada pelo Lourenzon”.
Homenagem do povo de Quatiguá aos heróis tombados em 1930” – esta escrito na placa de bronze.
A REVOLUÇÃO NA ESCOLA
A Revolução de 30, segundo trechos da redações de alunos da professora Mary Elen Godoy, de Estudos Sociais, que ouviram testemunhas em agosto de 1982.
“Quando as tropas se aproximaram de Quatiguá”, o prefeito de Joaquim Távora, a época Miguel Dias, em acordo com Ataliba Leonel, político (...) domiciliado em Piraju, Estado de São Paulo, ambos da situação, acertaram de mandar policiais para enfrentar os gaúchos”. Consta que “o prefeito de Joaquim Távora mandou arrancar os trilhos” nas proximidades de Quatiguá, para deter os gaúchos. (Depoimento de Leonardo Rodrigues Vargas ao aluno Sérgio Roberto Alexandrino Rodrigues)
“Numa Segunda-feira, os gaúchos deram um tiro de canhão, a bala foi parar na Colônia Varsóvia – que era a colônia das polacas”. (Maria Cecheleiro a Eliane Maria Rodrigues).
“Quando acabou (...) os soldados haviam roubado bastante coisa, roupas, alimentação, panelas, etc. Os soldados haviam deixado roupas deles, mas meu bisavô queimou tudo, ele achava balas e jogava fora, ou no poço. Ele achou um pente com cinco balas, mas minha avó não sabe o que ele fez.”(Pesquisa da aluna Eliane Borges Disseró).
“Ele (o entrevistado) disse que a Revolução de 30 foi entre os paulistas e os gaúchos, disse que quando se encontraram aqui, foi um tiroteio tremendo” (Segundo depoimento de Reinaldo Mocelin ao aluno Lucélio Helder Cherubin).
“Quem contou (...) foi minha mãe. Ela disse que quando começou a Revolução, morava no sítio e as pessoas de Quatiguá iam ficar na casa dela. Quando começava o tiroteio, elas iam se esconder em uma grota. Os soldados roubaram muitos cavalos de meus avós”. Em outro trecho? “Um dia (...) viram um avião e como (...) ainda não conheciam, saíram todos correndo e foram se esconder em um cafezal”. (Solange).
“Num Sábado, o tenente veio avisar que o combate entre paulistas e gaúchos ia acontecer e Quatiguá ia ficar entre os dois”. (Ainda o depoimento de Maria Cecheleiro a Eliane Maria Rodrigues).
[Texto copiado integramente do Jornal Folha de Londrina 06 de Abril de 1984 - Sexta Feira - Caderno 2 – Sexta-feira, 06/04/84 pág. 24]

domingo, 9 de setembro de 2007

OBELISCO DA PRAÇA E SOLDADOS SEPULTADOS SOB ELE:

Existem realmente ossos humanos sepultados sob o monumento da Praça Eurides Fernandes do Nascimento?
A respeito do monumento da Praça Expedicionário Eurides Fernandes do Nascimento somente posso dizer o que sei. Não fui testemunha ocular de sua construção, porém a tradição da cidade afirma que ali foram depositados os ossos de seis combatentes mortos nos combates dos dias 12 e 13 de outubro de 1930 em Quatiguá. Lembro que o fato histórico torna-se realmente históprico pela ação do historiador que o recorta, define, interpreta e descreve.
Em que me baseio para afirmar isso de maneira peremptória?
  • Primeiro, a própria tradição oral, conforme me contaram, mais especificamente, meu pai, minha mãe meus avós, meus amigos comentaram. Destaco o papel desempenhado pelo Panga (Adailton Ribas Lopes) na preservação da memória de Quatiguá, pessoa preocupada e comprometida com a municipalidade e com quem sempre tenho boas conversas;
  • Segundo, em documentos, em 1984 o jornal Folha de Londrina publicou reportagem de uma pagina inteira com depoimentos de diversos moradores antigos de Quatiguá que aqui viviam por ocasião dos combates. Pois bem, um desses depoimentos é do senhor Izidoro Mocelim, que segundo o jornal participou do movimento que promoveu a construção do monumento e, segundo afirmação dele próprio ajudou a transladar os ossos dos soldados e a coloca-los sob o monumento no centro da Praça.

Não se tem noticias de que esses ossos tenham sido retirados do monumento após 1984, pois neste ano quando ocorreu uma cerimônia registrada pela TV COROADOS (GLOBO/RPC) de Londrina eles ainda estavam lá.

Para evitar maiores discussões reproduzo a seguir o trecho da reportagem com a respectiva referência bibliográfica:

MONUMENTO AOS MORTOS
As testemunhas não sabem precisar o número de mortos e feridos no choque armado em Quatiguá. “Foram muitos, a maior parte levada embora pelas tropas”- afirmam.Isidoro Mocelin diz ter presenciado o enterro em valas comuns e mortos em estado de decomposição, cinco cadáveres de cada vez. E de uma coisa ele tem certeza: SOB O MONUMENTO NA PRAÇA EURIDES NASCIMENTO ENCONTRAM-SE SEIS, DOS QUAIS CINCO PAULISTAS. O próprio Mocelin participou da trasladação, anos depois do choque, e foi um dos que tiveram a idéia da homenagem. O marco está no centro de uma área de 40 por 40 metros quadrados “doada pelo Lourenzon”.“Homenagem do povo de Quatiguá aos heróis tombados em 1930” – esta escrito na placa de bronze.
(FOLHA DE LONDRINA, Caderno 2 – Sexta-feira, 06/04/84 pág. 24)



Um equivoco que se pode ter ao ler umas das reportagens da Folha de Londrina, porém uma outra publicada em 1991, diz respeito aos mortos e a seu sepultamento. Os gauchos retiram todos os seus mortos, ao que tudo indica menos aqueles que ficaram perdidos pelos cafezais. Os mortos gauchos devem ter sido sepultados no cemitério de Siqueira Campos, mas não foram tantos quantos os mortos paulistas. Os sepultados proximos aos locais em que morreram foram os soldados paulistas, e alguns deles podem ter sido levados pela tropa que se retirou para São Paulo. No local proximo ao asilo, estadio e CTG haviam diversas sepulturas apagadas pelo tempo.
Os feridos após serem medicados pelo corpo de saúde do Destacamento Etchegoyen (Tropas gauchas) foram removidos a Colônia Mineira e de lá para Jaguariaíva e Ponta Grossa. No Hospital da Ferrovia São Paulo-Rio Grande, os feridos do Combate de Quatiguá, mesmo os paulistas foram visitados por Getúlio Vargas quando ele chegou àquela cidade.

A mesma Folha de Londrina fala sobre os sepultamentos dos mortos paulistas em Quatiguá, e o senhor Izidoro Mocelim também faz menção a isso na entrevista a TV COROADOS. Dona Gema Mocelim Shoinski deu entrevista a Folha de Londrina em 1991, sobre isso. Este jornal foi muito reproduzido e divulgado na cidade de Quatiguá:

Dona Gema Mocelim Shoinski conta que seu pai ajudou a enterrar muita gente. “Meu pai era curioso, aí pegaram ele pra enterrar defunto. Ás vezes era até mais de três numa cova. A gente encontrou soldado morto no cafezal e em várias partes da cidade. Alguns ainda foram levados de trem mas muitos ficaram esquecidos pelo meio da lavoura”.
(FOLHA DE LONDRINA, Domingo, 27 de outubro de 1991, p.16)



quinta-feira, 2 de agosto de 2007

MATERIAL DIDÁTICO - PDE - REVOLUÇÃO DE 1930 NO PARANÁ

Voltando das férias ... Neste semestre no PDE irei desenvolver material didático sobre a Revolução de 1930 no Estado do Paraná ... estou buscando mais informações ...

domingo, 22 de julho de 2007

FOTOS DE QUATIGUÁ - 2006 E 2007

Estou publicando algumas fotos de Quatiguá.
Foram tiradas por mim em 2006 e 2007 para ilustrar e auxiliar na compreensão da pesquisa que realizo.

Vista da estrada velha para Siqueira Campos ...
Vista da Serra com a cidade ao fundo

Em frente a Prefeitura (Avenida Dr. João Pessoa) com a Serra ao fundo.

Eu acho que o canhão ficou posicionado bem próximo desta posição e local em que a foto foi tirada.

sábado, 21 de julho de 2007

UM OBJETO E UMA HISTÓRIA


Um objeto apenas, quando possuimos conhecimento histórico, passa a ter um valor extraordinário e nos faz viajar por outros tempos, outras terras, outros cenários.
Tirei esta foto em 2007, quando iniciava a pesquisa sobre o Combate de Quatiguá.
É um monumento que se encontra logo na entrada do Quartel do 13º BIB, do Exército em Ponta Grossa.
Um coturno preservado que nos pergunta se sabemos por onde ele andou. O minimo que alguem que colocou sua vida a disposição da Pátria e da Sociedade pede é que nos lembremos dele.
Este coturno e seu dono passaram pela Itália combatendo o Nazismo e o Fascismo, lutando pela liberdade em um sacrificio que não pode ser deixado no esquecimento.
Parabéns ao idealizador deste monumento.

MUSEU PARANAENSE

Em Curitiba, no Palácio São Francisco (prox. Largo da Ordem) funciona o MUSEU PARANAENSE, estive lá esta semana. Como não se pode tirar fotos, vale a pena visita-lo mesmo que seja virtualmente. É um grande acervo histórico sobre o Paraná.
http://www.pr.gov.br/museupr/galeria.shtml

Visitem ...

LOCAL, OU UM DOS LOCAIS DO COMBATE


Acredito que neste lugar (em frente ao Asilo) ainda estejam enterrados alguns dos soldados paulistas mortos no Combate de Quatiguá. Seriam eles vitimados no contra-ataque das forças gauchas na manhã do dia 13 de outubro de 1930. Imaginei a hipótese de que este local tenha sido alvejado diretamente por metralhadoras pesadas que estavam instaladas no telhado da Estação Ferroviária e em um morro proximo (ainda não sei qual é) conforme um mapa do combate que encontrei em um arquivo de Curitiba.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

INICIO DA REVOLUÇÃO DE 1930 EM PORTO ALEGRE - RIO GRANDE DO SUL

Como todos sabem a Revolução de 1930 teve seu inicio no Rio grande do Sul, reproduzo aqui um texto que esta no site http://www.brasilescola.com/historiab/3-outubro.htm que mostra de maneira clara o que houve naquele dia em Porto Alegre.
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3 de Outubro em Porto Alegre

O Grande Hotel, em Porto Alegre, transformara-se no quartel-general dos revolucionários, onde Oswaldo Aranha coordenava as ligações. "Olha, o doente piorou muito; seu estado é grave, exige intervenção cirúrgica que vai ser praticada logo à tarde", era a senha transmitida pelo telefone, normalmente com voz feminina
Às 14 horas do dia 3 de outubro, os colégios suspenderam as aulas, com recomendação para que os alunos se recolhessem às suas casas. O comércio cerrara as portas. Parecia que a população adivinhava o que se ia passar.
Um radiograma transmitido para o General Gil Antônio Dias de Almeida, Comandante da 3ª Região Militar, informava que o edifício dos Correios fora ocupado por civis armados, às 17 horas. As comunicações começaram a entrar no ritmo frenético que antecede as grandes convulsões sociais. O General Gil alertou o 8º Regimento de Infantaria, de Passo Fundo, e procurou contactar o General João Simplício Carvalho, Secretário da Fazenda, e Getúlio Vargas.
Novos radiogramas chegados ao Comando da 3ª Região Militar, provindos das guarnições de Bagé, Alegrete e Passo Fundo, revelavam indícios de levante armado iminente. Getúlio, Presidente do Estado, laconicamente transmitiu ao Comandante da 3ª Região Militar por intermédio de um oficial, a mensagem: "Diga ao general que as providências serão tomadas".
Às 17:25 horas ocorreu uma primeira ação contra o Quartel-General da 3ª Região Militar. Seu objetivo era capturar o general. A hora foi estudada com cuidado. O quartel-general tinha uma guarda reduzida e a maioria dos oficiais e praças já havia saído, por término do expediente.
Inicialmente, 50 homens da Guarda Civil simularam a rotineira passagem pelo portão. Seguiu-se o grupo de choque que se encarregou das sentinelas. Oswaldo Aranha, Flores da Cunha e o Capitão Agenor Barcelos Feio dirigiram as ações. O sucesso do ataque deveu-se ao perfeito planejamento. Nos edifícios vizinhos havia metralhadoras instaladas para bater o prédio do quartel-general. A pretexto de conserto nos encanamentos, abriram-se valas nas ruas Riachuelo e Canabarro, nas proximidades do quartel-general, que foram ocupadas por combatentes disfarçados de operários. Vários soldados da guarda, solidários com o movimento, além de deixarem seus postos retiraram os percursores das armas.
O General Gil foi preso. Um ataque comandado por Elpídio Marins forçou a rendição do Arsenal de Guerra. Exatamente às 17:30 horas subiu do Morro do Menino Deus o foguete que anunciava a deflagração do movimento revolucionário. Desde setembro a guarnição de Porto Alegre dispunha de reforços – eram o 8º e o 9º Batalhão de Caçadores, comandados, respectivamente, pelo Tenente-Coronel Galdino Esteves e pelo Coronel Toledo Bordini, e também uma seção de artilharia. O efetivo da tropa era de 1.500 homens, o que preocupava os revolucionários. O primeiro aderiu e o segundo ofereceu resistência, mas foi logo dominado e preso com alguns de seus oficiais.
O 4º Esquadrão, depois de pequena resistência, rendeu-se; alguém na unidade retirara os percursores das armas de fogo. A 2ª Companhia de Estabelecimentos, depois de intensa reação, cedeu, o mesmo ocorrendo com o Contingente da Carta Geral 43. O 7º Batalhão de Caçadores, comandado pelo Coronel Benedito Marques da Silva Acavan, cunhado do General Flores da Cunha, estava reduzido de um terço de seu efetivo, pois cerca de 200 homens desertaram. Somente três metralhadoras dispunham de percursores. Mas só pela manhã do dia 4 aceitava os termos apresentados por Goes Monteiro.
As ações em Porto Alegre resultaram em 19 mortos e quase 100 feridos.
O 8º Regimento de Infantaria (Passo Fundo) do Coronel Estêvão Leitão de Carvalho fora cercado pelos revolucionários e resistiu durante algum tempo. Outras unidades no Estado aderiram.

domingo, 8 de julho de 2007

A BATALHA DE ITARARÉ

A Batalha de Itararé acabou entrando para a a história como a "Batalha Que Não Houve!!!". Exageros a parte pode-se afirmar que houve combates importantes naquele outubro de 1930 que fizeram parte de um conjunto ao qual a batalha final pela cidade de Itararé, em São Paulo se insere. O combate decisivo foi evitado pela decisão do Coronel Paes de Andrade que resolveu parlamentar com o General Miguel Costa, comandante revolucionário. Ocorreram combates em Quatiguá, Capela da Ribeira e na Fazenda Morungava. Em todos são registrados mortos.
Negar os combates em 1930 na divisa entre São Paulo e Paraná, é a negar a existencia da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder, e deve ser esse o intento da negação.

Uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de São Paulo em 11 de julho de 1999 lança novas luzes sobre esse acontecimento. Reportagem de José Maria Tomazella

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Ossadas de Itararé podem mudar história de batalhas

Restos de soldados gaúchos mortos em combate mostrariam que cidade resistiu em 30 e 32.


ITARARÉ - O fotógrafo Gustavo Jansson, de 81 anos, guarda com cuidado, no meio de milhares de negativos e fotos, aquela que julga ser a prova de que a história foi injusta com Itararé, a 320 quilômetros de São Paulo, nas Revoluções de 1930 e 32. A foto mostra restos mortais de soldados gaúchos sendo retirados das sepulturas, em 1934, para o traslado para o Sul. É a prova de que Itararé resistiu aos invasores, segundo ele. A cidade ficou conhecida pela "luta que não houve" e pelas duas rendições às tropas gaúchas sob o comando de Getúlio Vargas.
Em 1930, pela história oficial, a batalha decisiva, anunciada com estardalhaço, não ocorreu e as tropas revolucionárias entraram em Itararé sem disparar um tiro. Dois anos depois, no mesmo lugar, os constitucionalistas amargaram nova derrota para as forças federais.
"Nossa cidade entrou para a história pelas portas do fundo e virou motivo de piada", diz o escritor da terra José Maria Silva, em seu livro As Batalhas de Itararé, editado em 1997.
A foto do arquivo de Jansson, filho de Claro Jansson, que fotografou as duas revoluções, fazem parte de uma campanha dos moradores de Itararé para contar sua versão das batalhas. O jornalista e pesquisador Hélio Porto identificou as ossadas recolhidas no cemitério local como de soldados do 8º Regimento de Passo Fundo (RS), mortos em 32.
No dia 18 de julho daquele ano, Vargas entrava vitorioso na cidade. "Mas a história não fala das baixas gaúchas e do sofrimento da nossa população naqueles dias de guerra, tanto que o armistício foi recebido com festa."
Túmulos - Em outro livro que será lançado no mês que vem, Memórias de Itararé - Revoluções de 30 e 32, as gêmeas Terezinha de Jesus Mello Martins e Maria Aparecida Silva Mello revelam a existência de quatro sepulturas de soldados gaúchos, mortos em combate na Revolução de 30, no local conhecido como Passo do Cypriano, na fazenda da família.
Os túmulos foram preservados pelo avô das gêmeas e os ossos não foram retirados. "Nas revoluções houve combate e mortes dos dois lados", diz Terezinha.
As irmãs contam que nasceram sob o tiroteio de 14 de outubro de 1930, data da chamada "batalha que não houve". Relatam histórias que ouviram de seus pais e avós, depoimentos de ex-combatentes vivos, como Valdomiro Marques e Manoel Luciano de Mello. Contam que os moradores tinham de entregar as casas para o aquartelamento dos soldados. Jansson, com 15 anos na época, ajudava o pai a fotografar.
"Eu ficava num abrigo construído embaixo da casa." Na Revolução de 32, segundo ele, soldados gaúchos foram mortos na Fazenda Morungava, usada como quartel pelas tropas federais. A vala onde estariam de 40 a 50 corpos foi localizada este mês pelo tenente Hélio Tenório dos Santos, da Sociedade Veteranos de 32. Ele espera confirmação do achado para comunicar o fato ao governo gaúcho.
Conforme Jansson, os soldados da Força Pública de Itararé mostraram mais coragem que o Batalhão Universitário Paulista (BUP), da capital. "Quando Vargas ordenou o ataque à cidade, eles gritaram em francês `salve-se quem puder' e bateram em retirada, mas os soldados ficaram na trincheira e resistiram até o fim."
Tabu - A repercussão que as duas derrotas tiveram no resto do País transformaram as revoluções em tabu em Itararé. "Até 1968, as rádios locais não tocavam músicas gaúchas e só nos últimos anos o Dia do Soldado Constitucionalista passou a ser lembrado", contou Porto. As trincheiras e os restos da batalha não foram preservados. Uma casa atingida por um tiro de canhão foi demolida.
Há cinco anos, o ex-vereador Marcos Tadeu Soares, assessor técnico da prefeitura, sugeriu a construção de um monumento ao soldado constitucionalista e enfrentou resistência. Mas a aceitação da obra foi o sinal verde para o projeto de resgate da memória das revoluções na cidade.
Este ano, 60 professores participaram de um curso de capacitação com duração de 12 horas, dado pelo tenente Santos. "Por meio desses profissionais, vamos tentar fazer os jovens e crianças entenderem melhor a nossa história."

quarta-feira, 4 de julho de 2007

A INDUSTRIALIZAÇÃO DA ERVA-MATE E SUAS CONSEQÜÊNCIAS PARA O ESTADO DO PARANÁ

[Continuação do texto anterior - 3 de 3]
A modernização definitiva da indústria da erva-mate deu-se pela ação do engenheiro Francisco Camargo Pinto, que devido as suas habilidades mecânicas estudou no Arsenal da Marinha de Guerra e especializou-se na Inglaterra e Alemanha. A sua ação e percepção inovadora transformou os engenhos rústicos em indústria de beneficiamento da erva-mate.
De volta ao Brasil, a partir de 1878, Francisco Camargo Pinto, dedicou-se a aperfeiçoar e a desenvolver máquinas destinadas ao trabalho de beneficiamento da erva-mate. Ele foi responsável pela instalação do “Engenho Tibagy”, pertencente a Ildefonso Pereira Correia, que ficou conhecido como Barão do Cerro Azul, onde pode ser promovida uma verdadeira revolução nos equipamentos e no processo de produção deste. Segundo Wachowicz (1988), as instalações do “Engenho Tibagy" foram transformadas de engenho para indústria, no exato sentido que a palavra transmite. Suas principais inovações foram:

a) Esmagador ondulatório;
b) Separadores por ventilação;
c) Torrador mecânico;
d) Elevadores e transformadores helicoidais, etc.

Costa (1995) contradiz Wachowicz ao chamar o estabelecimento de “Fábrica Tibagy”, e fazer uso da expressão indústria, denominação que pode ser julgada mais condizente com a natureza produtiva do negócio. Porém destaca o aspecto inovador do empreendimento:

Depois da abertura da Estrada da Graciosa e quando se iniciou a construção da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá transferiu a sua indústria ervateira para Curitiba. Construiu no Bairro do Batel, em 1878, a Fábrica Tibagy que ficou assinalada na história da economia ervateira pelas grandes inovações tecnológicas da época para o preparo da erva-mate, mediante a introdução do motor a vapor, trituradores, peneiras e compressores mecânicos.” (COSTA, 1995, p. 65-66)
A mecanização da produção levou, como dissemos, a uma transformação referente ao aspecto do trabalho. A escravidão foi substituída pelo trabalho assalariado. A complexidade decorrente da continua industrialização passou a exigir cada vez mais um trabalhador alfabetizado, conforme afirmado por Wachowicz (1988). Assim escolas tiveram de ser implantadas, foi incentivada a educação da população para satisfazer a essa necessidade da indústria.

“(...) As transformações da indústria do mate, ocorridas durante a segunda metade do século XIX, as inovações técnicas e o predomínio do trabalho livre são marcas importantes do progresso dessa produção (...)”. (SANTOS, 2001, p.52)

O processo de modernização e criação da indústria da erva-mate resultou em uma série de mudanças produtivas e sociais. A primeira inovação decorrente desse processo foi a constatação de eram necessários melhores meios de transporte entre o planalto de Curitiba e o Litoral. Feito inicialmente por tropas de muares, percorria-se os caminhos e as trilhas da Serra do Mar. A Serra era o maior obstáculo para uma melhoria efetiva do transporte e do aumento da produção e produtividade da erva-mate. O transporte por meio das tropas de muares possuía um elevado grau de dificuldade, percebida por Auguste Saint-Hilaire, viajante e naturalista francês que percorreu os Campos Gerais, Curitiba e o Litoral por volta de 1820. Ele foi o primeiro a realizar uma descrição cientifica da erva-mate (Ilex Paraguaiensis) e também testemunhou as dificuldades dos caminhos e trilhas da Serra do Mar:

A pior parte do caminho é onde começa a descida, e que tem nome de encadeado. O declive é abrupto demais, os ramos das árvores se estendem por sobre o caminho, escavado na montanha, tornando-o muito sombrio, e o chão é formado de pedras grandes e escorregadias, o que as vezes obriga as mulas a acelerarem o passo. Eu não me cansava de admirar a habilidade desses animais para se safar de situações difíceis. Eles são treinados inicialmente para fazerem a travessia da serra sem nenhuma carga no lombo, em seguida levando apenas a cangalha e, finalmente transportando a carga.” (SAINT-HILAIRE, 1995, p.139)

Os problemas decorrentes dos transportes foram resolvido quando teve inicio em 1855 a construção da Estrada da Graciosa e sua posterior conclusão em 1873. Essa estrada possibilitou a utilização de carroções, mesmo assim a demanda por transporte não era satisfatoriamente atendida. A ferrovia que solucionou definitivamente a questão da demanda, atravessando a Serra do Mar, por sua vez foi construída entre os anos de 1880 e 1885 constituindo-se em um grande feito de engenharia para os recursos tecnológicos da época. Conforme já evidenciado, a construção destas vias de transporte favoreceu o desenvolvimento de Curitiba.
Com as facilidades dos transportes, engenhos começaram a ser implantados na região de Curitiba e acabaram por modificar a estrutura econômica da região. Segundo Santos (2001), o deslocamento de engenhos do litoral em direção a Curitiba e a construção de novos estabelecimentos, demonstram esse novo clima econômico vivenciado na segunda metade do século XIX.
O número de engenhos que existiram no Paraná no século XIX, pode ser constatado pela analise de alguns autores que registraram esses dados: Pasinato (2003, p.9) coloca que “(...) em 1835, a região de Morretes e Paranaguá apresentava cerca de 20 fábricas de soque (...)”; Wachowicz (1988, p.128) afirma que “(...) em 1853, possuía o Paraná 90 engenhos de beneficiamento do mate (...)”; Oliveira (2001, p.27) evidencia que “(...) Por ocasião da Emancipação Política da Província do Paraná [1853] encontravam-se em Morretes 47 engenhos de erva-mate e em Curitiba, 29 (...)”.
A indústria do mate fez com que ocorresse um considerável incremento e também o crescimento nas atividades dedicadas a lhe servirem de assessório e a lhe dar suporte operacional. Os serviços de manutenção dos engenhos, a embalagem e o conseqüente transporte da erva-mate, exigiam as atividades de diversas empresas e profissionais em variados setores e atividades. Por exemplo: metalurgia, serrarias, marcenaria e gráfica, conforme demonstrado por Oliveira (2001).
Concentradas principalmente em Curitiba e região, essas empresas dedicadas a apoiar a produção de erva-mate, foram beneficiadas por este impulso extraordinário que atingiu todo o conjunto da economia paranaense. Ainda segundo Oliveira (2001) enquanto as exportações de erva-mate se mantiveram, essas empresas também se mantiveram em ascensão, pelo menos até que tivesse a crise econômica internacional de 1929.
A industrialização da erva-mate provocou uma melhoria constante em sua qualidade, o que favoreceu o aumento das vendas e a conquista de novos mercados. Iniciou-se um ciclo virtuoso na economia paranaense. A principal conseqüência econômica disso tudo, segundo Santos (2001) foi a inserção definitiva do Paraná no mercado internacional. Isto pode ser evidenciado pelo grande número de navios estrangeiros que passaram a atracar no Porto de Paranaguá para praticar o comercio e transportar a erva-mate para os mercados consumidores.

Os engenhos de erva-mate e a iniciação do processo de industrialização do Paraná

[Continuação do texto anterior - 2 de 3]


A Carta Régia de 1722, conforme Santos (2001) determinava que fosse permitido aos habitantes do sul do Brasil que estabelecessem relações comerciais com a Colônia do Sacramento (Uruguai) e consequentemente Buenos Aires. Outros produtos também poderiam ser exportados pelo Porto de Paranaguá. Na pratica isso representava o fim do monopólio comercial português na região e do exclusivo colonial.
A independência das colônias espanholas da região do Rio da Prata, a abertura dos portos brasileiros em 1808 e a assinatura do “Alvará de 1º de Abril de 1808”, permitindo a abertura de manufaturas e a atividade industrial no Brasil daria impulso às melhorias nas atividades relacionadas à erva-mate. A economia paranaense sofreria profundas mudanças e passaria a se dedicar à exportação.
A exportação de erva-mate se tornou possível e economicamente viável graças ao surgimento de inúmeros moinhos que funcionavam no litoral e também no planalto de Curitiba. O primeiro desses engenhos foi montado pelo espanhol Francisco Alzagarray, que chegou a Paranaguá em 1820, conforme exposto por Wachowicz (1988). Vários outros espanhóis seguiram seu exemplo e se instalaram na região.
Movidos inicialmente por rodas d’água, os engenhos atuavam como moinhos, refinando a erva-mate inicialmente preparada nos ervais. Neles era empregada mão-de-obra escrava e também livre e assalariada. Os escravos eram utilizados principalmente nos engenhos de soque da erva, de acordo com Santos (1995). Porém conforme os engenhos forma sendo mecanizados e dotados de maior aparato tecnológico, os motores a vapor são exemplos disso, a mão-de-obra cativa foi gradativamente diminuída. Para o trabalho no engenho exigia-se uma qualificação e habilidades cada vez mais especiais, bem como uma motivação que a escravidão não proporcionava. Essa mudança foi possível com o aumento da imigração européia percebida no Estado a partir da segunda metade do século XIX. Destaque-se que o uso do motor a vapor livrou os engenhos da necessidade de busca de fontes d’água com capacidade hidráulica para fazê-los funcionar.



“(...) num engenho de mate empregava-se mão-de-obra livre e escrava (...) quase tudo obedecia ao trabalho manual e eram pagas aos trabalhadores livres, diárias a partir de 2$000, sendo que um maquinista não ganhava mais de 100$000 por mês. De maneira geral, o engenho a vapor socava 40 cestos de erva por dia, ao passo que o movido à água ia pouco além de 30”. (SANTOS, 2001, p.51)

A Erva-Mate na economia do Paraná.

Escrevi este texto em 2006 e ele versa sobre a erva-mate e sua importancia para o desenvolvimento economico e industrial do Estado do Paraná nos séculos XIX e XX. Como este blog destina-se a História do Paraná acho oportuno publicar aqui algumas partes deste artigo. Uma versão dele foi apresentada no ADM-2006 da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Pode ser que ele seja útil para as questões sobre História do Paraná nos exames vestibulares do Estado.
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Origens do consumo e da produção de erva-mate
[Texto 01 de 03]

De acordo com Costa (1995) o perfume que pode ser considerado como característico do Paraná Tradicional é o aroma exalado pela erva-mate. Seria muito difícil considera como exagero a afirmação de que o ciclo representado pela erva-mate na História do Paraná, revestiu-se de uma importância bastante elevada. Esse ciclo conviveu com outro também importante que foi o do gado e do tropeirismo, vivenciado nos Campos Gerais.
A erva-mate é uma arvore nativa das florestas paranaenses, chamada em outros tempos de Congonha, a erva-mate (Ilex paraguariensis) é consumida pelos indígenas paranaenses e do Sul, em forma de “chimarrão” desde um período bem anterior à chegada dos brancos europeus. Conforme Gomes (1953) os índios a chamavam de “caa”, e os espanhóis já a conheciam quando fundaram as cidades guairenses de Ciudad Real Del Guairá e Vila Rica do Espírito Santo, ambas em território atualmente paranaense.

O uso do mate é conhecido desde as chegadas dos colonizadores no Brasil e no Paraguai. As primeiras notícias concretas datam de 1541. os documentos falam de uma bebida usada pelos nativos na região do Guairá, como verdadeiro vício. (...) o hábito se generalizou desde o peru ao Rio da Prata.” (COSTA, 1995, p. 35)


A difusão do consumo da erva-mate, em forma de chimarrão pela região platina, ainda segundo Costa, deve-se a uma série de fatores, sendo que alguns podem ser apontados:


a) Necessidade de melhorar o sabor da água salobra (salgada) misturando-a com folhas da erva;
b) Ausência de outras culturas alimentares para atender o vaqueiro ou boiadeiro em longas caminhadas;
c) Pouca disponibilidade de alimentos, o consumo da erva-mate elimina a sensação de fome, devido aos seus nutrientes.


Os padres jesuítas das reduções espanholas do Guairá chamavam-na de “erva do diabo”, conforme Wachowicz (1988), devido ao fato de que os índios atribuíam-lhe influências consideráveis sobre as suas emoções inclusive sobre aspectos sexuais (erotismo e virilidade). É certo que os jesuítas espanhóis acabaram por proibir seu consumo por um considerável tempo. Porém a interdição religiosa não foi suficiente para diminuir o consumo e arrefecer os hábitos já seculares da população. O consumo da erva-mate, a exemplo do tabaco, foi um habito indígena que passou a fazer parte da rotina dos brancos, portugueses e espanhóis, conquistadores. Não havia casas de espanhóis nem ranchos de índios onde não fosse bebida. Os bandeirantes levaram seu consumo aos portugueses, o chimarrão tornou-se por tempos também, um hábito paulista. Há que se lembrar que o Paraná fez parte da Província de São Paulo até 1853. Paranaenses dos três planaltos aprenderam a fazer uso do chimarrão. Seu consumo hoje é considerável em diversos paises na região do Rio da Prata, Argentina, Paraguai, Uruguai, Brasil (consumo de diversas formas) e também Chile e Bolívia.
De acordo com Costa (1985) os ervais se estendem pelo Estado até o Rio Paraná, penetrando no Mato Grosso do Sul. Adentra por santa Catarina, sempre longe do litoral, atinge a região de serras no Rio Grande do Sul. Estende-se ainda pela Argentina e Paraguai.
A região do alto Paraná foi a primeira a produzir e negociar com a erva-mate, em especial devido à facilidade do transporte pelos rios Paraná, Paraguai e Prata. Devido à instabilidade política nessa região produtora, os consumidores começaram a se voltar para o atual Estado do Paraná e Santa Catarina. Os ervais nativos dessas regiões passaram a suprir as necessidades de consumo que existiam na Argentina, Uruguai e Chile, sendo que a extração ocorria já no Paraná desde o século XVIII, quando o governo português demonstrou seu interesse por essa atividade econômica.
A extração das folhas de erva-mate, não era muito complexa, porem exigia trabalho sistemático e pontual dentro da mata:


O corte ou poda das erveiras é feito manualmente com facão ou foice. Existem arvores com mais de doze metros de altura. Geralmente o corte é realizado por homens, sendo que mulheres e crianças ficam reunindo os galhos cortados em feixes que serão levados para a operação do sapeco. O corte mutila, mas não prejudica a árvore que levará de até cinco anos para se regenerar e sofrer novo processo de corte. O sapeco é feito sobre fogo, a ação rápida das labaredas faz com que as folhas percam parte de sua umidade, evitando que ela escureça e adquira um sabor desagradável. Após isso a erva é submetida a uma secagem que dura de dez a doze horas, em instalações de calor intenso, como um forno e sem contato com a fumaça. Terminada a secagem, a erva é triturada e fragmentada, depois peneirada. A atividade do produtor local termina com o peneiramento da erva-mate, que assim se constitui na matéria-prima para os engenhos de beneficiamento”. (COSTA, 1995, p. 26-27).


O inicio das atividades industriais no Paraná será justamente com o beneficiamento desta erva-mate extraída e preparada nos ervais, nos engenhos que começaram a funcionar no século XIX.
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Bibliografia:


COSTA, Samuel Guimarães da. A Erva-Mate. Curitiba: Farol do Saber, 1995;
GOMES, Raul. Aspectos Gerais e Econômicos do Paraná. In: Guia Globo Paraná de Importação e Exportação (1953-1954). Porto Alegre: Clarim, 1953, p.103-206;
OLIVEIRA, Dennilson de. Urbanização e Industrialização no Paraná. Curitiba: SEED, 2001;
PASINATO, Raquel. Aspectos Etnoentomológicos, Socioeconômicos e Ecológicos Relacionados à Cultura da Erva-Mate (Ilex Paraguariensis) no Municipio de Salto do Lontra, Paraná. 112 f. Dissertação (Mestrado em Ecologia de Agrossistemas). Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiros - Piracicaba, Universidade de São Paulo, 2003;
SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem Pela Comarca de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural, 1995;
SANTOS, Carlos Roberto Antunes dos. História da Alimentação no Paraná. Curitiba: Fundação Cultural, 1995;
_____________________ . Vida Material, Vida Ecconômica. Curitiba: SEED, 2001;
SIMONSEN, Roberto C. História Econômica do Brasil (1500/1820), São Paulo: Companhia Editora Nacional, 3ª edição, 1957 ;
WACHOWICZ, Ruy Chistowam. História do Paraná, Curitiba: Gráfica Vicentina, 6ª edição, 1988.

domingo, 1 de julho de 2007

Norte Pioneiro - Primeira Santa da Igreja Ortodoxa na América Latina

O Norte Pioneiro não foi somente colonizado por paulistas e mineiros além de outros membros de outras diversas origens. A exemplo da colônia japonesa presente em diversas cidades. Colônias organizadas de europeus foram constituidas na região, exemplo disso é o Município de Joaquim Távora onde existe uma presença forte de ucranianos, poloneses, sérvios, letos e outros eslavos. Na Colônia São Miguel, de ucranianos, em 1986 ocorreu uma tragédia em que a escola rural do lugar foi consumida por um incendio em que pereceram a Professora Maria Aparecida Beruski e oito de seus alunos, outros foram salvos pela ação dela, que é aqui contada em reportagem publicada pela FOLHA DE LONDRINA, neste domingo 1º de Julho de 2007, com fotos de Evaldo Monteiro e reportagem de Wilhan Santin.
Fico contente que o sacrificio desta mestra seja lembrado e refenrenciado, e também por ter indicado ao reporter a existencia da Colônia e em especial da Capela de São Nicolau, embrião de tão bela reportagem e informação.


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IGREJA ORTODOXA - Paranaense pode ser 1 santa da América Latina (Wilhan Santin - Folha de Londrina 01 de Julho de 2007)

Chamada de “a mártir de Joaquim Távora”, a professora Maria Aparecida Beruski morreu em 1986, junto com oito crianças, na escolinha onde lecionava

''Esta é uma história que faz arder meu coração''. É assim que a professora Maria Miskalo responde quando questionada sobre a sua sobrinha, a também professora Maria Aparecida Beruski, que morreu em 1986, junto com oito crianças da escolinha onde lecionava, na Colônia São Miguel, em Joaquim Távora.
A tragédia foi manchete da FOLHA de 5 de abril daquele ano, o dia seguinte ao acidente, e ganhou destaque na imprensa nacional. O fogo começou com a explosão de um botijão de gás, que era utilizado em um fogareiro, posicionado na única porta da escola, onde a própria professora fazia a sopa para o lanche das crianças.
''A escola era como se fosse um salão. De repente, o botijão explodiu e as chamas se espalharam muito rapidamente. O calor era insuportável. Eu era um garoto muito ligeiro e consegui sair por uma pequena janela. Já do lado de fora, puxei outros colegas. Mas, infelizmente, não foram todos que conseguiram fugir'', relembra o agricultor Celso Leonel Carvalho. Na época, ele tinha 12 anos e foi a primeira das cinco crianças que conseguiram se salvar. Hoje, ele trabalha em uma propriedade rural, que fica a poucos metros de onde era a escola e guarda na memória as tristes cenas do acidente.
O clima foi de comoção na cidade de Joaquim Távora durante um bom tempo após a tragédia. Porém, para a família da professora morta, que deve se tornar uma santa da igreja ortodoxa, a emoção fala mais alto até hoje, tanto que a sua mãe, Ana Miskalo Beruski, não faz qualquer comentário sobre o assunto.
''Ela tinha 27 anos. Era uma pessoa muito bondosa. Amava seus alunos. Já faz algum tempo, mas para nós parece que a tragédia aconteceu ontem. Minha sobrinha deu a vida por seus alunos. Vendo o prédio pegar fogo, ela preferiu ficar com as crianças, ajudando a salvar algumas, do que fugir das chamas. É uma mártir, mas agora o nosso bispo quer canonizá-la'', comemora Maria Miskalo.
Porém, quando a pergunta é sobre os milagres que já podem ter sido realizados por intermédio de sua sobrinha, a professora prefere ser comedida.
''Temos notícias de diversas pessoas que dizem ter recebido graças. Acredito que ela pode ter realizado milagres, mas tudo isso está mexendo demais com a nossa família, prefiro não dizer muito'', sintetiza.
De acordo com o bispo da Igreja Ortodoxa Ucraniana no Brasil, Dom Jeremias Ferens, a intenção é canonizar a mártir de Joaquim Távora o mais breve possível. ''Na Igreja Ortodoxa não existe a beatificação, o que acelera o processo para proclamar alguém como santo. Temos certeza de que a Maria Aparecida será a primeira santa ortodoxa da América Latina. Para isso, precisamos comprovar a existência de pelo menos dois milagres. Porém, já temos mais do que isso'', diz, entusiasmado.
Segundo o bispo, os casos mais excepcionais de milagres atribuídos à professora paranaense são de uma pessoa curada de alergia e de uma criança que tomou querosene por engano e escapou da morte. Ele relata ainda que um dossiê com todo o histórico da candidata à santa já está praticamente pronto e, após ser discutido no 11º Concílio da Igreja Ortodoxa Ucraniana da América do Sul, que acontecerá em setembro, deve ser enviado para a Metropolia dos Estados Unidos. De lá, o processo segue para o patriarcado da Igreja Ortodoxa, na Turquia. A resposta final pode demorar de um a três anos.

terça-feira, 26 de junho de 2007

QUESTÕES DE VESTIBULARES DE UNIVERSIDADES PÚBLICAS PARANAENSES (Prof. Roberto Bondarik)


O que diferencia um paranaense do restante do conjunto dos brasileiros é a sua história, uma história rica, composta por trabalho e perseverança.

É justamente este passado que pode vir a garantir também o futuro de muitos jovens paranaenses que cursam o Ensino Médio, especialmente aqueles que estudam em escolas públicas.

Diversas faculdades e universidades públicas no Estado do Paraná passaram a cobrar de maneira muito intensa nos últimos anos, em seus concursos vestibulares, questões e conteúdos relacionados à História do Estado do Paraná.

Reuni neste trabalho uma série de exercícios que foram cobrados nos últimos anos em exames vestibulares das Universidades Estaduais de Ponta Grossa (UEPG), Maringá (UEM) Unicentro e Londrina (UEL). Para embasar cada um dos conjuntos de assuntos e temas, relacionamos textos que darão uma maior compreensão e entendimento sobre nossa história.
Espero que esta seleção de conteúdos e exercícios atinja o seu objetivo e se torne mesmo um diferencial vantajoso aos paranaenses que desejam cursar uma Universidade que possua qualidade, esteja dentro do seu contexto e da sua realidade cultural. Uma Universidade que possa auxilia-los a construir sua vida próximos de suas famílias, de seu meio. Uma Universidade que seja acessível, pública e gratuita.

Na seqüência alguns exercícios: (Respostas corretas em negrito)

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1) (UEL-PR/1999) - Duas décadas e meia atrás, Londrina pontificava como a capital do Paraná cafeeiro. Batida pela geada de 1975, perdeu aquela condição e foi obrigada a mudar de rumo. Primeiro, transformou-se em centro de serviços, depois, foi ganhando fôlego para outras atividades, para consolidar-se agora como:
a. ( ) Pólo industrial.
b. ( ) Centro madeirense.
c. ( ) Núcleo minerador.
d. ( ) Região vinícola.
e. ( ) Pólo siderúrgico.

2) (UEL-PR/1999) A atração de investimentos estrangeiros e nacionais para o Paraná tem provocado mudanças radicais no mercado de trabalho. As novas fábricas brasileiras que se dirigem nos próximos anos ao Estado tendem a convergir para o interior, privilegiando cidades que têm Universidades Estaduais fortes, como:
a. ( ) São José dos Pinhais, Piraquara, Colombo e Paranaguá.
b. ( ) Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Cascavel
c. ( ) Guarapuava, Prudentópolis, Castro e Periquitos.
d. ( ) Palmeira, Irati, São Mateus do Sul e União de Vitória.
e. ( ) Apucarana, Cambé, Cornélio Procópio e Jacarezinho.

3) (UEM-PR/2006) Sobre a história dos indígenas do Paraná, assinale o que for correto.
a. ( ) Os indígenas encontrados pelos europeus no território paranaense apresentavam um estágio de desenvolvimento cultural muito próximo dos Incas do Peru, dominando, por exemplo, a metalurgia e sofisticadas técnicas de construção em alvenaria.
b. ( ) Grande parte dos indígenas paranaenses que habitava o litoral e a região de Curitiba foi morta na guerra de extermínio empreendida pelos portugueses, em 1680, para sufocar a rebelião dos índios tamoios, que ficou conhecida como Confederação dos Tamoios.
c. ( ) Os Tupi-Guaranis constituíam uma das grandes famílias indígenas que já habitavam o Paraná antes da chegada dos europeus. Eles eram o grupo culturalmente mais desenvolvido, que dominava a navegação fluvial, a cerâmica, a agricultura etc.
d. ( ) Pode-se dizer que o processo de colonização portuguesa no Paraná resultou na total destruição da cultura indígena, impedindo qualquer transmissão de costumes, vocabulários e usos indígenas para a cultura civilizada erigida pelos portugueses.
e. ( ) Na primeira metade do século XX, os grandes responsáveis pela política de extermínio dos indígenas do Paraná foram o Marechal Cândido Rondon e o sertanista Cláudio Vilas Boas.



4) (UEM-PR/2006) A respeito da História do Paraná, assinale o que for correto.
a. ( ) Nos últimos anos, o estado do Paraná incrementou e diversificou suas atividades econômicas, passando, inclusive, a contar com um parque industrial automobilístico;
b. ( ) O estado do Paraná teve sua emancipação política formalmente reconhecida no século XIX, mas continua, até hoje, dependente da Província de São Paulo em vários aspectos administrativos;
c. ( ) O estado do Paraná sedia o Porto de Paranaguá, o maior porto do Brasil em volume de exportações e importações;
d. ( ) Durante o governo de Jaime Lerner, foi criado o Anel de Integração, com várias praças de pedágios estatais, com o objetivo de arrecadar fundos para construir novas rodovias pavimentadas;
e. ( ) Em função dos problemas gerados pela globalização, a região metropolitana de Curitiba sofreu um grande êxodo populacional nas duas últimas décadas do século XX.

5) (UEM-PR/2006) A respeito da colonização do Paraná e da participação dos imigrantes no desenvolvimento da região, assinale o que for correto.
a. ( ) Já no século XIX, foram fundados núcleos de colonização com a participação de imigrantes europeus;
b. ( ) A forte presença de imigrantes asiáticos e europeus, no Norte do Paraná, foi responsável por tornar a região um pólo produtor exclusivo de frutas e de legumes;
c. ( ) Além dos migrantes de outras regiões do país e dos escravos africanos, o Paraná recebeu apenas imigrantes alemães, no século XIX, e japoneses, no século XX;
d. ( ) Como o Norte do Paraná foi colonizado pela Companhia de Terras Norte do Paraná, pertencente à empresa inglesa Paraná Plantation, foi dada preferência na compra dos lotes aos imigrantes ingleses, levando os imigrantes de outros países a procurarem outros Estados da Federação para fundarem suas colônias;
e. ( ) O Norte do Paraná contou também com a participação de quase cem mil curdos oriundos do Iraque, que para cá vieram em um acordo realizado entre os empresários ingleses, o governo da Inglaterra e o governo de Vargas.

6) (UEL-PR/1992) No primeiro quartel do século XX, a controvérsia a respeito da jurisdição sobre uma vasta região que abrange porções dos atuais territórios do Paraná e de Santa Catarina provocou divergências entre esses dois Estados. O litígio, cujas origens eram antigas -muito anteriores à República- agudizou-se com o estabelecimento do Novo Regime, em decorrência direta da autonomia constitucional adquirida pelas unidades federativas. A designação pela qual veio a ser conhecida a região é:
a. ( ) Norte Pioneiro;
b. ( ) Taquaruçu;
c. ( ) Curitibanos;
d. ( ) Contestado;
e. ( ) Norte do Paraná;

7) (UEL-PR/1991) O chamado “Ciclo das Tropas”, na História do Brasil Colonial, esta associado à:
a. ( ) Descoberta e exploração do ouro em Minas Gerais, região que demandava gado vacum e muar;
b. ( ) Presença dos jesuítas portugueses que desenvolveram com sucesso as reduções;
c. ( ) Migração de japoneses que se intensificou no início do século XX, pouco antes da Primeira Guerra Mundial;
d. ( ) Presença da Companhia de Terras Norte do Paraná, sustentada por capitais provenientes dos Estados Unidos da América do Norter;
e. ( ) Situação conflituosa enter brancos portugueses e indígenas, que se utilizavam do gado muar em suas batalhas.

8) Os movimentos sociais de Canudos e do Contestado:
a. ( ) Atemorizaram os governos republicanos, sendo, por esta razão, aniquilados.
b. ( ) Advogaram idéias monarquistas, exaltando a figura de D. Pedro II.
c. ( ) Propuseram a reforma agrária, tomando as fazendas dos ricos agricultores.
d. ( ) Receberam apoio da Igreja Católica, em especial dos padres de localidades próximas.
e. ( ) Foram liderados por homens desvinculados das tradições locais.

9) (UNIOESTE-PR/2003) Com relação ao Estado do Paraná, é correto afirmar que:
(01) Devido à sua recente ocupação territorial, não há registros sobre conflitos indígenas.
(02) O território do Estado constitui-se em função do desmembramento do Estado de Santa Catarina.
(04) A base da economia paranaense, no período colonial, foi a produção de açúcar.
(08) O nome do Estado advém do rio fronteiriço entre Brasil e Paraguai.
(16) Na colonização, houve a predominância de europeus e de seus descendentes.
(32) Não houve descobrimento de ouro no território regional.
(64) Foz do Iguaçu, situada na fronteira oeste, originou-se a partir de uma Colônia Militar, criada com a finalidade de defesa nacional.
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10) (UEPG-PR/2006) Sobre o povoamento do Paraná, assinale o que for correto
(01) Curitiba iniciou seu povoamento de forma totalmente independente do litoral e especializou-se em lavouras diversas e comércio.
(02) As bandeiras foram grandes empresas organizadas pela administração colonial em busca de metais preciosos e não admitiam o apresamento do gentio.
(04) A miragem das minas propiciou o assentamento e a organização de uma comunidade em Paranaguá com outras atividades como o comércio, a lavoura e um pouco de criação.
(08) As descobertas dos mineradores em Paranaguá estimularam a administração colonial a investir na região buscando as minas de ouro.
(16) Os dois núcleos iniciais de irradiação de população para o Paraná foram o Rio de Janeiro e São Paulo; do primeiro, partiram as iniciativas oficiais e do segundo, os bandeirantes.
(______)

12) (UEPG-PR/2006) Sobre a Revolução de 30 no Paraná, assinale o que for correto.
(01) Esse movimento político recebeu grande apoio no Paraná, o que colaborou para a sua vitória.
(02) No Paraná, a Revolução de 30 iniciou com a articulação político-militar feita pelo major Plínio Alves Monteiro Tourinho, vinculado às famílias tradicionais do estado.

(04) A vitória dos revoltosos e a fuga do presidente de província Affonso Camargo para o litoral rumo a São Paulo fez Curitiba viver uma grande festa nas ruas centrais.
(08) O apoio popular ao movimento no Paraná foi grande; participaram velhos políticos dissidentes do Partido Republicano Paranaense, estudantes, profissionais liberais, grupos das nascentes classes médias e trabalhadores em Curitiba que formaram batalhões revolucionários.
(16) O Paraná teve papel estratégico na vitória da Revolução pois o caminho ferroviário para São Paulo estava aberto.

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quinta-feira, 14 de junho de 2007

REPORTAGENS RECENTES DA FOLHA DE LONDRINA (PARTE 02)

O Widson Schwartz, continuou procurando e hoje, dia 13 de Junho de 2007 (dia de Santo Antonio - padroeiro também das causas impossiveis) continuou com o trabalho da semana passada publicou na FOLHA DE LONDRINA mais um texto, considero-o de relevância histórica, sobre a Revolução de 1930 e o "Combate de Quatiguá". Reproduzo aqui a reportagem:
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QUATIGUÁ NO DIÁRIO DA REVOLUÇÃO
Widson Schwartz
FOLHA DE LONDRINA
13 de Junho de 2007

Quatiguá - A história da Revolução de 30 em Quatiguá (a 62 km de Jacarezinho, Norte Pioneiro) é escrita também pela comunidade, tendo sido tema de pesquisa dos alunos da professora de Estudos Sociais Mary Helen Godoy, na Escola de 1º Grau Pedro Gonçalves Lopes, em 1982. Há depoimentos de contemporâneos, jornais, a reprodução de um livro, o memorial em praça pública. Pode-se acrescentar o diário de Getúlio Vargas (*) e o jornal A Revolução - Órgão da Coluna do 1.º B. C. - Vitória ou Morte, n.º 1, editado em Jacarezinho (21.10.30), em que os vencedores relatam o ''Combate de Quatiguá''. Apenas dois tenentes feridos e cinco soldados mortos no lado revolucionário, ''deixando o inimigo mais de 100 homens mortos''. E os prisioneiros, 158.
A reportagem da FOLHA percorreu algumas cidades do Norte Pioneiro para contar histórias da Revolução. Na semana passada, foi publicada matéria sobre um fundo de vale em Joaquim Távora, que esconde ruínas de supostas trincheiras de paulistas no confronto de 1930.
Quatiguá era apenas um distrito policial quando foi inscrito no diário de Vargas, em 19 de outubro de 1930: ''Converso com dois oficiais da Força Pública Paulista e um do Exército, prisioneiros em Catinguá (sic). Pelos informes que prestam, convenço-me dos seus efetivos pouco numerosos e o moral abatido das forças adversas, com a surpresa e eficácia do golpe''. Vargas usou grafia que designa uma árvore brasileira em vez de Quatiguá, do tupi, que se traduz por ''Água dos Quatis''.
Um ''piquete de cavalaria'' em missão de reconhecimento, comandado pelo tenente W. Remião na direção do Pinhal, ''onde constava existirem forças inimigas'', precedeu o ataque revolucionário previsto para a manhã de 13 de outubro de 1930 em Quatiguá. ''Ouvimos os primeiros tiros trocados entre nosso piquete e os elementos avançados do inimigo que já vinham em marcha de aproximação para nos atacar.'' Eis a síntese dos parágrafos iniciais do artigo na quarta página de A Revolução, redigido pelo tenente José Ribeiro.
Os legalistas atacaram de frente e pelos flancos, daí o ''tiroteio renhido até à entrada da noite, quando foi amainando, amainando''. Antes do amanhecer os revolucionários contra-atacaram, comandados pelo capitão Klumb, major Alcides Araújo e capitão Amaro. ''Nossas tropas atiravam e em seguida, com vivas e gritos, avançavam. Após quatro horas de tiroteio o inimigo ficou completamente desorganizado, saindo em debandada louca.''
A população retirou-se do patrimônio ao perceber os revolucionários e dos cinco comerciantes apenas dois permaneceram. Um dos abrigos foi a fazenda de Pedro Gonçalves Lopes. ''Desceu aquele povaréu e ele zelou do povo. Foi homem muito falado, o ginásio tem o nome dele'', diz Alcides Gonçalves, de 87 anos, filho de Pedro.
Estudantes anotaram depoimentos de José Horácio Bueno e Isidoro Mocelim, revelando que gaúchos ameaçaram matar Pedro e ''chegaram a fazer sepultura para enterrá-lo''. Ele fora acusado de ser ''legalista''.
Estima-se que dois mil revolucionários passaram por Quatiguá, força superior ao contingente de paulistas, cuja rendição foi assinada no dia 25 de outubro em Sengés, pelo coronel Pais de Andrade e o major Januário Rocco.
Há o memorial na Praça Expedicionário Eurides do Nascimento, ''homenagem do povo aos heróis tombados em 1930''. Dos seis mortos sepultados sob o marco, cinco eram paulistas, conforme o depoimento de Mocelim.

(*) ''Getúlio Vargas - Diário, volume I (1930-1936)'', apresentação de Celina Vargas do Amaral Peixoto - Siciliano e Fundação GetúlioVargas Editora, 1 edição -1995.

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E SE APOSSARAM DE JACAREZINHO

Vitoriosa em Quatiguá, a revolução tomou posse de Jacarezinho, a principal cidade da região, ali designando o médico Gustavo Lessa ''governador provisório do município'' e o major Guiomar de Assis Moreira, delegado de polícia. ''Dada à retidão de caráter das ilustres novas autoridades, temos certeza que o povo de Jacarezinho jamais viu tão bem garantidos os seus direitos'', proclama o comandante do 1º Batalhão de Caçadores, major Alcides Araújo, em A Revolução.
O redator do jornal é o tenente José Ribeiro e o diretor, o próprio Lessa, que havia cessado em março outra publicação, O Jacarezinho, com um editorial conclamando ''às armas'', para ''arrancar nossa querida pátria das garras de políticos egoístas, autoridades despóticas e governos gatunos''.
Governador, seu primeiro ato é homenagear os oficiais do 1.º B. C., ''as primeiras forças revolucionárias que aqui bivaquearam'', mandando acrescentar os seus nomes aos das principais vias públicas, major Alcides na Rua Paraná. E ''o povo, numa justa homenagem, deu à E.F. Ramal Paranapanema o nome de general Flores da Cunha''. Iniciativa do major Guiomar Moreira, ''muito bem aceita e aprovada pelo Comando das Forças'', mudou para Oswaldo Aranha o nome da estação Guimarães Carneiro. (W.S.)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

REPORTAGENS RECENTES DA FOLHA DE LONDRINA



A FOLHA DE LONDRINA, publicou no dia 07 de Junho de 2007, uma reportagem tratando da Revolução de 1930, e suas implicações com a cidade de Joaquim Távora (vizinha de Quatiguá). Achei importante porque um jornal com a circulação e aceitação como a FOLHA, a atenção sobre o assunto vai ser despertada. Acredito que a região, não somente Quatiguá possam tirar proveito turistico desse evento. E tem mais despertar a atenção até nacional sobre o Norte Pioneiro significa também que algum empresário que esteja pensando em investir em algo que gere trabalho e renda se incline, conhecendo suas particularidades, a investir na região.

A reportagem foi conduzida pelo Widson Schwartz, com fotos de Evandro Monteiro.


Posso afirmar com segurança que essas trincheiras tavorenses sejam abrigos feitos pela população ou mesmo pelos soldados paulistas que debandaram apavorados com os gauchos e procuram alguns se esconder onde fosse possivel. Inclusive sei da localização de pelo menos mais um, terreno semelhante em Quatiguá, um lugar chamado "Paredão" (uma queda d´água no ribeirão Agua Limpa, no caminho para o bairro do Moquém)


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VESTÍGIOS DA REVOLUÇÃO EM JOAQUIM TÁVORA
Fundo de vale esconde ruínas de supostas trincheiras de paulistas no confronto de 1930


Joaquim Távora - Menos de 15 dias após eclodir a revolução em 3 de outubro de 1930, o general Miguel Costa deu a conhecer mensagem aos ''defensores do Catete'' - o palácio presidencial no Rio de Janeiro - alertando-os de que seria inútil resistir e lhes oferecendo garantia para que averiguassem tal evidência. Usando o termo ''convidamos'', o revolucionário sugeria ao Ministro da Guerra que enviasse aviões em reconhecimento sobre as ferrovias desde Itararé (SP), passando pelo Paraná, a Marcelino Ramos (RS), na divisa com Santa Catarina, ''podendo aterrar em nossos campos de Piraí (do Sul), Ponta Grossa e Castro, onde serão supridos, por nós, de tudo que necessitarem''.
Os aviões não seriam inutilizados, ''sob palavra de honra'', e o fim da resistência evitaria que se continuasse o ''inútil derramamento de sangue''.
Já em 14 de outubro, Getúlio Vargas recebia ''confirmação da primeira vitória importante das nossas forças'', no sentido de passar ao Estado de São Paulo, ''próximo a Jacarezinho, no Paraná''. Anotou detalhes em seu diário: ''Cinco horas de fogo, o inimigo retira-se para Carlópolis, deixando em nosso poder apreciável material de guerra e prisioneiros (entre) soldados e oficiais''. Compunham-se as forças adversárias de ''elementos do Exército e polícia paulistas'', comandados pelo coronel Pais de Andrade. ''As nossas, do 7º Batalhão de Caçadores de Santa Maria, sob o comando do Stoll Nogueira, da Brigada Etchgoyen.''
E Miguel Costa sitiou Itararé, que entra na história com a ''batalha que não houve'', porque o confronto em armas se deu ao Norte do Paraná, em Sengés, Quatiguá e Affonso Camargo - atualmente Joaquim Távora (a 52 km de Jacarezinho). Estão desaparecendo em Joaquim Távora o que se supõe tenham sido duas trincheiras dos paulistas, feitas com pedras, no fundo de um vale coberto por densa vegetação.
Para descer e subir uns 15 metros de barranco quase a prumo, o presidente da Companhia de Desenvolvimento de Joaquim Távora, Joel Alvarenga, a moradora Wilma de Pizol e o fotógrafo da FOLHA Evandro Monteiro usaram corda. Retornaram com a imagem de uma das trincheiras, em grande parte destruída, mais recentemente atingida por uma árvore que tombou. Muito difícil seria chegar até à outra, tão atravancado estava o caminho.
João Mendes de Oliveira, que tem um projeto turístico envolvendo a ferrovia e já desceu no vale, também está convicto de que eram trincheiras, levando em conta relatos e a rota de tropas legalistas (ou governistas) procedentes de Ourinhos para combater revolucionários em Quatiguá, a dez quilômetros de Joaquim Távora. Improvável, porém, um combate naquele sítio mais parecendo esconderijo.
Aquela ''primeira vitória importante'' mencionada por Vargas ocorreu nos dias 12 e 13 de outubro em Quatiguá, então um distrito policial, enquanto o município de Affonso Camargo fora instalado em setembro de 1929. Pelo ramal saindo de Jaguariaíva, os revolucionários chegaram de trem, ''transpuseram a estação de Quatiguá e prosseguiram para Affonso Camargo'', relata Aureliano Leite, autor de um livro baseado em depoimentos, editado em 1931. ''Afinal, aqui (em Affonso Camargo), no dia 12 de outubro, tiveram (os revolucionários) contato com os primeiros adversários.'' (*)
A Revolução é tema da disciplina de História em Quatiguá, onde estudantes ouviram contemporâneos. Sabe-se que o prefeito Miguel Dias, de Affonso Camargo, e o político Athalyba Leonel, de Piraju (SP), ao lado dos legalistas, planejaram arrancar os trilhos em alguns pontos. Não existe, porém, registro do que sucedeu. Embora as tropas revolucionários estivessem engrossadas por catarinenses e paranaenses, afirma-se que o confronto foi entre paulistas e gaúchos, estes cinco mil, ao entraram no Paraná, segundo Miguel Costa.
De trem, os estados-maiores civil e militar da revolução e as ''tropas de vanguarda'' encontraram-se em Ponta Grossa, dia 17. Getúlio Vargas anotou: ''Passamos Teixeira Soares e, enfim, à tarde, chegamos a Ponta Grossa, segunda cidade do Paraná, próspera, ciosa das prerrogativas e independência. Baluarte do liberalismo, onde, apesar da pressão governamental, ganhamos a eleição de 1º de março. Somos recebidos com entusiástica manifestação, a maior (...) depois de sair de Porto Alegre''.
(*) ''Memórias de um revolucionário: a Revolução de 1930 - Pródromos e Conseqüências''.

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SAIU AFONSO ENTROU JOAQUIM


Na cidade que teve o nome mudado pela revolução, a estação do trem é patrimônio histórico tombado pelo Estado e a comunidade aguarda a sua restauração. ''O projeto existe há algum tempo, falta a decisão'', informa Joel Alvarenga, presidente da Companhia de Desenvolvimento de Joaquim Távora, organização civil sem fins lucrativos. Entusiasmado, Joel observa que a estação é um símbolo da cidade e o projeto se encontra na esfera estadual.
No calendário (''folhinha'') com propaganda de estabelecimentos locais, o atrativo é a imagem da estação, construída em 1923, mas ostentando uma placa em que se lê a inauguração em 27 de setembro de 1926. De madeira, é muito semelhante à que existia em Wenceslau Braz.
Tavorense de 1942, neta do torneiro-mecânico Franz George Witzel, que chegou em 1929 para trabalhar na serraria de Affonso Camargo, Elga Oliveti Moreno sabe que a cidade ''começou em volta da linha; meu sogro era carroceiro e pegou o restaurante da estação em 1939, meu marido nasceu lá''. Outra que se entusiasma com a estação é Vilma De Pizol, que tinha dois anos ao chegar à cidade e recorda o embarque de gado no trem, na década de 50. ''A cidade terá uma referência turística se a estação for restaurada'', acredita Vilma.
Atualmente o município tem 9.600 habitantes e sua origem foi o povoado de Barra Grande, em Santo Antônio da Platina. Com o advento da ferrovia, as estações recebiam nomes de personalidades vivas, geralmente políticos. Affonso Camargo, aquela nas imediações de Barra Grande, foi homenagem ao presidente estadual (governador) de 1916 a 1920, depois nome do distrito e do município. Novamente governador a partir de 1928, Affonso foi deposto pela revolução e o general Mário Tourinho, assumindo a chefia do Estado em 5 de novembro de 1930, mudou o nome do município para Joaquim Távora, engenheiro civil e capitão do Exército morto em 1924. Mas, segundo uma ''variante'', a estação também foi denominada Getúlio Vargas.
O cearense Joaquim do Nascimento Fernandes Távora comungava os ideais positivistas dos tenentes, que queriam um Exército político e não apenas subalterno. Em Corumbá (MT) mobilizou o 17º Batalhão de Caçadores em solidariedade ao levante do Forte de Copacabana, em 1922; ao mesmo tempo, o tenente Juarez Távora, seu irmão mais jovem, era contido no Rio de Janeiro, ao tentar aderir com os cadetes da Academia Militar de Realengo. Debeladas as sedições, ambos foram presos e Joaquim desertou. Na revolução de 5 de julho de 1924, em São Paulo, na cidade bombardeada por aviões do governo Joaquim morreu em consequência de ferimentos. Tinha 43 anos.
O movimento de 24 terminou quando a Coluna Prestes se desfez, em 1927. Alguns de seus líderes atenderam ao chamado para a Revolução de 30, comandada por Juarez Távora no Nordeste. (W.S.)

PALESTRA NO COLÉGIO ESTADUAL "JOÃO MARQUES DA SILVEIRA" ENSINO MÉDIO

Em 25 de maio de 2007, estive em Quatiguá ministrando duas palestras, uma pela manhã e outra a noite, para os alunos do ensino médio do Colégio Estadual João Marques da Silveira Ensino Médio.
Foi gratificante por diversos motivos: foi nesse colégio que cursei o antigo segundo grau técnico, me formei em 1988; foi aqui que iniciei minha carreira no magistério dando aula de História; percebi que o assunto agradou e despertou a curiosidade dos alunos e professores; pude dirrimir duvidas auxiliando na dissolução de alguns equivocos correntes sobre a história que conheço de Quatiguá e do Norte Pioneiro.
A palestra versou sobre o "Combate de Quatiguá", apresentei os resultados preliminares de quase um ano de pesquisa que tenho conduzido, inicialmente de forma particular e prospectiva, agora como parte do PDE da Secretaria de Estado da educação do Paraná e Universidade Estadual de Londrina - UEL. Acredito que tenha sido a primeira vez que alguem apresentou tais informações reunidas sobre esse importante acontecimento da história paranaense e do Brasil.
Espero que surjam as histórias e as memórias pessoais, as narrativas e retornem as lembranças fazendo a história local ser valorizada.
Aproveito para publicar uma foto de 1950 do Colégio e que me foi enviada pela Telma Beck em 27 de abril deste ano. a foto da Estação em 1950 também foi enviada por ela nesta data.
A fachada não mudou muita coisa, é um projeto de construção padronizado e foi executado durante o primeiro governo de Moysés Lupion, construções escolares identicas a esse prédio são encontradas em diversas cidades do Estado. Conheço construções similares em cidades diversas como Jacarezinho, um prédio de dois andares, em Curitiba e um outro em Ponta Grossa, bem proximo da antiga oficina de manutenção da Rede Ferroviária.
Pelo que me lembro e me contaram, a construção foi em duas fases, inicialmente foram construidas a frente com as salas administrativas, as salonas dos cantos, duas salas menores e os banheiros ( o interesante sempre foi que do banheiro masculino se enxergava o feminino e vice versa, quando eu estava no colegial inventaram um biombo para o banheiro das meninas). Posteriormente fizeram mais quatro salas. Uma linha divisória das duas fases da construção podem ser perfeitamente identificadas.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Estação Quatiguá em 1985

Imagino que 1985 tenha sido um bom ano em Quatiguá, se é que me lembro, esta foto foi a primeira foto aérea da cidade que eu me lembro, tive um trabalho tremendo para consegui-la, não sei se a peguei com o Adalton Rodrigues quando ele tinha uma loja por lá. Mas é possivel ver o antigo campo ao lado da ferrovia, em minha opinião o campo deveria ter ficado lá mesmo. A estação o pátio ferroviário, foi um ataque a história e a memória da cidade a demolição da estação e do armazem do Instituto Brasileiro do Café. Espero que consigamos reconstruir ao menos a estação em breve.
Placa colocada no monumento aos mortos no Combate de Quatiguá, situada na Praça Expedicionário Eurides Fernandes do Nascimento, naquela cidade (Foto: Prof. Roberto Bondarik - Julho/2006)

Disponibilizo aqui um texto retirado do livro Memórias de Um Revolucinário, escrito por Aureliano Leite, publicado em 1931 e reeditado em 1950. Ele não é o único a se referir e descrever o Combate de Quatiguá. Existem diversos outros livros, revistas e jornais da época que registraram e descreveram o combate. Mas este foi o primeiro que consegui através da Linda dos Santos Nogueira, que trabalha na Prefeitura de Quatiguá, e que há tempos se preocupava com o assunto.
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MEMÓRIAS DE UM REVOLUCIONÁRIO

LEITE, Aureliano. Memórias de um revolucionário: A Revolução de 1930, Pródromos e conseqüências. lª edição. s/l. 1931.

Sucedem-se combates em toda a linha divisória de São Paulo – Paraná
Nas margens paranaenses, dos rios Paranapanema, Itararé e Ribeira do Iguape, desenrolam-se os primeiros encontros sérios.
Afirma-se que Itararé, fortificada pela própria natureza, robustecida pelas minas da entrada, atrás da qual há oito mil legalistas que dispõem de aviões do bombardeio e manejam peças inúmeras de todos os calibres, sem contar as centenas de metralhadoras, carros de assalto, granadas de mão e até gazes asfixiantes... se afirma ser Itararé intransponível.
Mas as tropas regulares dos revolucionários, que só agora se avizinham, já divisaram outros pontos por onde tentar o ingresso.
E por sua vez dispõem d mais de trinta mil homens com terrível preparo, forrado de todo o seu ardor de pretendidos libertadores da República, presa do perrepismo.
Seu grito de guerra é ainda uma homenagem ao presidente sacrificado: “Viva João Pessoa”.
Uma das estações radiográficas de Buenos-Aires anuncia que se processa na linha divisória de São Paulo até hoje na América do Sul.
Mil e uma bocas aterradas, enquanto o comunicado oficial fala em derrota dos revolucionários em Itararé, trazem, numa corrida para São Paulo, minúcias da luta travada às portas de Ourinhos. Os revolucionários entram em cunha por entre uma coluna legalista, formada da polícia e de legionários paulistas que os foram atacar em Colônia Mineira. Partem-na ao meio e envolvem a metade do lado do Paraná, aniquilando-a.
Mulheres gaúchas pontilhamos grupos dos revolucionários.
No resto da coluna paulista salteia o pânico. Atravessam em debandada a ponte sobre o Paranapanema, trazendo na fuga os retaguardianos que guarneciam Ourinhos.
Mas os revolucionários não querem ocupar Ourinhos. Poderiam entrá-la em desfile, com banda de música, tambores e clarins, à vanguarda. Obedecem, porém, a um plano geral de assalto que não lhes consente avançar demais.
A notícia da derrota voa à concentração dos legalistas em Piraju, Itapetininga e demais. Acodem os legalistas com três a cinco mil homens, das 4 armas. Reguarnecem Ourinhos. Destroem a imensa ponte recém construída. E aguardam do lado de São Paulo os invasores.
Do Norte sente-se a impressão de que as coisas pretejaram tanto que nem mais é objeto dos comunicados oficiais. Apenas incidentemente se vae apercebendo o que lá ocorre de verdade.

21 de Outubro (...) Loja de ferragens da rua de São Bento, havia um grupo, em torno de um magricela fardado. Ouviam-no atentamente, apesar da cautela.
O caixeiro que me servia era um “camarada”. Improvisou uma cena demorada de escolha do objeto, murmurando-me de início:
- Veja e ouça.
E eu vi um tenente governista que trazia ares de derrota estampados na cara comprida e amarela e nos gestos. E ouvi quase toda a sua narrativa. Chegara de Itararé, havia duas horas. Aquilo se tornara um inferno. Os riograndenses estão conquistando a entrada. Bombardeiam horas a fio tremendamente as posições legalistas. Depois crescem, com armas brancas, cortantes como navalhas. Caem muitos sob a metralha da legalidade, mas os remanescentes, aos gritos, transpõem os cadáveres dos companheiros e acabam conquistando, corpo a corpo, os lugares visados. Na legalidade já há desânimo e medo. Os invasores são em dezenas de milheiros. Já refizeram mal e mal a ponte e atravessam o rio. Também em Ourinhos ocorrem duelos pavorosos, sempre com o sucesso dos revolucionários, que restauraram a ponte sobre o Paranapanema e dão combate em território paulista. Ele, tenente, não volta mais para o Cambucí. Revolta o procedimento dos próceres, que põe a frente. Prefere morrer aqui a fome e frio, num xadrez do Cambucí. Revolta o procedimento dos próceres, que põe na frente os ingênuos reservistas e os estúpidos estrangeiros, húngaros e alemães.

(...) Cruzo no caminho com um conhecido que chegara de Itararé. É pessoa absolutamente idônea. Dou pela veracidade do seu depoimento o meus aval.
De agora em diante cedam logar à história nua e crua os boatos com relação ao que se passou no Sul, das portas do estado de São Paulo ao Rio Grande. E dispam-se os heroísmos da ficção para que apareçam os lanços humanos com suas fraquezas, Aliás, dês do cap. X ao XVIII, limitei-me a colecionar boatos.

Concateno e redijo os magníficos apontamentos que se me ofereceram. Falem eles a verdade.
O presidente Getúlio Vargas, investido de chefe supremo das hostes revolucionárias, fixara-se desde 11 de outubro em Ponta Grossa, Paraná, a cem quilômetros de Itararé. Rodeiam-no suas casa civil e militar. Ficara no governo do estado do Rio Grande do Sul Osvaldo Aranha. O exercício pertencia ao vice-presidente, deputado João Neves da Fontoura. Mas este preferira incorporar-se às forças combatentes.
Comanda o estado maior do Exército libertador o coronel Gois Monteiro. Serve-lhe de ajudante o cap. Ricardo Hall.
A frente onde o Paraná acaba e São Paulo começa foi dividida em três pedaços, repartidos pelo cap. Alcides Etchegoyen, major Miguel Costa e tenente João Alberto.
Ao cap. Etchegoyen tocou a região em face do Paranapanema e seu ramal férreo. Alcança de Cambará em frente de Salto grande, à Jaguariaíva, em frente de Itararé. Pela linha da fronteira, compreende Cambará, Jacarezinho, Ribeirão Claro, Jaboticabal, Carlópolis, Colônia Mineira, Boa Vista e Jaguariaíva - localidades paranaenses mais ou menos paralelas às seguintes paulistas? Salto Grande, Ourinhos, Piraju, Fartura, Itaporanga e Itararé. Seus homens, atingem a casa de 2.000. São eles: 1º B.C., tirado de tropas da Carta Geral da Brigada Gaúcha e do 9º B. C., capitaneado pelo major Alcides de Araújo; 2º B.C., composto de contingentes de 1º e 7º R.I., comandado pelo coronel Nestor da Silva Soares; 3º B.C., formado por elementos do 1º e 8º R.I., dirigido pelo tem. Cel. Olímpio dos santos Rosa; e um agrupamento misto, onde havia um batalhão de caçadores, uma bateria de artilharia e três companhias de metralhadoras pesadas.
Segue-se a região ocupada pelo antigo major da cavalaria paulista Miguel Costa, general para os revolucionários. Começa onde acaba a jurisdição de Etchegoyen e abrange toda a zona fronteira ao campo entrincheirado de Itararé. Forma como que o tronco da vanguarda, apoiada sucessivamente em Pirai, Castro e Ponta Grossa, onde se localizou o comando supremo. Conta com efetivo de 8.000 cabeças. O seu estado maior foi entregue ao major Mendonça lima. O maior destacamento desse grupo esteve sob a chefia do coronel Silva Júnior. Era este justamente que atuava na direção de Itararé. O segundo, que se compunha de 1.100 cavalarianos gaúchos, chefiou-o o deputado Flores da Cunha. O terceiro era comandado pelo major Alexino. Trazia, entre outros homens, a cavalaria paranaense. E o quarto estava sob as ordens do deputado Baptista Luzardo que, seguido de toda a irmandade, trocou logo o jaquetão pelo dólmã. Entre as unidades que compunham o setor M. Costa, destacam-se o 15º B. C. de Curitiba, sob ordens do cap. Gualberto, o batalhão Quim Cezar, 1º B. do 8º R., 13º R,I. ou batalhão Oldemar, batalhão Pleysani, todos apoiados por uma bateria de 12 canhões de 75 milímetros.
No extremo da linha de frente, terceiro pedaço, para as bandas do mar, desde Jaguariaíva até a Guaraquessava, jazeram as forças que obedeciam ao tenente João Alberto Lins Barros, promovido pela Revolução ao posto de coronel. Abrangia este setor Jaguariaíva, Serro-Azul, S. Miguel, Campina Grande e Guaraquessava, logares paranaenses correspondentes aos paulistas Itararé, Capela da Ribeira, Iporanga e Cananéa.
Eram 5.100 soldados. Precederam-nos elementos de emergência guiados pelo tenente Braga, em Capela de Ribeira, e cap. Vicente Mário de Castro, na zona litorânea. Aqui, o coronel Nestor Viríssimo, dos libertadores sul-rio-grandenses, operou com algumas centenas de homens. O comando da coluna repartia-se pelo coronel Valdemiro de Lima.
Aí fica, na dezena e meia de milhares de homens da vanguarda revolucionária, a sua localização em frente do inimigo, que desceu de São Paulo para combatê-los.
Havemos de ver, daqui a pouco, o que se desenrolou em toda essa faixa fronteiriça de quase quatrocentos quilômetros que se estendem de Salto grande à Cananéia. E direi, nessa hora, e que foram os combates de Catinguá (Quatiguá), Murungava e Sengés.
(...) Acrescente-se que o cel. Galdino Esteves, o qual nunca largou um minuto o chefe Getúlio, era o seu assistente militar, em Ponta Grossa. (...) E finalmente, que pelos dados do cap. Raul Seidl, ajudante de ordens de João Alberto, os homens em armas, no Sul, contra São Paulo eram 30.400, assim distribuídos: com M. Costa 7.800; com João Alberto, 5.100; com Etchegoyen, 1.800; e em reservas embarcados em 108 trens ao longo da E.F.S.P.R. Grande, 15.700 homens.

(...) Repartidos pelos três setores havia os legionários, catados em todas as classes, inclusive entre os estrangeiros. Pode-se em fim dizer, sem erro grande, que na frente do Sul se esparramavam catorze mil homens da legalidade assim classificados: polícia paulista, 8.000; Exército, 3.500; legionários, 2.500.
Postam-se agora os adversários uns em frente dos outros.
Afora escaramuças, menos dignas de registro no alinhavado destas crônicas, quantas vezes se chocaram e como a briga se desenvolveu? Direi já. Catiguá (Quatiguá), Sengés e Morungava – eis os três únicos combates travados às portas do estado de São Paulo, onde aliás se processou a maior concentração de soldados da história.
Comece-se pelo de Catiguá (Quatiguá). Aqui brigou a gente de cap. A Etchegoyen com a do setor de Salto Grane, que ia até a Colônia Mineira. Bateram-se pelo governo o cor. Sandoval e o major Agnelo de Souza.
O destacamento do cap. Etchegoyen destinava-se centralmente a forçar a entrada de São Paulo, por Ourinhos, assenhoreando-se, antes, do vale do Paranapanema. Foram os primeiros combatentes revolucionários que se aproximaram da fronteira. Por isto, os que primeiro se mediram com os que desceram de São Paulo. Atingindo a estação férrea de Jaguariaíva, onde a estrada se bifurca, deixaram a direção de Itararé para a direita e rumaram para Colônia Mineira, à esquerda. Atingiram-na sem tropeço. E não perderam tempo. Continuaram avançando, sempre pela via-ferrea. Transpuseram a estação de Catiguá e prosseguiram para Afonso Camargo. Afinal, aqui, no dia 12 de outubro, tiveram contato com os primeiros adversários.
Estes, passando por Cambará e Platina, já tinham esmagado os núcleos revolucionários locais, improvisados pelos paulistas Coriolano de Lima, Bráulio Barbosa e outros elementos democráticos.
A vanguarda revolucionária, batida entretanto, retrocedeu para Catiguá (Quatiguá), reunindo-se a seus companheiros do 1º e 2º B.C., acampados nas cercanias da estação.
O cap. Etchegoyen, como grosso de suas tropas postava-se na retaguarda, alturas da estação Wenceslau Braz.
Os paulistas foram atacar o inimigo em Catiguá (Quatiguá), no mesmo dia 12. A arremetida desenrolou-se rija e demorou horas. Interrompeu-a a noite. Na antemanhã de 13 a legalidade renovou a agressão. E teria destroçado o seu adestrado contendor, se este não fosse imediatamente socorrido pela retaguarda da estação Wenceslau Braz, que fechou, em trem, para Catiguá (Quatiguá).
Mas os revolucionários tornaram-se então num conjunto de 2.000 homens. Mesmo com os reforços recebidos, durante a noite de 12, de Carlópolis e Afonso Camargo (atual Joaquim Távora) a legalidade, ficara inferior em homens. Quantitativa e qualitativamente falando, pois a metade de sua ente era novata no ofício. Também em armas distingui-se por notável desvantagem.
Mas, enquanto o cap. Etchegoyen, chefe valoroso, premia de chapa a legalidade, o 7º R. I., que formava ao flanco direito do conjunto revolucionário, se adianta e executa movimento envolvente em torno do inimigo. Emboscado num cafezal e protegido pela artilharia revolucionária (6º R.A.M.), o 7º R.I. viu a sua acção coroada de pleno êxito. Entre o fogo de Etchegoyen, no peito, e o do cap. Achlling, nas costas, o destacamento de São Paulo desarticulou-se, bipartiu-se e retirou-se com fortes perdas. Agnelo, para Piraju, atravessando o rio Itararé. Sandoval, para Ourinhos, transpondo o rio Paranapanema. O Paraná ficou limpo da legalidade. Esta destruiu um pedaço da ponte de Ourinhos. E do lado de cá, agora reforçado, aguardou os invasores que prometiam investir por Chavantes.
Cifrou-se nisso o combate de Catiguá (Quatiguá). No setor de Etchegoyen, nada mais ocorreu até 24 de Outubro.

O segundo combate foi em Sengés.
Eis a acta da convenção de Sengês, que pôs termo à luta no Meio-dia: -

- Quartel General, em Sengés, 25 de Outubro de 1930 – ACTA PROVISÓRIA – Aos vinte e cinco dias do mês de Outubro de mil novecentos e trinta, reunidos em conferência os senhores generais Migue Costa, comandante do Grupo de Destacamento “Miguel Costa”; Flores da Cunha, comandante do Dest. “Flores”; dr. João Neves da Fontoura, vice-presidente do estado do Rio grande do Sul; coronel Baptista Luzardo, comandante da “Brigada Luzardo”; coronel Mendonça Lima, chefe do Estado Maior do Grupo de Destacamentos; coronel Silva Júnior, comandante do Destacamento “Silva Júnior”; maior Juvêncio, chefe do Estado Maior desse destacamento; capitão Ricardo Hall, representante do Grande Quartel General; coronel Pais de Andrade, comandante das forças adversárias, e major Januário Rocco, chefe de serviço topográfico do Destacamento “Pais de Andrade”, no Quartel General do Grupo de Destacamentos, em Sengés, acordam o seguinte:
a – ficam, desde esta data, terminadas as hostilidades;
b – o coronel Pais de Andrade mandará retirar das trincheiras todas as tropas, recolhendo-as aos acantonamentos e bivaques;
c – mandará recolher os legionários a Itararé, onde serão desarmados e o armamento recolhido à estação de Itararé à disposição do representante do general Miguel Costa;
d – convidará em nome do dr. Getúlio Vargas, presidente da República, os seus oficiais e praças para aderirem à revolução, sendo imediatamente incorporados ao Exército Libertador os que aceitarem;
e – satisfeitas as cláusulas anteriores seguirá imediatamente para Ponta Grossa onde conferenciará com o coronel Gois Monteiro;
f – a vanguarda do Grupo de destacamento seguirá para Itararé logo depois da chegada lá do coronel Pais de Andrade;
g – os depósitos de munição de Itararé serão entregues ao comandante dessa vanguarda;
h – o coronel Pais de Andrade não se responsabiliza pelo que tenha sido feito em sua ausência. – (a.a.) General Miguel Costa, general Flores da Cunha, coronel Baptista Luzardo, João de Mendonça Lima, H. R. Hall, major Juvêncio Fraga, Leonardo de Campos, Pais de Andrade e Januário Rocco.